2 ESTUDOS SOBRE IMPLANTE COCLEAR NA ÁREA EDUCACIONAL
3.2 O IMPLANTE COCLEAR
Diante do exposto, a principal motivação deste trabalho é analisar os impactos do implante coclear para a infância de uma criança surda frequentadora de uma escola de Ensino Fundamental que conta com políticas inclusivas e bilíngue.
O implante coclear é uma cirurgia que busca recuperar a percepção de sons. Mas, como é de conhecimento, trata-se de um procedimento novo e que implica, ainda, estudos acerca do bom resultado. Lane (1992, p. 209) afirma que:
[...] os implantes cocleares são dispositivos ainda altamente experimentais para serem aplicados em crianças surdas desde a infância, cujas conseqüências na sua qualidade de vida se desconhecem, e que, nessas circunstâncias, se torna impossível justificar eticamente a realização de experiências nessas crianças.
No Brasil, há relatos de que a discussão em torno do implante se iniciou em 1976, mas foi no período dos anos 1980 que ela se intensificou. O implante coclear vem tendo crescente procura, principalmente com os avanços da política da área da saúde, em que, já na maternidade, as crianças são submetidas ao exame da orelhinha, tornando mais rápido o diagnóstico de situações de surdez, que gera encaminhamentos. Outro fator que contribui para esse recurso são os avanços tecnológicos que, de certa forma, possibilitaram o surgimento de aparelhos mais modernos e com mais qualidade.
Segundo o site oficial Implante Coclear,4 o implante é um “[...] dispositivo eletrônico de alta tecnologia, também conhecido como ouvido biônico, que estimula eletricamente as fibras nervosas remanescentes, permitindo a transmissão do sinal elétrico para o nervo auditivo”, com o propósito de proporcionar aos implantados a sensação e os estímulos auditivos próximos de uma audição dita “normal”.
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Atualmente, vemos que o implante coclear vem se tornando uma opção para pessoas surdas ou com perda auditiva. Segundo os profissionais da área clínica, é um recurso efetivo, permitindo melhora significativa na maioria desses pacientes. Esse procedimento cirúrgico vem sempre acompanhado de habilitação e/ou reabilitação auditiva para colaborar com o empreendimento clinico.
Lane (1992, p.187) destaca:
Os implantes cocleares podem revelar-se uma prótese útil para as pessoas ouvintes que tenham perdido a audição. De acordo com a conferência consensual do Instituto de Saúde de 1988, o candidato ideal à realização de um implante é geralmente um adulto saudável, cuja profunda perda de audição é posterior à assimilação da sua língua materna e cujo desempenho na leitura dos lábios não pode ser aperfeiçoada através de um aparelho auditivo. Esta política só exige que o receptor do implante seja saudável, assegura que o adulto tome a decisão calmamente, após refletir maduramente sobre o assunto, muito depois da ocorrência da crise médica que o levou a surdez. Ao exigir que o receptor tenha ficado surdo depois de ter assimilado a língua materna, o consenso aumenta sobremaneira as vantagens de que o receptor vai se beneficiar com o implante.
Em alguns casos, o implante pode não dar uma resposta desejada em curto prazo e, mesmo respondendo a estímulos auditivos e também vocais, o tratamento é demorado e pode ocorrer rejeição do material implantado.
As crianças são o foco do implante coclear, pois são consideradas na melhor idade para reverter ou corrigir algo que está “fora da normalidade”. Esse procedimento geralmente é indicado na infância, ficando sob a responsabilidade da família a decisão da escolha dessa cirurgia.
Diante do diagnóstico da surdez, o primeiro profissional que a família procura é o médico. Estabelece-se entre eles uma relação nutrida pelo desconhecimento da família sobre esse assunto e pelo seu desejo de deixar o filho mais próximo da normalidade. Os familiares geralmente buscam a cura ou um tratamento que reverta a realidade da surdez.
O encaminhamento da criança é feito pelos profissionais da saúde, que fazem esse procedimento cirúrgico. Uma vez que a criança é menor, cabe aos seus tutores e à
Medicina a tomada de decisões por ela. As ações empreendidas pela família vêm do fato de que esta acredita que algumas ações são melhores para os surdos, principalmente na infância, como: não ter contato com outro surdo, não aprender Libras durante os primeiros anos de implante; e não estudar em escola que tenha política bilíngue, pois isso pode comprometer o tratamento.
Essa recomendação choca-se com determinações presentes na legislação sobre a educação escolar de pessoas surdas. O Decreto nº 5.626, de 2005, orienta que “[...] desde a educação infantil, o sujeito surdo tem acesso ao ensino da Libras e também da Língua Portuguesa como segunda língua para alunos surdos” (BRASIL. 2005, art. 14, cap. III). Esse decreto também determina a entrada na escola de profissionais que conhecem e trabalham com a língua de instrução do surdo, a Libras.
Diante das recomendações médicas e do desejo dos familiares de que seu filho “fale”, algumas famílias não aceitam que a criança tenha acesso à Libras. Para essas pessoas, o Decreto nº 5.626, de 2005, resguarda o direito de opção da família ou do próprio aluno com surdez por essa modalidade:
Art. 16. A modalidade oral da Língua Portuguesa, na educação básica, deve ser ofertada aos alunos surdos ou com deficiência auditiva, preferencialmente em turno distinto ao da escolarização, por meio de ações integradas entre as áreas da saúde e da educação, resguardado o direito de opção da família ou do próprio aluno por essa modalidade.
Parágrafo único. A definição de espaço para o desenvolvimento da modalidade oral da Língua Portuguesa e a definição dos profissionais de Fonoaudiologia para atuação com alunos da educação básica são de competência dos órgãos que possuam estas atribuições nas unidades federadas.
Como já citado, há conflitos entre os sistemas de saúde e de educação, devido a visões e procedimentos diferenciados que vêm sendo adotados em relação à criança implantada, a qual é acompanhada por fonoaudiólogas que, em alguns momentos, visitam a escola para fazer interferência, muitas vezes, no processo educativo desse aluno, contrapondo-se à política bilíngue.
Essa situação coloca um desafio, também, para os profissionais bilíngues que atuam no processo educacional dos alunos surdos implantados, demandando um direcionamento e orientações das ações, para que essa atuação seja mais respaldada e significativa.
Consideramos que o processo educacional do surdo implantado deve ser embasado por políticas que se fundamentem no respeito à diferença, construindo um ensino que desenvolva sua língua, sua identidade, dentro outros aspectos. Uma política que proporcione a esses sujeitos uma vida escolar mais significativa e contextualizada, desvinculada da visão clínica, que pode ocasionar prejuízos à aprendizagem. Os discursos precisam se transformar em práticas. Portanto, é necessário que nos preparemos para construir e garantir um conjunto de práticas pedagógicas que contemplem as peculiaridades dos surdos, como seres pensantes e pulsantes.
Propondo outro tipo de visão sobre a surdez e o sujeito surdo, emergem os Estudos Surdos, um movimento que o aproxima dos modelos de um sujeito sociocultural, que advém do homem cultural, em que o domínio da sua língua – a Libras – permite sua inserção social e possibilita sua constituição como pessoa. É por meio do uso da língua de sinais que o sujeito surdo terá condições favoráveis para produzir sua própria história.