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2 ESTUDOS SOBRE IMPLANTE COCLEAR NA ÁREA EDUCACIONAL

3.4 INFÂNCIA E A CRIANÇA SURDA

Para entender o universo em que vive a criança surda implantada, é necessário conhecer essa fase chamada infância e, também, os desafios para pesquisá-la. Para Sarmento (2005, p. 1), que trabalha com uma visão de criança na perspectiva da Sociologia, a infância está longe de “[...] ser meramente constituída por fatores biológicos, correspondentes ao fato de ser integrada por um grupo de pessoas que tem em comum estarem nos seus primeiros anos de vida e de natureza sociológica”. Toda criança é social, interage e interdepende de outros indivíduos, tanto crianças quanto adultos.

O autor defende uma visão de criança que se desenvolve em contato com o mundo e com as pessoas que a cercam. Essa visão implica um conceito de geração também compreendida em uma perspectiva histórica e social. Para Sarmento (2005, p. 3),

A geração consiste num grupo de pessoas nascidas na mesma época, que viveu os mesmos acontecimentos sociais durante a sua formação e crescimento e que partilha a mesma experiência histórica, sendo esta significativa para todo o grupo, originando uma consciência comum, que permanece ao longo do respectivo curso de vida.

Quinteiro (2002) nos aponta que, historicamente, a infância foi ignorada. Durante muito tempo, a visão da criança era a de “adultos incompletos” ou sujeitos dependentes dos adultos; porém, com o passar dos tempos, esses pensamentos vêm sofrendo mudança. Segundo Quinteiro (2002, p. 20):

Nas últimas décadas, a produção sobre o tema infância no campo da educação nos parece ter ampliado o seu campo de intervenção e, também, adquirido algum estatuto teórico-metodológico. Estudos sobre a infância como uma questão pública e não apenas privada começam a pipocar na produção acadêmica brasileira.

Como podemos perceber, a maneira como a infância tem sido vista atualmente é consequência das constantes transformações pelas quais a nossa sociedade vem

passando. Estudos direcionados a essa fase da vida que são mais voltados para a questão política colaboram para modificações na maneira de se pensar sobre essa fase da vida. Sarmento (2005, p. 9) escreve:

[...] são competentes e têm capacidade de formularem interpretações da sociedade, dos outros e de si próprios, da natureza dos pensamentos e dos sentimentos, de fazerem de modo distinto e de o usarem para lidar com tudo o que as rodeia.

O reconhecimento da criança ativa e participativa, construída socialmente nas interações e relações sociais vem sendo solidificado, mas ainda esbarra em um olhar de exclusão e negação de crianças no contexto histórico da nossa sociedade, muitas vezes com tratamentos sem nenhum respeito e sem preocupação com suas necessidades básicas. Por trás dessa condição da infância hoje, encontramos uma visão inferior ao adulto. Ariès (1981, p. 14) chama a atenção para um momento da história da “[...] criança em que esta era concebida como um homem em escala reduzida, onde a criança era, portanto, diferente do homem, mas apenas no tamanho e na força, enquanto outras características permaneciam iguais”. Esse é um olhar que contribui para a visão de um ser incompleto e que precisa ser “melhorado”.

Estudando sobre o termo infância, Sarmento (2005, p. 8) colabora com a seguinte afirmação.

[...] infância é a idade do não falante, o que transporta simbolicamente o lugar do detentor do discurso inarticulado, desarranjado ou ilegítimo. O aluno é o sem-luz; criança é quem está em processo de criação, de dependência, de trânsito para um outro. Como consequência, as crianças têm sido, sobretudo linguística e juridicamente, sinalizadas pelo prefixo de negação (são inimputáveis; juridicamente incompetentes) e pelas interdições sociais (não votar, não eleger nem ser eleitos, não se casar nem constituir família, não trabalhar nem exercer uma atividade econômica, não conduzir, não consumir bebidas alcoólicas etc.).

Para o autor, o termo “infância” é originariamente concebido como “ausência de fala”; também é perpassado por uma visão de incapacidade, do não habilitado. A infância é uma fase da vida marcada por uma visão de “cidadão incompleto”, devido ao fato de a idade não permitir o exercício de atividades básicas de um adulto. Essa falta de reconhecimento da infância gera descrédito com relação à criança, aos seus

interesses e aos seus posicionamentos; origina um olhar protecionista, que busca torná-la civilizada, a partir de uma ideia de sujeito que está sendo preparado só para o futuro e não é reconhecido em sua singularidade como criança. Enfim, uma concepção de criança que não sabe, que não possui capacidade de pensar adequadamente e que necessita de pessoas que a submetam a valores morais, devido à pouca idade e ausência desses valores, precisando ser disciplinada e conduzida moralmente.

As mudanças de cunho social, histórico, econômico e cultural vêm provocando novos olhares e conceitos de infância, possibilitando ver as crianças como sujeitos sociais, atores da sua própria vida. Segundo Sarmento (2005, p. 3):

[...] ao falarmos de crianças, não estamos verdadeiramente apenas a considerar as gerações mais novas, mas a considerar a sociedade na sua multiplicidade, aí onde as crianças nascem, se constituem como sujeitos e se afirmam como atores sociais, na sua diversidade e na sua alteridade diante dos adultos.

Então, para se pensar a infância hoje, é necessário avaliar o contexto atual e analisar de qual infância estamos falando, além de reconhecer a criança como ser social que tem uma dinâmica própria. O reconhecimento da infância por parte da academia viabiliza um olhar sobre ela que potencializa políticas e estudos que envolvem a educação e a proteção desses sujeitos.

Partindo de uma perspectiva da criança que possui uma infância igualmente constituída socialmente como um sujeito social, esta pesquisa busca refletir sobre essa fase da vida e também sobre a postura ética do pesquisador diante da realidade pesquisada. Quinteiro (2002, p. 29) orienta que “[...] olhar a infância e não apenas sobre ela, exige o descentramento do olhar do adulto como condição essencial para perceber a criança”, respeitando sua história e suas singularidades e sua infância.

Considerando as singularidades entre as crianças, bem como os múltiplos contextos em que vivem, alguns autores ressaltam a pertinência de se falar não propriamente

em uma infância, mas de múltiplas infâncias. As crianças vivem em universos culturais diferenciados, os quais possuem visões distintas sobre o que é ser criança e sobre o modo de se relacionar com elas; portanto, isso precisa ser levado em conta ao se discutir o assunto.