2 ESTUDOS SOBRE IMPLANTE COCLEAR NA ÁREA EDUCACIONAL
5.4 PERSPECTIVAS DE TRABALHO EDUCATIVO COM A CRIANÇA IMPLANTADA
No capítulo anterior conhecemos o modo de organização da escola para atender a criança com implante coclear. Vimos que a instituição, juntamente com Tiago e os profissionais, criava formas para tornar esse ambiente mais propicio ao acesso ao saber sistematizado e de relações sociais, cumprindo seu papel de um espaço formal de transmissão do conhecimento. Porém essa forma de organização e prática pedagógica não era suficiente para atender à necessidade escolar da criança, como sinalizado anteriormente.
Diante da constatação da dificuldade da escola em ofertar um ensino de qualidade para a criança, este subitem propõe discutir essa realidade apresentada.
Um ponto que precisa ser refletido é o trabalho do pedagogo escolar, como uma fonte de organização e articulação no processo pedagógico da escola.
Possuindo uma função de articulação e organização, o pedagogo se torna um agente que tem a oportunidade de potencializar e organizar o rumo da política de
educação bilíngue, tornando-se importante na educação de alunos surdos. A política de educação para surdos disponibiliza profissionais na área bilíngüe, que atua com uma linguística específica (língua de sinais). Diante dessa condição, é necessário que os profissionais da escola conheçam a política bilíngue e as suas implicações na escola, pois não basta inserir o aluno e os profissionais bilíngues, é necessário saber o que fazer e se envolver com eles. E o pedagogo pode contribuir muito nesse processo. No relato a seguir, veremos a visão da pedagoga do turno matutino sobre a política bilíngue na sua escola. Afirma a pedagoga que afirma
[...] ela está longe ainda de ser realizada e concretizada, até mesmo pela defasagem de profissionais, porque muitos dos profissionais como, realmente, o professor de Libras, ele não é um professor de Libras, ainda, agora que ele foi inserido como professor, tanto que ele fazia parte da administrativa, tem uma carga horária diferente, então ele está um pouco distante de chegar a questão, realmente, estruturada, mas importante. (PEDAGOGA do matutino, 3-12-2012).
A pedagoga sinaliza a falta de estrutura na política bilíngue, principalmente na forma como os profissionais atuam nessa área. Na sua fala mostra a necessidade de uma escola mais planejada para os alunos surdos.
Diante dessa demanda apresentada pela pedagoga, é necessário ampliar essa problemática e trazer a Secretaria de Educação do município como gerenciadora de algumas demandas, como: contratação de profissionais qualificados e formação dos profissionais, tornando-se parceira da escola, e não só um órgão fiscalizador. Essa união entre escola e Secretaria fortalece a política bilíngue no município. Uma política fortalecida contribui para sua permanência e aceitação.
Outros entraves foram percebidos durante o estudo de campo, como a ausência de intérprete para o aluno surdo, situação que gerou desconforto para Tiago e os profissionais. A falta desse profissional era citado pelas pessoas envolvidas na pesquisa. Essa situação foi pontuada no capítulo anterior, mostrando que foi uma perda para a criança surda, já que a Libras é a língua que mais colaborava para seu processo social e cognitivo. A criança só não teve um prejuízo maior porque a
professora bilíngue ia na sua sala aula para interpretá-lo quando era solicitada. Mas essa ação era paliativa e não atendia de fato às necessidades específicas da criança, dos profissionais bilíngues e dos professores regentes. Diante desse fato, a escola se justificava, dizendo que estavam fazendo o que podiam mediante essa carência. E de fato estavam fazendo o que podiam.
Um dos aspectos também constados na pesquisa refere-se a um certo isolamento de Tiago em relação aos colegas. Como não havia outros alunos surdos no turno em que Tiago estudava e seus colegas ouvintes sabiam pouco de Libras, as possibilidades de interação eram reduzidas.
Um dos possíveis caminhos para solucionar esse problema é a intensificação das oficinas de Libras para as crianças ouvintes. Outra possibilidade seria estimular a matrícula de outras crianças surdas nessa escola e no turno de Tiago.
Além de um quadro de déficit da escola com profissionais bilíngues e do número reduzido de alunos surdos, temos outra questão, o implante coclear de Tiago. A possibilidade da criança de ouvir era quase despercebida ou não utilizada no seu processo escolar, já que Tiago não respondia bem ao implante, mesmo que em alguns momentos utilizasse a oralidade como apoio na interação social, principalmente com seus colegas ouvintes e profissionais que não sabiam Libras. A condição de a criança ser implantada era inviabilizada pelos profissionais por sua boa resposta à língua de sinais. Colaboravam para poucas tentativas de um ensino voltado para o estímulo oral da criança nas várias vezes em que ela ficava na sala de aula sem o intérprete, só com a professora regente que explicava o conteúdo por meio da fala. Ou seja, existia um estimulo auditivo e oral de forma não intencionada em sala de aula, pela ausência do intérprete de Libras, mas esse estímulo não era valorizado.
A defesa do implante e a crença de que a criança surda implantada terá uma resposta auditiva e oral conduz, de acordo com muitos fonoaudiólogos, à ideia de
que a criança não necessita da língua de sinais e esse entendimento é também encaminhado para o espaço escolar. Mas, segundo Elert (2008, p. 73),
[...] no caso do implante coclear, esse processo exige muito treinamento e disciplinamento, que inclui várias visitas ao médico e ao fonoaudiólogo para “mapear os eletrodos”, além da participação em inúmeras sessões de terapia de fala para “aprender a escutar” e logicamente a falar.
Diante de um procedimento que exige muito treino, envolve vários profissionais e tempo para uma boa resposta, como lidar com essa criança implantada que está na escola, que necessita de ensino sistematizado e não dá conta da língua oral? Como dialogar com alguns pais que não aceitam a Libras? Em contrapartida, as escolas, com seus discursos em prol da política bilíngue, também desconsideram o implante na vida dessa criança. Tiago fazia parte dessa discussão, implante coclear e política bilíngue, e várias orientações que determinam a vida de uma criança implantada. Em essa razão, o próximo capítulo contará a trajetória de Tiago, dialogando sobre si próprio, ou seja, destinado a ser um espaço para ouvir a tentativa de voz à criança e tratar dos contextos em que ele interage e convive: a mãe, as fonoaudiólogas e a escola.