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Tabela 3.2 Composição do CMN – Evolução Histórica

3.2 Aspectos Econômicos

3.2.2 Implementação do Plano Real

Durante o governo do Presidente Itamar Franco – que assumiu o cargo após o

impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Melo em setembro de 1992 – o então

Ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso foi o artífice de um plano de estabilização inovador, que abandonava as idéias de congelamento de preços ou sua

prefixação99.

O núcleo técnico formulador da proposta era um grupo de economistas oriundos da PUC do Rio de Janeiro, com experiência de governo e em anteriores planos de

estabilização fracassados100. Como já referido anteriormente, foi importante o

insulamento desta equipe técnica dentro do governo, o grau de liberdade que possuiu para implementar o plano e também o compartilhamento de idéias comuns entre seus membros.

O plano elaborado passaria por três fases. Nas palavras de Edmar Bacha:

“O primeiro estágio era um mecanismo de equilíbrio orçamentário. O segundo introduzia uma unidade de conta estável para alinhar os preços relativos mais importantes da economia. O terceiro estabelecia a conversão dessa unidade de conta na nova moeda do país, a uma taxa de paridade semi-fixa com o dólar.”101

A primeira dessas fases foi consubstanciada no Fundo Social de Emergência que, aprovado por emenda constitucional (emenda de Revisão n° 1, de 1° de março de 1994), liberava cerca de 20% do orçamento federal das vinculações impostas, o que permitia uma folga para o governo cortar despesas e redirecionar os recursos para outros gastos, como por exemplo o pagamento de juros da dívida pública. A lógica era de que o estado brasileiro estava “equilibrado” fiscalmente com a alta inflação, e a queda desta exigia um novo patamar de despesas compatível. Com a alta inflação havia o imposto inflacionário – que servia como um receita adicional ao Tesouro Nacional – e também,

99 (Bacha, 1998; p. 15). Esse trabalho de Edmar L. Bacha é bastante rico em termos teórico, factual e

interpretativo sobre os dilemas do plano, devido ao fato do autor ter sido um dos formuladores do Plano Real. Boa parte dessa seção baseia-se neste artigo.

100 A equipe formuladora do plano era, basicamente: Edmar Bacha, Pedro Malan, Pérsio Arida, André

Lara Resende e Gustavo Franco. Posteriormente juntaram-se ao grupo José Serra, Francisco Lopes e José Roberto Mendonça de Barros (Lopes, 2003; pp. 37 e 39. NR 4 e 7)(Franco, 2000; p. 269).

em virtude dos processos de indexação no recolhimento de tributos, um efeito Oliveira- Tanzi ao contrário: no Brasil as receitas tributárias eram protegidas em termos reais e as despesas eram fixadas nominalmente, o que permitia um controle de gastos na “boca do caixa”. Para os elaboradores do plano, era necessário dar uma prova de austeridade fiscal ex ante, demonstrando que o governo federal não precisava dos ganhos

financeiros da inflação102.

Ponto importante no diagnóstico do plano era que o governo experimentava um alto déficit nominal decorrente sobretudo da inflação, pois o conceito de déficit nominal

engloba o pagamento de juros sob a forma de correção monetária103. Se o resultado

operacional estivesse equilibrado, isto é, se os gastos “reais” e o pagamento de juros “reais” “coubessem” dentro das receitas, acabar com o déficit nominal era uma questão

monetária apenas; a própria queda da inflação extinguiria o déficit nominal104.

A segunda fase, a introdução da unidade de conta estável, ocorreu em 1° de março de 1994, com a Unidade Real de Valor – URV (Medida Provisória n° 434, depois Lei n° 8.880, de 1994). Essa seria como um indexador geral, balizador para todos os preços da economia, sendo reajustada diariamente pelo Banco Central conforme a variação de três

índices de preços (IGP-M, IPCA e IPC)105. O objetivo era que a URV servisse como um

período de transição entre a moeda velha, com inflação, e a nova, que ainda seria criada. Em termos teóricos, a idéia era que os preços relativos da economia pudessem se alinhar voluntariamente em termos de URV, sem transmitir pressões inflacionárias para a moeda nova. De fato, num período de alta inflação com indexação, era comum que os contratos apresentassem diferentes indexadores e diferentes períodos de reajuste, por isso era importante que houvesse uma padronização, para que na implantação da moeda nova não houvesse preços desalinhados que precisassem de reajustes. Em termos

101 (Bacha, 1998; p. 18).

102 Vale destacar que, para os formuladores do plano, o descontrole orçamentário era visto como causa

básica da inflação no Brasil (Bacha, 1998; p. 13). Este é um ponto importante, pois as causas da inflação no Brasil foram objeto de uma discussão acalorada por muitos anos, em que alguns apontavam como causas o desequilíbrio orçamentário e outros enfatizavam questões estruturais, como o poder de mercado dos oligopólios e sua capacidade de elevar preços – uma interpretação neokeynesiana, defendida por L. G. Belluzzo, por exemplo.

103 (Giambiagi e Além, 2000; pp. 70-72). 104 (Bacha, 1998; p. 15).

práticos, buscava-se, no período, que a maioria dos contratos migrassem voluntariamente para a sistemática da URV, a qual não permitiria reajustes inferiores a um ano. Não obstante, o governo teve de criar regras especiais para a conversão de salários, aluguéis residenciais e mensalidades escolares, pois eram preços relativos muito importantes econômica e politicamente.

Finalmente, em 1° de julho de 1994 o governo começou a emitir URV, batizada como Real. Num primeiro momento instituiu-se a paridade da URV-Real com o dólar norte-americano. O valor de R$ 1,00/US$ 1,00 era, no entanto, um teto. O Banco Central comprometia-se a vender dólar se a cotação tentasse ultrapassar esse valor, mas não havia, contudo, um piso. E foi essa queda da paridade que realmente ocorreu. Segundo interpretação de Gustavo Franco, era natural que isso ocorresse, pois a

economia iria se monetizar após o fim da inflação alta106.

Vale esclarecer, conforme assinalou Bacha107, que o Plano não contou em seu

início com o apoio do FMI, que desejava políticas fiscal e monetária mais restritivas. No entanto, para os formuladores do plano, essas políticas foram sempre passivas durante o regime de inflação, e poderiam tornar-se mais rígidas apenas com o final da inflação crônica.