2. REVISÃO DA LITERATURA

2.4 Implicações Pós Cirúrgicas da Histerectomia

Para Salvador, Vargens e Progianti, (2008, p.321), o poder social feminino sobre a reprodução é histórico, e esteve sob o poder do Estado, da Igreja e da Medicina, que se afirmavam sobre óticas masculinas, para controlar o corpo feminino e o poder de reprodução.

Portanto, os conceitos aprendidos acerca do útero e suas funções são transmitidas de geração para geração, e ainda vigoram até os dias atuais. Real et al. (2012, p.124) diz que o útero é um órgão biologicamente associado à reprodução e ao controle da sexualidade, portanto sua extirpação é considerada pela mulher, um ato agressivo e mutilante que pode prejudicar sua vida sexual, suas emoções e a qualidade do relacionamento com seu parceiro.

As mulheres que passam pela experiência de uma histerectomia, podem sofrer implicações negativas no pós operatório, relacionado a mitos e crenças e seus significados concedidos ao útero, e implicações positivas pelo fim dos sintomas da doença que a levou a realizar a cirurgia. (MERIGHI, et al., 2012, p.609)

De acordo com Freitas et al. (2016, p.2), estudos realizados no Rio de Janeiro, em São Paulo e Rio Grande do Sul com mulheres histerectomizadas, revelam que, a ausência do útero, interfere tanto no biológico, quanto no emocional. Para muitas mulheres "remover o útero significa perder um pedaço importante de si", o que a leva a pensar que sua libido e prazer sexual vão diminuir ou cessar totalmente, gerando um sentimento de vazio e baixa autoestima.

A perda do útero pode ser vivenciada como algo negativo pela mulher que não conhece seu próprio corpo, sua saúde física e mental. Muitas mulheres durante consulta ginecológica, fazem perguntas como, vou ficar oca?, vou ficar vazia?, vou me sentir menos

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mulher?, relacionando a perda do útero à diminuição da libido e a perda da identidade feminina. (FEBRASGO, 2004, P. 107)

São várias as complicações que podem ocorrer no intra e pós-operatório de uma cirurgia de histerectomia, tais como [...] hemorragia, infecção, deiscência da ferida operatória, infecção urinária e pneumonia pós-cirúrgica, além de lesões dos órgãos adjacentes como ureter, bexiga e intestino. E complicações tardias como: distúrbios sexuais, psicológicos, distúrbios do climatério, disfunções do trato urinário inferior, constipação intestinal e impossibilitar a mulher de gerar filhos. (OLIVEIRA; FERRAZ. 2012, P.42)

Assim, a histerectomia pode interferir no emocional, na vida sexual, social e alterar a anatomia pélvica da mulher, [...] modificando o tamanho e o formato dos órgãos genitais, alterando suportes anatômicos e inervação local, levando a dificuldade de penetração vaginal e dispareunia. (LUNELLI et al., 2014, p.50)

Reafirmando a fala dos autores acima citado, Gomez e Romaneck (2013), diz que a histerectomia provoca modificações no perfil anatômico da mulher, baixa autoestima com relação a sua autoimagem. Por ser uma cirurgia irreversível gera preocupações com relação à sexualidade e reprodução. É necessário um olhar mais abrangente, multiprofissional à mulher histerectomizada, com escuta sensível, e humanizada.

É com muita frequência que a enfermagem planeja seus cuidados conforme o modelo medicalizado, focando sua atenção para a cura do corpo e o bem estar físico do paciente.

Assim, na maioria das vezes as crenças ou valores construídos pela mulher ao longo de sua vivência, não são levados em consideração, deixando essa mulher desprotegida psicologicamente. (SILVA; VARGENS, 2016, p.2)

A mulher deve ser acolhida com integralidade, equidade e humanização, abordando a questão da sexualidade antes da cirurgia, para que, através do conhecimento se libertar de mitos e crenças e significados atribuídos ao útero ao longo dos tempos, e assim vivenciar esse período sem maiores consequências.

Freitas et al. (2016, p.9), refere em seu artigo, a necessidade da enfermagem realizar estudos sobre as implicações pós cirúrgicas da histerectomia, focado nas ações de assistência e educação, para prevenir complicações.

[...] muitos são os fatores e implicações da histerectomia no processo de viver de uma mulher, os quais podem desencadear diferentes

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representações da cirurgia. Tais representações advêm das vivências, conceitos, preconceitos e expectativas de cada uma. É sabido que os valores culturais, muitas vezes sem correspondência com a realidade, podem representar uma grande barreira para os profissionais que atuam na promoção da saúde e na prevenção de doenças. Logo, é necessário que aqueles que atuam na área de assistência à mulher em processo de histerectomia, desenvolvam um conhecimento crítico que não se limite a intervenções baseadas, exclusivamente, nas dimensões biológicas e, assim, proporcionem espaço para que tanto o corpo biológico quanto o social sejam considerados, visando minimizar as seqüelas que poderão advir. (SILVA et al., 2014, p.03)

Para Gomez e Romaneck (2013, p.19-20), a equipe de enfermagem precisa estar atenta aos cuidados prestados à mulher que irá realizar a cirurgia de histerectomia, para que ocorra o mínimo de risco. Assim, a enfermagem deverá acolher essa mulher de maneira integral, de modo que contemple sua saúde biológica e emocional.

Contudo, o autor acima citado, recomenda fazer uso da Sistematização da Assistência de Enfermagem Perioperatória, (SAEP) durante o perioperatório, de modo que ocorra uma [...] assistência diferenciada e abrangente, proporcionando as orientações, o conforto, o respeito e a escuta sensível que a mulher hospitalizada necessita diante de uma cirurgia de histerectomia.

Os passos para realização da SAEP são: O pré-operatório, tem início ao tomar a decisão de realizar a intervenção cirúrgica. É nesse período, que o enfermeiro pode através da sistematização da assistência de enfermagem, realizar uma avaliação emocional da paciente antes da cirurgia, através do [...] histórico completo, contendo anamnese, exame físico, a avaliação de riscos e complicações pós-operatória. (ibid. p.20)

No intra operatório também conhecido como fase transoperatória o paciente é transferido para a sala de cirurgia e após o término do procedimento é transferido para sala de recuperação pós- anestésica (SRPA). Durante essa fase é importante ressaltar os cuidados para prevenção de infecções. (ibid. p.20)

A prevenção da infecção deve ser destacada com os cuidados habituais de lavagem com água e sabão da área a ser abordada, antissepsia com produtos de confirmada eficácia, como os derivados de iodo e a clorexidina, proteção da parede após a abertura, além de cuidados com a parede para evitar lesões isquêmicas causadas pelos retratores. Para o autor outros aspectos devem ser valorizados na prevenção da infecção, dentre eles a manutenção da temperatura

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corporal, evitando a hipotermia, o controle da glicemia e oxigênio terapia adequada (ibid. p.20).

No período pós-operatório é necessário, planejamento, orientação, empoderamento, para redução de riscos e agravos nesse tipo de cirurgia, com foco em melhor qualidade de vida para a paciente. (ibid. p.20)

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE ESCOLA DE ENFERMAGEM AURORA DE AFONSO COSTA CURSO DE GRADUAÇÃO EM ENFERMAGEM E LICENCIATURA AGUIMAR TEREZINHA BUZON (páginas 20-23)