Estudos recentes têm demonstrado que uma vegetação contendo representantes de várias famílias botânicas produz uma forragem contendo mais metabólitos secundários, particularmente mais terpenos, que uma pastagem composta unicamente de gramíneas e leguminosas (Jeangross et al. 1999). Os efeitos destes compostos no organismo animal ainda são mal conhecidos, entretanto se sabe que alguns deles são encontrados nos produtos lácteos (Bosset et al. 1999). Segundo Dorioz et al. (2000), a existência de uma relação entre diversidade florística e riqueza aromática de certos queijos mostra que a diversidade taxonômica poderia ser uma das questões chave para a certificação de origem.
Os metabólitos secundários presentes na vegetação diversificada devem, por exemplo, ser identificados com mais precisão e seu papel na qualidade dos produtos animais deve ser conhecido. Um melhor conhecimento do comportamento alimentar e espacial dos herbívoros domésticos em situação heterogênea também é necessário, para a melhor compreensão do processo de ingestão, em função da diversidade de espécies forrageiras e do controle da carga animal em função da disponibilidade de forragem (Carvalho et al. 2007, veja Capítulo 16). Tudo isto diferencia o produto final, sobretudo para exportação, e constitui uma vantagem que poucos biomas pastoris do planeta apresentam e do qual deveríamos saber tirar vantagem. Trabalhos nesse sentido estão em andamento e permitirão, por exemplo, verificar o efeito de uma dieta constituída por determinados grupos de espécies nativas sobre o perfil de ácidos graxos na carne produzida com base na pastagem natural.
Conclusões
Existe um potencial para produção animal com base na pastagem natural que ainda é pouco praticado, embora já relativamente conhecido da pesquisa. Certamente ainda há muito a conhecer deste bioma tão complexo e tão rico, embora muitas vezes frágil. Apesar de não diretamente abordado neste artigo, sempre se deve considerar a produção animal na maioria das propriedades do RS como o resultado da utilização integrada dos diversos recursos forrageiros nela existentes. Neste contexto, as pastagens cultivadas, sobretudo em sistemas que integrem lavoura-pecuária, ou mesmo sistemas silvipastoris, são elementos que devem ser considerados quando se planeja um calendário forrageiro ao longo do ano e mesmo entre anos. Desta forma, quando se fala em adequado ajuste da carga animal nas áreas de pastagem nativa, devemos considerar outros recursos forrageiros atuando como elemento tampão do sistema ou mesmo como estratégia para verticalizar a produção. Também é fundamental que se busque especializar os sistemas de criação de acordo com a vocação natural dos ambientes (cria, recria, terminação) e os mercados disponíveis e, neste sentido, ações de contratualização entre os diferentes parceiros da cadeia produtiva são primordiais.
Finalmente, cabe lembrar que embora o futuro possa parecer pouco promissor para a atividade de pecuária de corte com base na pastagem nativa no curto prazo, ainda é possível fazer dela um
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bom negócio, desde que eficientes programas de gestão sejam praticados pelo produtor (Nabinger & Sant’Anna 2007). Isso tem sido comprovado na prática através do programa Rede de Referências para a Pecuária de Corte do RS (Santos et al. 2008), o qual é centrado na gestão dos recursos, sobretudo da pastagem nativa, com aplicação das tecnologias aqui demonstradas, e tem mostrado resultados econômicos altamente impactantes. O sucesso da aplicação das práticas recomendadas depende, no entanto, de um fator extremamente determinante a ser considerado em qualquer estratégia de desenvolvimento rural, que é o produtor e seus objetivos como figura central nas tomadas de decisão.
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