À medida que Gilberto Amado escreve seus relatos acerca de sua vivência no Rio de Janeiro, emergem suas memórias sobre sua passagem pela imprensa carioca. Amado faz o mesmo percurso que fez ao relatar sua formação no Recife: reler suas crônicas e reproduz algumas em sua memorialística. O momento de releitura e o destaque que é dado a alguns temas permitem que o autor produza relações entre passado e presente, muitas vezes, aclamando a atualidade de escritos anteriores, outras vezes, construindo pontes para abordagens de determinados temas. Esta sessão tem como objetivo a problematização de alguns textos que Amado produziu para o jornal O Paíz entre os anos de 1910 e 1911. Buscamos destacar aqui textos que indicam a recorrência de algumas temáticas nas abordagens de Amado, tais como a preocupação com a educação do povo brasileiro, a questão da unidade nacional e os usos do conceito de raça.
Como vimos nos capítulos anteriores, a preocupação com a unidade nacional é recorrente nas abordagens de Amado. Nada surpreendente naquele Brasil republicano que convoca os intelectuais da época a pensar sobre a nacionalidade brasileira. Para Sevcenko (2003), a noção de nação, bem como a de verdade, justiça e humanidade eram referenciais básicos, unidades semânticas constitutivas da produção artística e intelectual da época. Em
Amado, a questão da formação intelectual seria a ponte que levaria o Brasil ao patamar de nação moderna e civilizada. Em crônica do dia 22 de agosto de 1910, Amado aclamava a Argentina como um país que sabia ler, diferente do Brasil, um país analfabeto.
La se cuida da instrução primária da educação cívica do povo, avivando o sentimento de nacionalidade que hoje esfervilha nos pulsos de patriotismo demasiado ardente por vezes. Aqui cuidamos da instrução superior, que agora mesmo tanto preocupa, enquanto por alguns Estados do norte sob o pretexto de econômicos subitos governos ha que ordenam patrioticamente supressão das escolas.45
A falta de atenção para com a educação causava uma antinomia, de acordo com Amado: de um lado, uma elite intelectual que “a cada dia se apura na mais alta cultura isolada, sobrenadando na superfície sem raízes, um Brasil “supercivilizado que pensa e veste como Paris, tem anceios intelectuaes e nevroses literárias, discute as ideias mais finas e detesta o Trópico.” Este grupo era cada vez mais estranho no país “pela desproporção da maioria inculta e bisonha.” (Idem, p.1). Do outro lado, o Brasil (...) da matta, há quatrocentos annos, victima de todas as invasões e tropelos, fetichista e nú.”46
Para Amado, o historiador que se dispusesse a estudar o país e as contradições de seu regime, corria o perigo de enlouquecer. O Brasil era um país novo, povoado de ruínas, não conhecia a evolução nos moldes positivistas; experimentara apenas sopros de civilização:
o Maranhão teve sua primeira civilização e tão florescente que pôde ouvir o padre Vieira e gerar a literatura do século seguinte; a de Minas foi esplendida e ruidosa. (...). Hoje, entretanto, Ouro Preto é uma ruína soturna. Toda margem do Parahyba, em São Paulo, foi o scenário de uma riqueza comparável de três seculos que hoje nada revela, escreveu Euclydes da Cunha, da pompa antiga.47
O Brasil não conhecia uma unidade nacional, experimentou alguns “esforços arquejantes” como a catequização dos índios, liderada por José de Anchieta e a tentativa de integração dos nativos à população, realizada por José Bonifácio. Esses esforços não se conjugavam, não se integravam. “Não conhecemos a marcha continuada o lento ascender de passo firme.”48
45 Jornal O Paíz, Rio de Janeiro, 22 de agosto de 1910, p. 1. 46 Jornal O Paíz, Rio de Janeiro, 11 de setembro de 1910, p. 1 47 Idem, p. 1
Os trechos acima pertencem a um texto de Amado sobre as comemorações da data da Independência em 1910. A questão da não integração dos índios à sociedade brasileira aparece no discurso do autor como principal entrave à unidade nacional. O Brasil estava dividido em dois Brasis. De um lado o Brasil culto e civilizado que respirava os ares de Paris e, de outro lado, o Brasil selvagem da mata. Esses dois Brasis faziam de nossa sociologia uma monstruosidade, dificultando qualquer estudo científico da história do país, pois, ao contrário do que postulava os ideais científicos preponderantes na época, a história não segue a marcha do progresso e da civilização. O fato da história não seguir os moldes pré-estabelecidos pelo positivismo parece desconcertar Amado, assim como acontece ao lidar com sua vida, com seus tiros disparados contra o espelho, suas rupturas que o desconcertam a ponto de levá-lo a buscar dar sentido linear por meio da escrita de si.
De acordo com Amado, os índios deveriam ser assimilados à atividade intrínseca da nação que seria o progresso, o alcance da civilização. Os índios representavam “oito milhões de brasileiros que rolam desperdiçados pelo interior, nômades nas caatingas, estéreis nos engenhos e nas fazendas abandonadas, que nascem, vegetam-se, morrem quase sem ter servido à sua Pátria.” O índio pela “resistência própria e pela vitalidade rude de suas energias” seria “o elemento mais eficaz para a obra da libertação da nossa economia.”49
Dotados de braços rudes e resistentes, para Amado e para a elite que pensara o Brasil, a contribuição indígena à nação brasileira é convocada apenas para trabalho braçal que sustentaria a economia brasileira, assim como os negros sustentaram em mais de três séculos de escravidão. Para os índios, não é pensada uma integração à nação pela via da formação intelectual como para os filhos das elites. Certamente, na interpretação biodeterminista e positivista de Amado, os índios, posicionados num estágio de selvageria e, sendo por este motivo, incapazes de evoluir, só seriam aptos para o trabalho braçal. O modo de lidar com os índios, pensado por Amado, é o mesmo modo pelo qual seus ancestrais portugueses lidaram com os nativos no processo de exploração das terras brasileiras. O discurso de Gilberto Amado é, a todo instante, um discurso em causa própria, um discurso de conservação de um lugar de uma elite e de conservação de uma pretensa identidade individual que para se erigir precisa de um todo sólido que o conserve como tal. Aliás, é por isso que Gilberto Amado concebe o Brasil como um país constituído por ruínas. As ruínas do país impossibilitavam a solidificação de um ideal de nação unificado, no qual os índios contribuiriam com o trabalho que libertaria nossa economia, possibilitando o progresso material necessário a formação
49 Ibidem, p. 1
intelectual das elites dirigentes do país. Esse todo corresponde, justamente, a um projeto de nação brasileira desigual que visa manter uma estrutura de manutenção de privilégios para elite.
Enxergar o Brasil como um país constituído de ruínas não significa, em Amado, um total ceticismo em relação ao futuro do país. Gilberto Amado defendia a ideia de que uma democracia de cunho elitista aliada ao cultivo do nacionalismo guiaria a nação ao progresso. Enfatizava o amor à terra, a crença no potencial brasileiro e no poder renovador da cultura como fertilizador da democracia. A crença no domínio da cultura e da educação como prerrogativas necessárias à formação da classe dirigente do Brasil é, justamente, o que o leva a assumir posições conservadoras no que se refere a crença do sufrágio universal secreto. Sobre a crença no futuro promissor do país, dirigido por uma elite intelectual, Amado afirma:
Por enquanto, cabe-nos, apenas, praticar política que tem uma dupla face: negativa — aquela em que se reflete necessidade de negar apoio a todo ponto de vista que não seja nítido e claro... negar apoio a tudo que participe das ideologias transplantadas ou nascidas de impressões mal assimiladas pelo meio. A face positiva será aquela em que se reflita a necessidade de não demorar a fazer tudo que possa concorrer para a grandeza material do país, pelo fortalecimento de seu crédito, pelo desenvolvimento de suas riquezas... Para isso, precisamos antes de tudo de cultura, de instrução política, de estudos científicos e de um pouco de orgulho nacional. Chamo de orgulho nacional a convicção que devemos ter de nossas responsabilidades na formação de um grande país, onde tudo é fácil aparentemente e tudo é difícil substancialmente (AMADO, 1999, p. XVIII)
Como vimos, as ideias iluministas, o evolucionismo e as teorias raciais fundamentam a ideia defendida por Amado de um supremacia intelectual que para se estabelecer enquanto tal, necessita do trabalho braçal de negros e índios que carregariam em suas costas o progresso material da nação. As ideias de nacionalismo e patriotismo são noções que nascem das classes mais ilustradas e só depois chega às massas. É uma ideia imposta de cima para baixo. O nacionalismo que, na maioria das vezes, se acentua em períodos de crise, tem como meios de veiculação a educação e os meios de comunicação. O projeto de Amado estava, pois, sintonizado com a noção de nacionalismo que emerge com a construção dos Estados Nacionais, fazendo jus à sua formação iluminista. Essas ideias parecem ter acompanhado Gilberto Amado em suas análises sobre o Brasil por muito tempo, fazendo parte até mesmo da sua produção memorialística, mas prossigamos aqui com alguns questionamentos: que usos do conceito de raça Amado fez ao longo de sua trajetória intelectual? Existiu, em seus
posicionamentos, a possibilidade de não adoção desse conceito? Prossigamos seguindo os rastros da trajetória intelectual deste autor.