1.3 O regime constitucional da atividade econômica petrolífera 35
1.3.3 Inconstitucionalidades na Lei 9.478/1997 41
com o advento da CF/1988, a atuação estatal não poderia mais ser considerada uma intervenção, mas “sim o desempenho ordinário de um dever constitucional. O Estado, portanto, está constitucionalmente legitimado a dirigir e condicionar o processo de reprodução do capital”. O Estado poderia, inclusive, retirar uma atividade econômica do mercado se esta significar um obstáculo ou for necessária para a realização dos objetivos constitucionais, por meio do monopólio estatal ou do regime de serviços públicos. (BERCOVICI, 2014, p. 138).
Para Bercovici (2014, p. 140), apenas o monopólio estatal do exercício direto das atividades do setor petrolífero foi extinto, sendo preservado o monopólio estatal sobre essas atividades. “O atual regime jurídico-constitucional do petróleo no Brasil é um caso típico de exercício do monopólio estatal com “quebra de reserva”, com a possibilidade de contratação de particulares”, afirma o autor.
O monopólio estaria ligado à exclusividade na prestação da atividade econômica ou empresarial, não à propriedade exclusiva dos meios de produção ou à propriedade estatal. A característica essencial do monopólio é a exclusão de outros competidores daquela atividade econômica, denotando um poder amplo de controle sobre a atividade monopolizada (BERCOVICI, 2014).
Desse modo, mesmo com a EC nº 9/1995, a União permaneceu titular do domínio sobre os recursos naturais, inclusive em relação ao petróleo e ao gás natural, já analisado o art. 20, IX, da CF/1988. Entretanto, a redação atual do parágrafo primeiro do art. 177 permite à União a possibilidade de escolher entre a manutenção do sistema de pesquisa e lavra atual ou a adoção de um novo sistema, com a consequente contratação de empresas estatais ou privadas, nos termos da lei (MORAES, 2001).
1.3.3 Inconstitucionalidades na Lei 9.478/1997
Para garantir apoio político à aprovação da EC nº 9/1995 e à Lei 9.478/1997, o Governo FHC se comprometeu a não privatizar a Petrobras, mas promoveu uma “privatização parcial”, vendendo cerca de 180 milhões de ações que estavam sob o controle da União. Cerca de 75% dessas ações foram adquiridas por investidores
internacionais. No entendimento de Bercovici (2011), essa alteração societária tornou a atuação da Petrobras muito mais voltada aos interesses comerciais de seus acionistas minoritários do que aos objetivos estratégicos aos quais originalmente responde.
A sociedade de economia mista tem por características essenciais a não exclusividade de capital público, a necessidade de ter a sua criação autorizada por lei a forma de sociedade anônima. A sociedade de economia mista é um instrumento de atuação do Estado, não existe para atender a interesses privados.
[...]
As empresas estatais são instrumentos da política econômica dos seus estados, atuando de acordo com os objetivos estratégicos e de bem-estar social do Estado, indo muito além da mera busca de rentabilidade (BERCOVICI, 2011, p. 315).
Ao negociar ações no mercado internacional, a Petrobras se sujeitou ao crivo e à eventual jurisdição de um juiz estrangeiro. E uma ação de classe (action class), movida por acionistas da Petrobras nos Estados Unidos da América, detentores de ADR (American Depositary Receipt), pode causar um prejuízo bilionário à empresa e representaria uma afronta à soberania brasileira. Para Warde Júnior, Bercovici e Siqueira Neto (2015), a Petrobras, que cumpre uma função pública, não poderia se sujeitar à regulamentação e à autoridade regulatória de outro país9.
Uma das justificativas utilizadas pelos defensores do modelo de concessão é a de que ele transfere o risco exploratório para a empresa que adquire a concessão para explorar determinado campo de petróleo. No entanto, com a descoberta das imensas reservas na camada do pré-sal o risco de perfurar o campo e não encontrar óleo praticamente desaparece.
Os defensores da privatização de estatais e da redução da atuação do Estado na área do petróleo e dos recursos minerais defendem, por paradoxal que possa parecer, tais medidas, dada “as ruínas de um Estado que não cumpriu adequadamente o seu papel” (BARROSO, 2009).
A suposta ineficiência do Estado na exploração mineral é confrontada com a eficientíssima concessão de recursos públicos e de benefícios para a apropriação privada das rendas sobre a exploração dos recursos minerais (BERCOVICI, 2011).
9 AÇÃO movida em Nova Iorque pode levar a fim de ADR da Petrobras, diz advogado. Valor, São Paulo, 10 mar. 2015. Disponível em: <http://www.valor.com.br/financas/3946634/acao-movida-em-ny-pode- levar-fim-de-adr-da-petrobras-diz-advogado>. Acesso em: 10 mar. 2015.
A recente crise econômica, que tem causado recessão e baixo crescimento nas principais economias do mundo, tem revelado a ineficácia das políticas neoliberais em erigir a economia a índices satisfatórios de crescimento e desenvolvimento. Anderson (1995) expressa um breve balanço sobre a política econômica neoliberal:
Economicamente, o neoliberalismo fracassou, não conseguindo nenhuma revitalização básica do capitalismo avançado. Socialmente, ao contrário, o neoliberalismo conseguiu muitos de seus objetivos, criando sociedades marcadamente desiguais, embora não tão desestatizadas como queria. Política e ideologicamente, todavia, o neoliberalismo alcançou êxito num grau com o qual os seus fundadores provavelmente jamais sonharam, disseminando a simples ideia de que não há alternativas para os seus princípios, que todos, seja confessando ou negando, tem de adaptar-se a suas normas (ANDERSON, 1995, p. 23)10.
Tais políticas, portanto, revelam-se inadequadas face a vinculação da exploração do petróleo e dos recursos minerais aos objetivos fundamentais da República, especialmente a garantia ao desenvolvimento nacional (art. 3º, II, CF/1988).
Tendo em vista a conexão entre a exploração do petróleo e a busca por fazer valer o projeto constitucional de superação do subdesenvolvimento, o mais adequado seria reforçar o papel do Estado na definição dos rumos da política energética e da política sobre a exploração do petróleo e dos recursos minerais (BERCOVICI, 2011).
A Lei nº 9.478 de 1997 dispõe sobre a política energética nacional e as atividades relativas ao monopólio do petróleo, instituiu o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) e a Agência Nacional de Petróleo (ANP). Para Clève e Martins (2004), vários dispositivos dessa lei (Lei nº 9.478), afrontam princípios do regime jurídico-constitucional do petróleo.
O art. 177, §1º e §2º, com redação modificada pela EC nº 9/1995, delegou à Lei nº 9.478/1997 a organização da forma de contratação de empresas estatais e privadas para o desempenho das atividades monopolizadas pela União, previstas nos incisos de I a IV, do art. 177.
O regime constitucional reconheceu a importância do petróleo e o elevou à condição de monopólio estatal. A garantia do fornecimento do petróleo e de seus derivados em todo o território nacional (art. 177, §2º, inciso I da CF/1988) foi
10 “Balanço do Neoliberalismo”, in Pós-neoliberalismo, org. de Emir Sader e Pablo Gentili, Paz e Terra, São Paulo, 1995, p. 23.
constitucionalizada e deverá ser executada na forma da Lei nº 9.478/1997 (CLÈVE;; MARTINS, 2004).
Caso a produção seja maior que a demanda interna o concessionário provavelmente optará por exportar o petróleo, o que vai de encontro à necessidade de preservação de reservas para o abastecimento nacional, especialmente em períodos de crises externas que tendencialmente majoram o custo de vida da população (CLÈVE;; MARTINS, 2004).
Os dispositivos do §3º do art. 26;; inciso I do art. 28;; inciso I do art. 37;; inciso II e parágrafo único do art. 43;; e parágrafo único do art. 51;; têm a característica de tratar o petróleo como bem perecível, como se houvesse a necessidade de aproveitamento rápido e eficiente de suas reservas. Isso, porque, segundo Clève e Martins (2004, p. 49),
de forma generalizada, estimulam as concessionárias a atender apenas prazos e não a demanda interna do produto, como faria uma empresa atenta às políticas de longo prazo para resguardo da soberania e desenvolvimento nacionais.
O §3º do artigo 26 da Lei nº 9.478 de 1997, suprimiu a necessidade de manifestação expressa da ANP sobre planos e projetos da concessionária da atividade petrolífera, o que contraria os princípios constitucionais da soberania (artigos 1º, inciso I e 170, inciso I da CF/1988) e da garantia ao desenvolvimento nacional (artigo 3º, inciso II da CF/1988) de forma gritante, “por transformar o regime constitucional do petróleo em letra morta” (CLÈVE;; MARTINS, 2004, p. 49).
O inciso I do art. 28 da Lei nº 9.478 de 1997 incentiva, na prática, o concessionário a acelerar a exploração da atividade, extraindo a maior quantidade de óleo possível dentro do prazo contratual, “independentemente da garantia de suprimento do mercado interno a médio e longo prazos” (CLÈVE;; MARTINS, 2004, p. 49).
O mesmo se repete nos artigos 37, inciso I e 43 inciso II e parágrafo único da Lei nº 9.478 de 1997. Tais dispositivos ignoram por completo o aspecto essencial e escasso do bem exigente de tratamento especial na CF/1988. Na análise de Clève e Martins (2004, p. 49), “o art. 51, parágrafo único, tem ínsita a direção de rápido aproveitamento das reservas, já que uma possível prorrogação de contrato elevaria os ônus da atividade do concessionário de forma por ele indesejável”.
O modelo dos contratos de concessão deve ser considerado inadequado (BERCOVICI, 2011), pois transfere ao concessionário a propriedade do produto da lavra, o que é inconstitucional, e não preserva o interesse público na exploração e produção de petróleo e gás natural.
Para Clève e Martins (2004, p. 49), a transferência da propriedade do produto da lavra ao concessionário, constante do caput do artigo 26 da Lei nº 9.478 de 1997, é uma flagrante inconstitucionalidade. “Ora, a propriedade não pode ser transferida a título de remuneração, eis que a propriedade, nos termos da Constituição, é da União”. Ainda que por hipótese a EC nº9/1997 tivesse modificado o regime de monopólio, tal mudança se daria tão somente quanto às atividades da Petrobras, e de nenhuma forma quanto à titularidade da União (que engloba, necessariamente, a propriedade sobre o recurso mineral em exploração). Segundo Clève e Martins (2004, p. 46), “uma interpretação constitucional que harmonize a regra do caput e do §1º do art. 177 da CF/1988 conduz, necessariamente, ao conceito de titularidade da União sobre o petróleo resultante da atividade desenvolvida por empresa estatal ou não”.
Para Bercovici (2011), entendimento ao qual acompanhamos, o artigo 26, caput da Lei 9.478/1997 é inconstitucional, pois viola o disposto nos artigos 20, IX e 177 da CF/1988 ao transferir a propriedade do petróleo, quando extraído, ao concessionário.
De fato, conforme o que dispõem o caput do art. 26 da CF/1988:
Art. 26. A concessão implica, para o concessionário, a obrigação de explorar, por sua conta e risco e, em caso de êxito, produzir petróleo ou gás natural em determinado bloco, conferindo-lhe a propriedade desses bens, após
extraídos, com os encargos relativos ao pagamento dos tributos incidentes
e das participações legais ou contratuais correspondentes (grifo nosso) (BRASIL, 1988).
Já o inciso IX do artigo 20 da CF/1988 dispõe como um dos bens da União: “os recursos minerais, inclusive os do subsolo”. Por sua vez, o art. 177 da CF/1988, mesmo após a EC 9/1995, também não prevê a transferência da propriedade do petróleo ao concessionário:
Art. 177. Constituem monopólio da União:
I - a pesquisa e a lavra das jazidas de petróleo e gás natural e outros hidrocarbonetos fluidos;;
II - a refinação do petróleo nacional ou estrangeiro;;
III - a importação e exportação dos produtos e derivados básicos resultantes das atividades previstas nos incisos anteriores;;
IV - o transporte marítimo do petróleo bruto de origem nacional ou de derivados básicos de petróleo produzidos no País, bem assim o transporte,
por meio de conduto, de petróleo bruto, seus derivados e gás natural de qualquer origem;;
V - a pesquisa, a lavra, o enriquecimento, o reprocessamento, a industrialização e o comércio de minérios e minerais nucleares e seus derivados, com exceção dos radioisótopos cuja produção, comercialização e utilização poderão ser autorizadas sob regime de permissão, conforme as alíneas b e c do inciso XXIII do caput do art. 21 desta Constituição Federal. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 49, de 2006)
§ 1º A União poderá contratar com empresas estatais ou privadas a realização das atividades previstas nos incisos I a IV deste artigo observadas as condições estabelecidas em lei. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 9, de 1995) (BRASIL, 1988).
1.3.4 O abastecimento nacional de combustíveis e a política de preços
Os anos iniciais do século XXI confirmaram a ideia da forte volatilidade do preço do barril do petróleo. No início de 2014 o preço chegou a US$ 140 e pouco mais de um ano depois despencou para menos de US$ 40 por barril (ALMEIDA, 2015).
A volatilidade tão intensa é justificada pela ocorrência de diferentes fatores que influenciam na formação e definição do preço no mercado internacional. Para Almeida (2015), esses fatores podem ser reunidos em seis grupos: demanda, oferta restrita, condições geopolíticas, mercado de fornecedores restrito, restrições ambientais e fatores econômicos.
A instabilidade nos preços do barril do petróleo no mercado internacional e o baixo crescimento da economia no mundo nos últimos anos, tem levado os estados nacionais a priorizar suas próprias empresas (estatais) na destinação de projetos de exploração e produção de petróleo que apresentem os melhores ganhos (ALMEIDA, 2015).
Os acionistas das empresas de capital aberto (estatais e privadas) tem elevado a pressão para aumentar a remuneração de suas ações. A Petrobras revisou seu plano de negócios no sentido de atender à cobrança dos investidores privados e tem levado a cabo um conjunto de medidas como a venda de ativos estratégicos, corte e revisão de investimentos e redução da dívida (ALMEIDA, 2015).
Ao atender o clamor dos acionistas privados, a empresa estatal pode fragilizar, dentre outras coisas, seu desempenho na garantia do abastecimento de combustíveis e privilegiar interesses privados em detrimento de benefícios a todo o país.