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2. REVISÃO DE LITERATURA

2.9. INDUÇÃO HORMONAL DA PUBERDADE

2.9.2. Indução da Puberdade com Protocolos à Base de Norgestomet

2.9.2. Indução da Puberdade com Protocolos à Base de Norgestomet

O norgestomet é um potente progestágeno sintético, utilizado através de um

implante de silicone impregnado com pelo menos 3 mg do princípio ativo. Estes

implantes são administrados por via subcutânea, na região auricular, durante um período

aproximado de 9 dias e, assim como os dispositivos intravaginais, têm a finalidade de

manter altos os níveis sangüíneos do progestágeno, suprimindo desta forma a liberação

endógena de LH e simulando a fase luteínica do ciclo estral. O implante de silicone

provoca a liberação do hormônio de forma homogênea e linear (BARUSELLI &

MARQUES, 2002; GREGORY, 2002).

Estudos como o de Tanaka et al. (1995), demonstram que cerca de 90% das

novilhas pré-púberes podem ser induzidas ao estro através do tratamento com

norgestomet, alcançando aproximadamente 50% de prenhez, em 5 dias após a remoção

dos implantes. O norgestomet associado ao eCG, Tibary et al. (1992), foi efetivo em

induzir estro fértil em novilhas pré-púberes de várias raças. Seguin et al. (1989) tratando

novilhas, cíclicas ou em anestro, com um implante com norgestomet ou duas aplicações

de prostaglandina, não encontraram diferenças quanto à porcentagem de prenhez total

obtida (38 e 42%, respectivamente), mas sim, uma diferença entre a taxa de prenhez das

novilhas cíclicas em relação às em anestro, com 53 e 18% de prenhez, respectivamente,

no grupo tratado com prostaglandina, e 45 e 21% de prenhez, respectivamente, no grupo

que recebeu norgestomet, sugerindo que os dois tratamentos são igualmente efetivos na

sincronização de estros em novilhas cíclicas, e inefetivos em novilhas pré-púberes ou

em anestro.

Rao et al. (1986) tentaram induzir a puberdade em novilhas Bos indicus

pré-púberes, através da utilização de implantes com norgestomet associados a uma

aplicação de eCG. Após a inseminação artificial, as novilhas que não conceberam

voltaram à aciclia, mas em menor proporção quando comparadas às novilhas controle,

que não receberam o tratamento. A liberação induzida de LH, nas novilhas tratadas,

poderia resultar em uma função luteal inadequada, e a partir daí o retorno ao anestro. Os

autores afirmam que o grau de desenvolvimento folicular presente ao início do

tratamento é fator crucial, assim como a idade e o peso corporal dos animais, obtendo-se

melhores resultados de estro e prenhez em novilhas que possuem folículos maiores que

10 mm de diâmetro neste momento. Apesar disto, é comprovado que a indução

hormonal da puberdade é possível em novilhas ainda longe da idade e peso

considerados ideais, sendo a efetividade do tratamento influenciada por outros fatores

além dos já mencionados, como a estação do ano, por exemplo.

Trabalhando com novilhas tratadas com norgestomet e 400 UI de eCG e

mantendo touros vasectomizados junto ao grupo, Rao et al. (1986) realizaram estudo

onde era realizada detecção de estros 4 vezes ao dia, durante 5 dias após o tratamento,

seguindo-se a partir daí, um padrão de duas observações ao dia, verificando a ocorrência

de ovulação por palpação dos ovários, entre 8 a 10 dias após a aplicação do tratamento.

Os pesquisadores obtiveram 100% de estro entre as 48-72 horas da remoção dos

implantes, sendo que, 75% com ovulação, confirmada pela presença de um corpo lúteo

palpável em um dos ovários. Do total de novilhas estudadas, apenas 25% mantiveram a

atividade cíclica após o tratamento e o primeiro estro. Não foram observadas diferenças

quanto ao número de serviços por concepção, subseqüentemente. Apesar de que muitos

animais voltaram à condição de anestro após a ovulação induzida, foi constatado que, os

animais controle também mostraram irregularidade quanto aos sinais de ciclicidade.

Em um outro experimento, Rao et al. (1986) obtiveram 100% de estro e 63% de

prenhez à IATF em um grupo semelhante de novilhas, porém desta vez sem nenhuma

posterior manutenção da ciclicidade entre as novilhas não prênhes. Nas novilhas

controle, a taxa de prenhez obtida foi de 33%. Ainda, em um novo trabalho

desenvolvido na seqüência, os mesmos autores obtiveram 88% de estro, 75% de

ovulação e 25% de taxa de prenhez à IATF, em novilhas peripúberes submetidas ao

mesmo tratamento associando eCG ao implante com norgestomet. Desta vez,

observaram 10% de prenhez nas novilhas controle, com 90% de aciclia nestas, contra

38% de aciclia nas tratadas. Porém, o peso corporal foi superior para as novilhas

prênhes, sendo observada uma melhor fertilidade durante a estação fria, em relação aos

períodos mais quentes do ano. Em ambos os experimentos, as novilhas eram

consideradas muito jovens e muito leves para que pudessem atingir a puberdade, mas

foi constatada uma alta efetividade do tratamento com eCG após a remoção dos

implantes, sobre as taxas de prenhez obtidas nas novilhas.

Tratando novilhas cíclicas com norgestomet, Rentfrow et al. (1987) observaram

que as novilhas que receberam o implante exibiram estro dentro de 72 horas de sua

remoção, com corpos lúteos detectados nas novilhas tratadas e controle, entre 8 a 12

dias após a ocorrência do estro. O norgestomet não afetou os níveis circulantes de LH

entre as 0 e 12 horas após o estro nas novilhas, mas as tratadas apresentaram menor

concentração de LH nas 12 horas, em relação às controle. Da mesma forma, as novilhas

tratadas demonstraram um pico pré-ovulatório de LH 4,8 horas antes das controle, mas

sem diferenças quanto à amplitude de liberação do hormônio, mas requerendo a

utilização de um prazo diferenciado para a realização da inseminação artificial, ao invés

das 12 horas após o estro. As concentrações máximas circulantes de progesterona foram

inferiores nas novilhas tratadas, não estando claro se devido ao tratamento, ou resultado

da alta concentração de progesterona observada no maior número de novilhas controle

prênhes. De outra parte, a alteração no tempo do pico pré-ovulatório de LH, poderia

responder pela menor taxa de concepção ao primeiro serviço nas novilhas tratadas (18,2

x 72,7% das controle). Modificações no padrão endócrino normal, provocadas pelo

tratamento, poderiam ter sido responsáveis por esta inferior taxa de concepção neste

grupo de novilhas. Neste sentido, a reduzida atividade luteal após o tratamento, poderia

ser a causa primária para a menor fertilidade, assim como a alteração da função folicular

provocada pelo mesmo.

Para Hall et al. (1997), a aplicação de implantes com norgestomet a novilhas de

9,5; 11 e 12,5 meses de idade, produziu um aumento na freqüência de pulsos de LH

entre 24 e 72 horas após sua remoção nas novilhas tratadas, em relação às controle, que

não receberam o progestágeno. Apesar disto, a amplitude dos pulsos não foi afetada

pelo norgestomet, apresentando um valor médio de 2,61 ng/ml para ambos os grupos. O

norgestomet também proporcionou um aumentou no número de folículos maiores que 8

mm de diâmetro e no tamanho do maior folículo, nas novilhas tratadas. Foi verificada

ainda, uma tendência ao aumento no tamanho médio dos demais folículos, mas não no

número de folículos entre 4 e 7 mm.

Ghallab et al. (1984) trabalharam com novilhas cruzas, com peso corporal

aproximado de 285 kg, entre os 12-14 meses de idade, púberes ou não. Os animais

foram tratados com duas aplicações norgestomet, permanecendo durante 8 dias com

cada implante, respeitando um intervalo de 16 dias entre uma aplicação e a outra,

permanecendo outro grupo de novilhas como controle, sendo todas expostas a touros

férteis desde a retirada do primeiro implante do grupo tratamento. Os pesquisadores

obtiveram taxas de prenhez de 61% para as novilhas tratadas não púberes, 75% para as

tratadas cíclicas, 73% para as controles cíclicas e, finalmente, diferindo estatisticamente

dos demais grupos, 33% de prenhez nas novilhas controle não púberes, ou em anestro,

ao início do experimento. O tratamento apresentou vantagem, por proporcionar uma

taxa de prenhez superior após a aplicação do segundo implante nas novilhas. Além

disso, os tratamentos repetidos com norgestomet aumentaram as taxas de prenhez nas

novilhas que previamente estavam em anestro. Entretanto, Purvis & Whittier (1997)

citam que o norgestomet pode induzir ao comportamento de estro algumas novilhas não

púberes, tendo encontrado uma baixa porcentagem de prenhez para novilhas que

tiveram a puberdade induzida pelo progestágeno.

O norgestomet produziu uma elevada concentração de estrógeno circulante, 96

horas após a remoção dos implantes, em novilhas pré-púberes que haviam apresentado

um ou 2 ciclos estrais após o tratamento com o progestágeno, em experimento realizado

por Tanaka et al. (1995). Apesar disto, metade das novilhas não apresentou um aumento

na concentração de progesterona plasmática após o tratamento, o que pode ser devido ao

fato de que eram novilhas bastante jovens (11 meses) e leves (252 kg de peso corporal),

para que pudessem manter um padrão de ciclicidade e secreção hormonal. Destas

novilhas, 20% desenvolveram um ciclo e retornaram ao anestro. Talvez a baixa

concentração de estrógeno verificada após a retirada do implante em algumas novilhas

que desenvolveram apenas um ciclo, signifique que o folículo dominante não atingiu

seu potencial máximo, em parte por insuficientes concentrações circulantes de FSH e,

principalmente, LH para atingir a maturação e a ovulação.

Novilhas cruzas, pesando aproximadamente 300 kg e com 12,5 meses de idade,

que responderam ao tratamento com norgestomet para a entrada na puberdade,

apresentaram estro seguido de formação de corpo lúteo, concentração plasmática de

progesterona superior a 1 ng/ml e continuaram ciclando após o período experimental,

em estudo de Hall et al. (1997). Segundo os autores, a habilidade do progestágeno em

induzir a puberdade, aumenta e se torna mais consistente em novilhas com idade

superior aos 12 meses. Entretanto, as diferenças na resposta ao progestágeno em

novilhas pré-púberes, podem resultar de diferenças na maturidade fisiológica, mais do

que na idade cronológica dos animais. A menor freqüência de pulsos e concentração

plasmática de LH encontradas nas novilhas mais jovens (9,5 meses), em relação às de

mais idade (11 e 12,5 meses), sugerem que o eixo hipotalâmico-hipofisiário, seria

incapaz de responder ao norgestomet com aumento na liberação de LH. Novilhas com

11 meses de idade não foram capazes de continuar aumentando os níveis de LH, até

atingir um pico, conforme indicou a freqüência de pulsos do hormônio, 72 horas após a

remoção dos implantes. A diminuição na sensibilidade à retroalimentação negativa do

estradiol, e o aumento na freqüência de pulsos de LH, ocorrem rapidamente antes da

puberdade. Talvez, o pulso gerador de GnRH nas novilhas de 11 meses, tivesse

respondido ao norgestomet, porém a sensibilidade à retroalimentação negativa do

estradiol continuou elevada, impedindo o pico de LH e a ocorrência da ovulação.

Alternativamente, a exposição à baixas concentrações médias de LH, poderia ter

resultado em níveis de estradiol abaixo de um limiar para que fosse induzido o pico de

LH.

Da mesma forma, o crescimento folicular em resposta ao progestágeno, parece

aumentar com a idade em novilhas. Animais que atingiram a puberdade após tratamento

com implantes de norgestomet, em estudo de Hall et al. (1997), tinham uma

aparentemente maior maturidade fisiológica, conforme demonstraram seus elevados

níveis circulantes de LH e seu maior desenvolvimento folicular. Para os autores, o

norgestomet pareceu induzir a puberdade nestas novilhas, sustentando os aumentos na

freqüência de pulsos de LH e o desenvolvimento folicular.

Em um grupo novilhas Santa Gertrudis cíclicas, tratadas com implantes com

norgestomet ou injeções de prostaglandina F2α, Tibary et al. (1992) obtiveram,

respectivamente, 89 e 61% de estros. Em novilhas acíclicas, utilizando o norgestomet

ou uma associação deste com eCG, obtiveram 60% de estros para o primeiro, contra

75% para o segundo tratamento. As taxas de prenhez foram maiores para as novilhas

cíclicas com norgestomet e acíclicas com norgestomet e eCG (43% para ambos grupos),

do que para as novilhas cíclicas tratadas com a prostaglandina F2α (21%), ou as

acíclicas tratadas somente o implante com norgestomet (20%). As taxas de prenhez,

entretanto, foram elevadas para todas as novilhas, após um período de 90 dias de

serviços com touros, sendo superiores nas novilhas acíclicas que foram tratadas com

norgestomet e eCG (86%). Uma pequena dose de eCG pode ser benéfica para promover

o desenvolvimento folicular e a ovulação em novilhas acíclicas. Somente o

norgestomet, não previne o retorno ao anestro em novilhas sob pobres condições

nutricionais, sendo talvez necessário, para isto, repetir o tratamento nas novilhas que

não conceberam após o estro sincronizado. Os autores ressaltam, entretanto, que a

utilização do eCG oferece o risco da ocorrência de prenhezes múltiplas.

Para Purvis & Whittier (1997), pode haver uma menor fertilidade em fêmeas

tratadas com progestágeno em uma fase tardia do ciclo estral (por volta do Dia 17), fato

este que estaria relacionado à persistência de um grande folículo dominante. Isto ocorre

sempre que não é realizada a aplicação de um tratamento para induzir uma nova onda de

crescimento folicular, no momento em que é colocado o implante com o progestágeno.