Capítulo II Alguns desafios na aprendizagem do PLNM
2. A aprendizagem do PLNM: alguns desafios
2.5. Infinitivo pessoal / infinitivo impessoal
O infinitivo carece normalmente de flexão. No entanto, a língua portuguesa apresenta, em relação às mais línguas neolatinas, esta riquíssima particularidade; nela, desde os mais antigos tempos, pode o infinitivo referir-se a determinado sujeito, graças às desinências de número e de pessoa.
(Rocha Lima, 2005: 411) O infinitivo pessoal deriva do infinitivo impessoal, formado pelo radical, a vogal temática e o sufixo. Enquanto o infinitivo impessoal não pode ser flexionado, o infinitivo pessoal flexiona-se, com desinências para a 2ª pessoa do singular e para as três pessoas do plural.
A forma conjugada do infinitivo caracteriza-se por constituir uma especificidade da língua portuguesa, que além de inexistente em latim, não tem equivalente em francês. Pode ser encontrada no galego, porém, com um uso bastante mais restrito, e em documentos escritos em leonês antigo e em napolitano, do século XV (idem, 2005).
Carateriza-se pela ausência de regras fixas de uso, perante a qual é fácil compreender que tentativas de sistematizar o seu emprego tenham dado origem a grande controvérsia (idem, 2005). Considerado por Rocha Lima como uma particularidade da LP “com alto valor estilístico” (2005: 411), o infinitivo impessoal serve, muitas vezes, para satisfazer “certas condições reclamadas pela clareza, ênfase e harmonia de
expressão” (2005: 413), permite conferir a uma frase “maior ênfase ou harmonia”
(Cunha, 2008: 286), sendo que a sua existência contribui para que o infinitivo seja empregue de forma bastante mais vasta e diversificada em português do que em francês (Teyssier, 1976).
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Procuraremos, em seguida, referenciar os contributos de diferentes autores, no sentido de sumariar as circunstâncias em que o emprego de um ou outro infinitivo é incontornável, acrescidas de casos em que ambos são passíveis de ser utilizados.
O infinitivo impessoal emprega-se obrigatoriamente nos seguintes casos: (a) quando a ação ou o estado exprimido pelo verbo assume um carácter rigorosamente impessoal;
(b) quando o infinitivo está inserido em construções ou é complemento de um adjetivo, de um substantivo ou de um verbo;
(c) quando o infinitivo forma uma locução verbal com o verbo que imediatamente o precede, apresentando ambos um único sujeito (Cunha 2008; Carreira e Boudoy, 2004; Rocha Lima, 2005).
Os seguintes exemplos pretendem ilustrar estas mesmas situações: (77) Proibido fumar.
(78) Ficou muito por dizer. (79) Queres ir lá para casa?
Já o infinitivo pessoal é utilizado nas seguintes situações: (a) quando o sujeito é claramente expresso;
(b) quando faz referência a um sujeito que, embora oculto, se quer transmitir através da desinência;
(c) quando é o único predicado de uma oração isolada; (d) quando é sujeito de um outro predicado;
(e) quando é adjunto adverbial, subordinado a orações principais em que o verbo se encontra flexionado em tempos presentes ou pretéritos (Cunha, 2008; Masip, 2000; Rocha e Lima, 2005).
As construções frásicas que se seguem pretendem ser exemplificativas destes casos:
(80) É melhor (tu) começares a estudar. (81) Acho mais prudente voltarem para casa. (82) Voltarmos atrás?
(83) O nosso sonho é chegarmos à final.
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Para além destes casos em que o emprego de uma ou de outra forma é incontornável, ou pelo menos fortemente aconselhável, existem outras situações em que o locutor pode escolher transmitir a ação ou o estado expresso pelo verbo, não sublinhando a sua relação com o sujeito (infinitivo impessoal) ou, pelo contrário, expressar-se de forma a enfatizar a relação entre o sujeito e a ação ou estado (infinitivo pessoal). Não obstante esta liberdade de escolha, derivada da ausência de regras gramaticais, verifica-se que, dependendo das circunstâncias, temos maior tendência a empregar um dos infinitivos, em detrimento do outro (Carreira e Boudoy, 2004).
1. On emploie plutôt l’infinitif impersonnel. a/ Quand l’infinitif a un sujet indéterminé. (…)
b/ Quand l’infinitif fait partie d’une construction interrogative indirecte. (…) c/ Quand l’infinitif est introduit par un verbe causatif (…) ou sensitif (…) et qu’il a un sujet différent de celui-ci. (…)
d/ Quand l’infinitif est précédé de la préposition a qui est elle-même précédée d’un nom ou d’un groupe nominal.
(Carreira e Boudoy, 2004: 165/166)
Observemos os seguintes exemplos:
(85) Ouviste anunciar(em) subida da temperatura, a partir da próxima semana?
(86) Perguntaram à professora por onde começar(em) o trabalho. (87) Ouvi bater(em) à porta.
(88) Uns a começar(em), outros a acabar(em).
Já o infinitivo pessoal, segundo as mesmas autoras, usa-se, preferencialmente, nos contextos a seguir referidos:
a/ Dans les constructions infinitives circonstancielles, lorsque l’infinitif et le verbe de la proposition principale ont le même sujet et que celui-ci n’est pas exprimé devant l’infinitif. (…)
b/ Quand il s’agit d’un verbe tel que ser, estar, permancer, etc., accompagné d’un attribut. (…)
c/ Quand il s’agit de l’infinitif d’un verbe réfléchi exprimant la réciprocité. (…) d/ Quand il s’agit de l’infinitif d’un verbe réfléchi dépendant d’un verbe conjugué et qu’il y a entre les deux une certaine distance. (…)
e/ Quand plusieurs infinitifs ayant le même sujet se succèdent et que le locuteur veut le mettre en relief.
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Analisemos os exemplos que se seguem:
(89) Antes de entregarem (entregar) o trabalho, resolveram relê-lo mais uma vez.
(90) Duas vezes por semana, vamos ao ginásio, para ficarmos (ficar) em forma.
(91) Vai ser difícil para ambos separarem-se (separar-se).
(92) Vais continuar a treinar, tornares-te (tornar-te) o melhor jogador da equipa.
(93) Do meu lugar via os casais a dançarem (dançar), a cantarem (cantar) e a sorrirem (sorrir) divertidos.
Importa ainda referir que o infinitivo pessoal coincide frequentemente com o futuro do conjuntivo (Teyssier, 1976); com efeito, nos verbos regulares, as formas são idênticas, o que poderá dificultar o seu reconhecimento por parte de aprendentes da língua. Uma forma de ultrapassar esta dificuldade e facilitar a distinção entre estas duas formas verbais, será compreender que quando o verbo principal da frase se encontra no modo imperativo ou no futuro do modo indicativo, o verbo secundário estará forçosamente no futuro do conjuntivo e não no infinitivo pessoal (idem, 2000), o que pode ser observado nos seguintes exemplos:
(94) Terminarmos o trabalho é o que mais nos preocupa, neste momento. (Infinitivo pessoal)
(95) Quando terminarmos o trabalho, poderemos ir de férias. (Futuro do conjuntivo).
Outra maneira de os diferenciar consiste em, perante uma construção passível de despoletar dúvidas, substituir o verbo regular, por um verbo irregular, onde as duas formas são diferentes e fáceis de distinguir, e que, mantendo o sentido da frase, permita identificar imediatamente a forma verbal em análise, como por exemplo:
(96) Se acabares os trabalhos de casa rapidamente, podes ir brincar. (Futuro do conjuntivo)
(97) Acabares os trabalhos de casa rapidamente permitir-te-á ires brincar. (Infinitivo pessoal)
(98) Se fizeres os trabalhos de casa rapidamente, podes ir brincar. (Futuro do conjuntivo)
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(99) Fazeres os trabalhos de casa rapidamente, permitir-te-á ires brincar. (Infinitivo pessoal)
Acresce ainda a possibilidade de colocar o pronome pessoal respetivo junto do infinitivo pessoal e fazer preceder o futuro do conjuntivo de um pronome relativo ou de conjunções:
(100) Ao perceberem (eles) que estavam no bom caminho, ficaram satisfeitos. (Infinitivo pessoal)
(101) Se perceberem que estão no bom caminho, ficarão satisfeitos. (Futuro do conjuntivo)
Considerando que a especificidade deste fenómeno gramatical, como acima se menciona, não tem paralelo em nenhum outro idioma (com a exceção, até certo ponto, do galego), ao que acresce a ausência de diretrizes que rejam, de forma decisiva, o seu emprego; a sua maior utilização na norma europeia do que na norma brasileira; e o facto de o infinitivo pessoal coincidir frequentemente com o futuro do conjuntivo, a sua aprendizagem e domínio serão, sem dúvida, desafiantes, principalmente na perspetiva de aprendentes de PLNM, e, por isso mesmo, a sua abordagem neste capítulo, ainda que breve, parece-nos incontornável.