1 INTRODUÇÃO
5.3 Influência da intensidade e do tempo de dor
Para análise da influência da dor, foi observado:
a intensidade da dor sobre o tempo que o paciente suporta a dor até o atendimento e o tempo que está consumindo a medicação;
a intensidade da dor em função do tempo de dor, tipo de medicação, da efetividade da medicação, da automedicação e do motivo pela demora na procura de atendimento;
tempo de dor em função das variáveis- medicação, efetividade da medicação, automedicação e motivo da demora na procura de atendimento.
A Figura 5 mostra a influência do nível de dor sobre o tempo em que os pacientes relatou ter sentido dor (Fig 5A) e sobre o tempo em que tomou a medicação (Fig 5B).
Não houve diferenças estatisticamente significantes entre os níveis de dor considerando o tempo de dor relatado (Kruskal-Wallis, p=0,1665) e o tempo de uso da medicação (p=0,4492).
Figura 4. Influência do nível de dor sobre: (A) o tempo (mediana e desvio
interquartílico) de dor relatado (B) e tempo no qual o paciente utilizou a medicação.
A Tabela 6 mostra a distribuição relativa de algumas variáveis em função do nível de dor.
Não houve diferenças estatisticamente significantes (Qui-quadrado) entre os níveis de dor considerando o tempo de dor (p=0,1459), a utilização ou não de automedicação (p=0,2266) e as razões que motivaram a demora na procura pelo atendimento (p=0,9009) (Tabela 6).
Em relação à medicação utilizada, quando observada dor de intensidade moderada (98/63,6%) ou severa (214/66,3%) a medicação mais utilizada foi a classe dos analgésicos (p=0,0017). Entretanto, houve maior frequência de utilização de medicamentos por pacientes que relataram dor severa do que nos demais (Tabela 6).
Já em relação à efetividade, a maioria relatou que o fármaco foi parcialmente eficaz em aliviar a dor, deixando o local/região e o dente ainda sensível (moderada- 44,2%, severa- 58,5%). Além disso, a frequência de
le v e m o d e r a d a s e v e r a 0 T e m p o d e d o r (e m d ia s ) 7 1 4 2 9 5 1 2 1 6 A le v e m o d e r a d a s e v e r a 0 T e m p o d e m e d ic a ç ã o ( e m d ia s ) 7 1 4 2 9 5 1 2 1 6 B
pacientes que relataram que a medicação utilizada não foi efetiva também foi maior naqueles com dor severa (34/10,5%) (Tabela 6).
Os motivos mais frequentemente relatados para justificar a demora na procura de atendimento pelos pacientes que apresentaram as maiores intensidades de dor foram: não encontrou dentista que fizesse o atendimento (moderada- 21,4%, severa- 21,7%), achou que a dor iria passar (moderada- 22,1%, severa- 21,1%) e falta de tempo (moderada-21,4% e severa- 18,9%) (Tabela 6).
Tabela 6. Intensidade de dor em função das variáveis: tempo, medicação,
efetividade, automedicação e motivo da demora na procura por atendimento.
Leve (n=9) Moderada (n=154) Severa (n=323) Qui Tempo de dor Até 2 dias 3 (33,3%) 19 (12,3%) 56 (17,3%) 0,1459 Entre 3 e 7 dias 4 (44,4%) 82 (53,2%) 164 (50,8%) Entre 8 e 15 dias 2 (22,2%) 35 (22,7%) 53 (16,4%) Entre 16 e 30 dias - 11 (7,1%) 39 (12,1%) Maior que 30 - 7 (4,5%) 11 (3,4%) Medicação Analgésico 4 (44,4%) 98 (63,6%) 214 (66,3%) 0,0017 Anti-inflamatório 4 (44,4%) 30 (19,5%) 89 (27,6%) Antibiótico 3 (33,3%) 13 (8,4%) 49 (15,2%) Nenhum 2 (22,2%) 26 (16,9%) 24 (7,4%) A medicação foi efetiva? Sim 5 (55,6%) 52 (33,8%) 76 (23,5%) 0,0095 Não - 8 (5,2%) 34 (10,5%) Parcialmente 2 (22,2%) 68 (44,2%) 189 (58,5%) Não tomou 2 (22,2%) 26 (16,9%) 24 (7,4%) Automedicação Sim 3 (33,3%) 80 (51,9%) 183 (56,7%) 0,2266 Não 6 (66,7%) 71 (46,1%) 125 (38,7%) Parcialmente - 3 (1,9%) 15 (4,6%) Motivo Não encontrou CD 1 (11,1%) 33 (21,4%) 70 (21,7%) 0,9009 Iria melhorar sozinho 1 (11,1%) 34 (22,1%) 68 (21,1%)
Sem tempo 2 (22,2%) 33 (21,4%) 61 (18,9%)
Medo 1 (11,1%) 8 (5,2%) 11 (3,4%)
Não sabia (0%) 4 (2,6%) 6 (1,9%)
Outro 4 (44,4%) 42 (27,3%) 107 (33,1%)
A tabela 7 mostra a distribuição das variáveis em função do tempo de dor relatado pelos pacientes.
De uma forma geral, não houve diferenças estatisticamente significantes (Qui-quadrado, p=0,4496) entre os diferentes tempos de dor (dias) relatados em relação ao uso de medicação. Entretanto, houve maior tendência em relatar eficácia da medicação (p=0,0353) naqueles com dor entre 3 e 7 dias (72/28,8%) quando comparados aqueles com dor de até 2 dias (12/15,4%). No entanto, 134
pacientes (53,6%) relataram que a medicação foi parcialmente eficaz no período de 3 a 7 dias (Tabela 7).
A automedicação foi mais utilizada independentemente do tempo em que o paciente sentiu dor, mas aqueles com dor entre 8 e 15 dias utilizaram proporcionalmente menos (p=0,0147) automedicação do que aqueles que relataram entre 3 e 7 dias e até 2 dias (Tabela 7).
Os motivos alegados para demora na procura não diferiram significativamente entre os tempos (p=0,9043). O medo não foi relatado como um fator mais relevante para evitar ir até um dentista, independente do tempo que o paciente sentiu dor (n=20) (Tabela 7).
Tabela 7. Avaliação do tempo de dor de acordo com a medicação, efetividade
da medicação, automedicação e motivo da demora na procura de tratamento.
Dor (em dias)
até 2 (n=78) 3 a 7 (n=250) 8 a 15 (n=90) 16 a 30 (n=50) > 30 (n=18) Medicação Analgésico (AN) 48 (61,5%) 162 (64,8%) 57 (63,3%) 35 (70%) 14 (77,8%) Anti-inflamatório (AI) 16 (20,5%) 96 (38,4%) 36 (40%) 18 (36%) 2 (11,1%) Antibiótico (AT) 9 (11,5%) 35 (14%) 12 (13,3%) 6 (12%) 3 (16,7%) Nenhum 14 (17,9%) 24 (9,6%) 7 (7,8%) 7 (14%) - A medicação foi efetiva? Sim 12 (15,4%) 72 (28,8%) 29 (32,2%) 13 (26%) 7 (38,9%) Não 10 (12,8%) 20 (8%) 6 (6,7%) 5 (10%) 1 (5,6%) Parcialmente 42 (53,8%) 134 (53,6%) 48 (53,3%) 25 (50%) 10 (55,6%) Não tomou 14 (17,9%) 24 (9,6%) 7 (7,8%) 7 (14%) - Auto- medicação Sim 50 (64,1%) 146 (58,4%) 39 (43,3%) 25 (50%) 6 (33,3%) Não 28 (35,9%) 96 (38,4%) 45 (50%) 21 (42%) 12 (66,7%) Parcialmente - 8 (3,2%) 6 (6,7%) 4 (8%) - Motivo
Achou que a dor
passaria sozinha 15 (19,2%) 63 (25,2%) 16 (17,8%) 9 (18%) - Sem tempo 11 (14,1%) 54 (21,6%) 18 (20%) 10 (20%) 3 (16,7%) Não encontrou CD 15 (19,2%) 47 (18,8%) 22 (24,4%) 12 (24%) 8 (44,4%) Medo 3 (3,8%) 10 (4%) 4 (4,4%) 2 (4%) 1 (5,6%) Outro 34 (43,6%) 66 (26,4%) 30 (33,3%) 17 (34%) 6 (33,3%) Não soube responder - 10 (4%) - - -
6 DISCUSSÃO
Este estudo teve como principal objetivo avaliar os fatores relacionados com a dor odontogênica em pacientes que procuram o Plantão de Urgências da FOP-UNICAMP, no intuito correlacionar estas variáveis com a percepção de dor de origem dental.
Rekola et al. (1993) sugere que a dor é o sintoma mais comum para procurar um serviço de saúde. A dor de origem dental representa um dos maiores motivos da procura de um serviço de atendimento odontológico (Jaafar et al., 1989, Petersen et al., 2000, Ekanayake et al., 2001, Riley e Gilbert, 2001, Tamietti et al., 2012).
No presente estudo foi observado que o gênero feminino apresenta maior procura por atendimento odontológico de urgência, corroborando com os estudos de Sousa (1996), Teixeira (1999) e Nusstein e Beck (2003). As mulheres têm mostrado procurar atendimento mais prontamente que homens também quando se trata de dor orofacial crônica (Dao e LeReshe, 2000) e, além disso, abordam um estilo de vida mais saudável e melhores cuidados com a saúde oral que homens (Keogh et al.,2000, Futura et al.,2011). Logo, é esperada a mesma preocupação quando se trata de dor aguda ou dor de origem dental.
Como houve mais mulheres (68,3%) que homens (31,7%) neste levantamento procuramos observar a influência do gênero nas diferentes variáveis analisadas. Há um consenso que homens e mulheres, tendem a ter uma resposta diferente a diversas experiências, entre elas a dor (Fillingim,
2000). As diferentes percepções são baseadas em distintas bases socioculturais (ex. idade, etnia, história familiar), psicológicas (ex. ansiedade, depressão) e biológicas (ex. genética, hormônios, mecanismos endógenos de modulação de dor) (Wiensenfeld-Halin, 2005, Bartley e Fillingim, 2013). Apesar de alguns estudos relatarem que a dor (independente da sua origem) não apresenta diferença entre gênero (Andersson et al.,1993, Bassols et al.,1999, Edwards et al., 2003), ou é observada mais em homens (Chia et al., 2002) ou em mulheres (Averbush e Katzper, 2000, Wiensenfeld-Halin, 2005, Yadav et al.,2014), há sugere na direção de consentir que as mulheres sentem mais dor que os homens.
Fatores psicológicos, humor, experiências passadas de dor, o papel social de cada gênero, influências entre gerações (genética), fatores familiares, hormonais e ainda, anatômicos, parecem assumir certa importância nas respostas de dor dos diferentes gêneros (Fillingim, 2000; Wiensenfeld-Halin, 2005).
Na Odontologia, mulheres relatam a dor em maior intensidade que os homens (Dao e LeReshe, 2000, Riley e Gilbert, 2001, Bartley e Fillingim, 2013) além de apresentar menor tolerância a estímulos dolorosos (Keogh et al., 2000).
Em relação a dor odontogênica, os medicamentos como analgésicos e AINES tendem a ter eficácia relativa para o controle de dor até a procura de atendimento profissional (Cohen et al, 2009). Neste levantamento epidemiológico observamos mais mulheres relatando maior consumo destes
medicamentos e menor alívio de dor quando comparado aos homens assim como observado por Nusstein e Beck (2003) e Cohen et al (2009).
Além da maior percepção de dor, no presente estudo também foi observado uma maior porcentagem de relatos sobre a ineficácia da medicação por parte das mulheres, corroborando com Nusstein e Beck (2003). É relatado que mulheres formam o grupo que mais utiliza medicamentos (Laukkanen et al., 1992, Nusstein e Beck, 2003), principalmente com a idade mais avançada e em decorrência de sintomas associados a depressão (Rozenfeld et al,2008, Santos et al.,2013).
Estudos em animais e em humanos (Kavaliers e Innes, 1987, Lipa e Kavaliers, 1990, Mogil et al., 1993, Kest et al., 2000, Wiesenfeld- Hallinz, 2005) reportam que homens têm melhor resposta analgésica através mecanismos endógenos de modulação (percepção e inibição) da dor do que mulheres. Além disso, há uma menor tendência nos homens em reportar a dor (Robinson et al., 2001). O fator sociocultural sobre os papéis de cada gênero na sociedade é um forte indício destas respostas frente a dor (Bartley e Fillingim, 2013). Ainda podemos sugerir que, uma vez a entrevista ter sido conduzida por uma mulher, há uma tendência natural de menos homens reportarem dor, uma vez que socialmente é mais aceito a mulher reclamar ou sentir dor (Bartley e Fillingim, 2013).
Neste levantamento, houve uma maior quantidade de pacientes na faixa entre 25 e 50 anos de idade (considerada a parte da população economicamente ativa) (Hafner et al., 2013) e também entre 51 e 80 anos que
procuraram o atendimento com mais de uma semana. Segundo a correlação de Spearman, quanto maior a idade, maior o tempo que o paciente suporta a dor. Bassols et al. (1999) observaram que a dor de origem dental diminui conforme a idade aumenta. Apesar de não compor como dado deste estudo, pacientes idosos tendem a praticar o uso da polifarmácia (uso de vários medicamentos simultaneamente) (Santos et al., 2013), ato que poderia ajudar no controle de dor ou até mesmo no mascaramento da doença levando a maior demora na procura por atendimento (Mosegui et al., 1999, Read et al., 2014). As alterações do sistema sensorial que acompanham a senescência como o declínio sensorial progressivo, aceito como parte natural do envelhecimento, mudanças morfológicas em número, densidade e localização dos receptores também podem contribuir para que os idosos apresentem um maior limiar de dor (Thornbury e Mistretta, 1981). Ainda, a dificuldade de locomoção (meio de transporte), principalmente dos pacientes na faixa etária entre 51 e 80 anos, até um local para atendimento pode ser considerado um fator para o maior tempo de espera até a procura de atendimento.
Góes (2001) observou que a dor de dente é o tipo de dor mais comum entre as dores orofaciais, para as quais a prática da automedicação é bastante popular.
A automedicação tem sido relatada com uma alternativa aos cuidados tradicionais de saúde. No caso específico do Brasil, a automedicação funciona como um complemento ao sistema de saúde (Lyra-Júnior et al., 2003), além de apresentar raízes culturais dessa prática. Silva et al. (2005) analisaram os
critérios para escolha da medicação no caso dos pacientes que se automedicaram e observaram resultados como: 25,86% por indicação de parentes, 14,7% oriundas de receitas antigas para tratar o mesmo sintoma, 19% por indicação do balconista da farmácia, 11,2% após terem visto uma propaganda, 4,31% por indicação do farmacêutico e 25% por conta própria, sem motivo exato.
A alta prevalência da automedicação para casos de dor de origem dental aponta para uma necessidade de maior controle dos riscos desta prática. Neste estudo, 55,4% da amostra fez uso de algum medicamento para o controle da dor sem prescrição, corroborando com Sousa (1996) (40% para controle da dor de origem dental), Silva et al. (2005) (79,4%), Araújo-Júnior e Vicentini (74,72%) e Tamietti et al., (2012) (81,7%) que mostram uma grande prevalência de automedicação na população brasileira. Segundo Tamietti et al.(2012), a automedicação foi mais alta nos casos de pulpite (86,8%) e abscessos periapicais (84,7%). Ainda, nos casos de automedicação, a maioria dos pacientes adquiriu os medicamentos em farmácias (41,4%) ou já tinha a medicação na em casa (31,9%).
A percepção cultural de que para cada enfermidade há uma medicação, podem auxiliar nessa prática e sugerem que a automedicação no Brasil pode estar associada a carências e hábitos da população (Arrais et al., 1997). O aumento da demanda ao sistema público de saúde e a falta de tempo para um diagnóstico e atendimento apropriados (Silva et al., 2008) pode fazer com que o paciente se automedique até conseguir atendimento. Além disso, a
automedicação pode levar ao mascaramentos de doenças e dificuldades no diagnóstico correto das enfermidades (Read et al.,2014).
Neste levantamento, os pacientes mais velhos fizeram mais uso de analgésicos ou da combinação de analgésico com anti-inflamatório, prescritos ou não. Em relação aos índices de automedicação, estes dados corroboram com os estudos de Bortolon et al. (2008) e Oliveria et al. (2012), nos quais idosos fizeram maior consumo de analgésicos, antipiréticos e antiinflamatórios. A automedicação, juntamente com a polifarmácia por indicação médica nesses pacientes, está ligada a maior risco de efeitos adversos, interações medicamentosas, toxicidade e mascaramento de doenças nesses indivíduos (Mosegui et al.,1999)
Assim como a automedicação, a prescrição errônea de medicamentos são os principais agentes causadores de intoxicações e reações adversas (Tierling et.al., 2004). A prescrição e uso de medicamentos na Odontologia devem ser por curto período de tempo, como coadjuvante ao tratamento, uma vez que nessa especialidade o mais importante é a remoção da causa da dor e ou infecção (Andrade, 2014).
É importante compreender que, o medicamento de venda livre não é sinônimo de isenção de efeitos indesejáveis. A toxicidade causada pelo consumo de medicamentos de venda livre ocorre com frequência, uma vez que a maioria dos pacientes não é esclarecida de que o aumento da dose para obtenção de melhores resultados não traz mais benefícios a partir do momento
que se atinge a dose teto, e que nesse momento o risco de toxicidade é aumentado (Kearns e Leeder, 1998, Silva et al., 2005).
O uso abusivo de medicamentos de venda livre ou até mesmo da associação de diferentes classes de fármacos (observada neste estudo) sem a orientação ou prescrição de um profissional de saúde tem sido motivo de preocupação por agências reguladoras de saúde, como o FDA nos Estados Unidos, a ANVISA no Brasil e a EMEA (European Medicines Evaluation Agency) na Europa, alertando para a toxicidade com recomendações a respeito da toxicidade associada ao uso do uso de AINES e de altas doses de paracetamol, de forma inadvertida (Bastiani et al., 2005).
É possível observar na prática da automedicação que analgésicos e anti- inflamatórios são consumidos em uma maior frequência (Arrais et al., 1997, Bastiani et al., 2005), como observado neste estudo (AN- 48,9% e AI-15,5%), na tentativa de aliviar os sintomas da dor de forma a evitar ou demorar a procura de um dentista (Preshaw, 1994, Mason, 1997, Souaga et al., 2000, Wynn, 2004).
No entanto, 65,8% dos pacientes não fizeram uso de AINES para controle de dor. Ainda que um grande percentual o utilize isolado ou combinado, tanto para automedicação quanto para a prescrição, observarmos que foi optado na maioria dos casos para o uso de analgésicos nos casos de dor odontogênica. Isto deve-se provavelmente ao seu menor valor de mercado e fácil acesso nas prateleiras das farmácias, muitas vezes sem a necessidade de pedir para o balconista.
Dentre os analgésicos, a dipirona sódica foi a medicação mais utilizada. Este fármaco é o mais consumido na terapêutica brasileira (Gazeta Mercantil, 2001) e o medicamento de preferência em 50% dos hospitais públicos em São Paulo (Benseñor, 2001). Além disso, tem sido relatado como o analgésico de escolha e mais consumido para tratamento da dor em diferentes faixas etárias (Oliveira et al., 2012, Silva et al., 2005, Arrais et al., 2007). Seu maior consumo deve-se por ser de fácil aquisição, barato e eficaz para controle de dor de intensidade leve e moderada (Edwards e McQuay, 2002) ou até mesmo dor moderada a severa (Derry et al., 2014). Os resultados desta revisão (Derry et al.,2014) sugere que a administração via oral de 500 mg de dipirona tem um efeito similar a uma dose de 400 mg de ibuprofeno para o tratamento de dor moderada a severa.
Tamietti et al. (2012) observaram que a dipirona foi utilizada sozinha ou combinada em 33,33% (26,43% sozinha), o paracetamol por 8,04% e o diclofenaco por 8,62% ambos isolados para controle da dor de origem dental (pulpite e abscessos periapicais) (n=174).
Apesar da grande polêmica gerada em torno na dipirona, por apresentar maiores riscos de agranulocitose, a ANVISA convocou em 2001 um encontro para discussão e esclarecimento do uso deste analgésico. O ―Painel Internacional de Avaliação da Dipirona‖ (Brasil, 2005), considerou que este analgésico apresenta baixos riscos para discrasias sanguíneas e que os efeitos adversos e toxicidade não são maiores que outros fármacos da mesma classe.
O padrão de utilização de medicação para controle da dor, com prevalência da opção pela dipirona, mostra ainda que a decisão da ANVISA de manter esse analgésico no Brasil não foi equivocada, uma vez que a mesma apresenta um bom resultado para o controle de dor ainda que, no presente caso, parcialmente, e ainda possui efeitos colaterais menores ou semelhantes a outros fármacos da mesma classe (ANVISA, 2001). Ainda com relação à maior preferência da população pela dipirona e considerando seu baixo custo, o presente estudo mostra a necessidade de avaliação deste medicamento dentro do contexto do controle da dor pós-operatória, em endodontia e em outras especialidades da Odontologia. Isso se faz necessário, uma vez que, pelo fato desse fármaco não ser aprovado para uso nos Estados Unidos, consequentemente periódicos com visibilidade mundial não demostram na publicação de estudos envolvendo a dipirona, havendo assim número reduzido de avaliações a esse respeito e que são de interesse particular para a Odontologia no Brasil.
Apesar de ser o medicamento mais consumido no Brasil, a dipirona não se encontra dentro dos medicamentos essenciais para a Organização Mundial de Saúde (1992) e está proibido em muitos países, como por exemplo os EUA. Desta forma, observa-se um perfil mundial para o maior consumo do paracetamol, segunda medicação mais consumida pelo levantamento deste estudo.
Estudos clínicos para o controle da dor de origem dental mostram que o paracetamol apresenta resultados mais satisfatórios quando associado a um
outro AINES (Menhinick et al., 2004 Modaresi et al, 2006, Mehrvarzfar et al., 2012) e, em estudos para verificar o aumento da eficácia anestésica em pacientes com pulpite irreversível não apresenta vantagens no seu uso (Ianiro et al.,2007, Li et al., 2012). Neste estudo, a classe dos analgésicos quando utilizada em monoterapia apresentou eficácia parcial no controle da dor antes do atendimento.
Em relação ao uso de AINES, observa-se que o diclofenaco foi o mais utilizado. No Brasil, em relação à prática de automedicação, o diclofenaco é amplamente consumido para controle da dor, entre os AINES adquiridos sem prescrição (Arrais et al., 1997- 53%, Abraão et al., 2009- 79%). Entretanto, alguns estudos têm mostrado pouca eficácia com sua utilização (Negm, 1989, Prasanna, 2011). Tamietti et al. (2012) apontaram os altos índices de efeitos colaterais do uso deste AINES, salientando a sua combinação com a amoxicilina, na qual o diclofenaco interfere na biodisponibilidade do antimicrobiano (Begamashi et al., 2006).
Apesar de não apresentarem 100% de eficácia para diminuir ou evitar dor, estudos clínicos mostram que medicamentos analgésicos e anti-inflamatórios possuem um papel coadjunvante ao tratamento (Menhinick et al.,2004, Barron et al, 2004, Hargreaves e Abboutt,2005, Modaresi et al.,2006, Noronha et al.,2009, Poshapski et al.,2009, 2011, Li et al.,2012, Mehrvarzfar et al.,2012, Shahi et al.,2013, Nalamachi et al.,2014).
O uso de analgésicos, em monoterapia, apresenta melhores efeito para controle de dor leve. A combinação de medicamentos analgésicos e AINES, tem
apresentado melhor resultado para controle de dor (moderada ou severa). Esta combinação de fármacos com diferentes locais de ação, tempo de latência e duração tem apresentado um efeito sinérgico e tende a aumentar a eficácia no controle da dor (ex; paracetamol associado a um AINES) (Mehlisch,2002, Becker, 2010). Como no presente estudo foi observada maior proporção da prática da monoterapia (uso de somente analgésico ou somente AINES) para controle de dor de intensidade moderada e severa, foi possível observar que a mesma não foi totalmente eficaz. Por outro lado, ressalta-se o fato de não haver diferença estatisticamente significante entre a medicação prescrita ou consumida por conta própria sendo ela a monoterapia ou com o consumo de mais de um fármaco. A importância de esmiuçar as possibilidades do porquê da eficácia parcial da medicação, nos remete a necessidade de haver um diagnóstico e tratamento nos casos de dor de origem dental, não sendo viável somente o controle desta doença com a farmacoterapia.
Num total de 13,2% dos pacientes relatam a utilização de antibióticos associado ou não a um outro fármaco. Este baixo índice deve-se provavelmente à dificuldade de obtenção de antibióticos desde 28/11/2010, quando a venda dos mesmos no Brasil passou a ser controlada (Agência Nacional de Vigilância Sanitária- Resolução da Diretoria Colegiada- RDC n° 44, de 26 de Outubro de 2010), na tentativa de reduzir o uso abusivo e a incidência de resistência bacteriana. Ainda, não há evidências na literatura que antimicrobianos sejam capazes de controlar a dor, a dor a percussão ou diminuir a quantidade de analgésicos consumida nos casos de pulpite (Matthews et al.,1994, Keenan et
al.,2006). Da mesma forma, neste estudo pode-se observar que os antimicrobianos não foram eficazes para o controle de dor de origem dental, independente do diagnóstico, quando comparados aos analgésicos ou anti- inflamatórios.
No total de 18 pacientes (3,7%) relataram que uma das medicações para controle de dor foi receitada (em geral o antibiótico) e outra foi tomada por conta própria (já que a medicação receitada não foi eficaz). Com a restrição da venda, há um consenso na redução da prescrição de antibióticos visando a priori um diagnóstico preciso para avaliar a real necessidade de usar o antimicrobiano. Há uma relação direta entre uso e resistência bacteriana e há evidência de que a prescrição errônea na Odontologia deve-se normalmente a um erro de diagnóstico ou a falta dele. O antibiótico não é capaz de controlar a dor de origem odontogênica, principalmente nos casos de inflamação e, mesmo nos casos de infecção é questionada sobre sua eficácia no controle somente da sintomatologia dolorosa (Nagle et al., 2000, Keenan et al., 2006, De Paula, 2014). Além disso, segundo De Paula e colaboradores (2014), o número de prescrições é substancialmente menor quando o paciente recebe tratamento do que quando comparado aqueles que não tiveram qualquer atendimento clínico.
Apesar de não compor os dados deste estudo, para a maioria dos pacientes que relataram o uso de antibióticos e que receberam prescrição medicamentosa, a mesma foi prescrita por um profissional em estabelecimento da rede pública de saúde, sem qualquer tipo de diagnóstico ou tratamento. Ressalta-se que o uso de antibióticos está indicado apenas para os casos em
que há sinais de disseminação sistêmica da infeção ou nos casos de profilaxia antibiótica (Wilson et al.,2007), dependendo do procedimento a ser realizado.
O paciente procura o dentista para alívio da dor decorrente de uma inflamação ou infecção causada na maioria das vezes pela doença cárie