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INFORMAÇÃO E PODER

No documento São Paulo (páginas 47-50)

Desde muito cedo a informação mostrou-se essencial à humanidade. Em um primeiro

momento ela serve para garantir a sobrevivência em um ambiente de constante e acirrada

disputa. Mais tarde, o seu armazenamento servirá à evolução, possibilitando a compreensão e

manipulação da natureza. Esse contexto possibilita também, já nas primeiras e mais

rudimentares organizações sociais, a percepção acerca da informação como elemento

indispensável à obtenção e ao exercício do poder. O controle da informação e o saber que dela

deriva são, pois, afastados do homem comum, cuja compreensão forja-se a partir do pecado

original que é, antes de tudo, o pecado do conhecimento, capaz de igualar o homem aos

deuses (Gênesis, capítulo 3).

A evolução tecnológica apresenta, no entanto, crescentes desafios àqueles que,

detendo alguma forma de poder, necessitam lidar com a obtenção e difusão da informação,

cada vez mais facilitada por instrumentos como a escrita, que Darnton

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aponta como a

primeira revolução informacional.

Essa perspectiva é partilhada por Lévy,

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assinalando que a permanência própria da

escrita traduzir-se-ia em “uma rede potencialmente infinita de comentários, de debates, de

notas e de exegeses ramificada a partir dos livros originais”. Cada passo dado pela evolução

tecnológica em favor da difusão da informação encontrava um equivalente por parte daqueles

que se preocupavam com o seu controle. Assim, enquanto a escrita evoluía e possibilitava a

edição de livros, a sua disponibilidade era limitada por uma variedade de fatores, desde o

monopólio exercido pela igreja sobre aquilo que era copiado, até o valor das obras, que

acabava por colocá-las fora do alcance de grande parte da população.

Mantinha-se desse modo, mesmo que de forma indireta, o domínio da informação por

determinados segmentos sociais, aos quais cabia decidir sobre a sua disponibilidade e, via de

consequência, inviabilizar o acesso a tudo que pudesse ameaçar o status vigente.

Entretanto, o fluxo de mudanças não podia ser interrompido, de forma que a invenção

da prensa de tipos móveis por Johannes Gutenberg, possibilitando a produção de textos em

larga escala e a um custo acessível, impôs novo desafio àqueles que pretendiam o controle da

informação. Muito embora discorra sobre o advento do direito autoral como forma de

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DARNTON, Robert. A questão dos livros: passado, presente e futuro. São Paulo: Schwarcz Ltda., 2009.

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LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência o futuro do pensamento na era da informática. São Paulo:

proteger e remunerar o autor, Levy também observa que os instrumentos jurídicos que lhe são

inerentes passaram a constituir-se em uma nova modalidade de controle da informação:

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Com Gutenberg, que inventou a impressão gráfica com tipos móveis (século XV),

fixou-se de maneira definitiva a forma escrita, e as ideias e suas diversas expressões

puderam finalmente, e aceleradamente, atingir divulgação em escala industrial. Aí,

sim, surge realmente o problema da proteção jurídica do direito autoral,

principalmente no que se refere à remuneração dos autores e do direito de reproduzir

e de utilizar suas obras. Começa então a surgir também uma certa forma de censura,

pois os privilégios em relação a assuntos autorais concedidos por alguns governantes

(e por prazos determinados) estavam sujeitos a ser revogados, de acordo com os

interesses dos próprios concedentes. Cumpre ainda assinalar que os privilégios,

quase sempre, eram concedidos aos editores e não aos autores.

Estabelece-se, já no Ancien Régime, um padrão de conduta deixando clara a relação

entre o exercício do poder e o domínio da informação, o seu controle. Há os mecanismos

econômicos e sociais destinados a este controle, mas existe também - e sobretudo - o poder do

príncipe, capaz de, por variados mecanismos, controlar o acesso à informação. Tem-se assim,

desde aquela informação que representa perigo quando divulgada (e cuja definição também

cabe ao próprio príncipe), até aquele conhecimento cuja aquisição depende do favor do rei.

Boutang

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assinala com propriedade esses aspectos quando assevera:

Sob o Antigo Regime, a partir do momento em que o poder se organiza na forma de

poder da Igreja e, dentro deste, na forma de monarquia absolutista, a circulação das

pessoas, assim como a expressão não apenas das opiniões sobre a cidade, mas de

informações puramente factuais, e a coleta e a propriedade os meios de impressão,

têm sido atributos essenciais da potestas, a sua manifestação de majestade, sua

expressão de “glória” ou reputação. Portanto, o segredo, bem como a revelação

(disclosure), é apanágio do príncipe e um dos critérios para avaliar sua arte de

governar, formando a imagem e a opinião que o sumo Pontífice, no caso da Igreja, e

o Príncipe, para a Monarquia, sabem ou não fazer emanar de si mesmos.

[...]

O ponto central é que o saber do poder (pela administração) e o poder do saber (por

parte do clero e dos profissionais laicos), a capacidade técnica de produzir e

controlar a difusão e o acesso ao saber começam a se entrecruzar.

Inaugurando uma nova visão acerca do conhecimento, o iluminismo traz consigo

mudanças sociais profundas, tendo como base o poder libertador deste, o seu papel

fundamental na construção de uma sociedade mais avançada sob todos os aspectos, mas,

especialmente, quanto às tecnologias de produção. Não apenas se estabelece o saber científico

como o novo paradigma, mas também se adota o seu resultado primeiro, a tecnologia, como

um novo presente de Prometeu. Desta feita, o presente irá efetivamente possibilitar a

construção de uma nova utopia.

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Ibidem, p. 57.

98

BOUTANG, Yann Moulier. Wikipolítica e Economia de Abelhas. Informação, poder e política em uma

sociedade digital. In: MACIEL, Maria Lúcia; ALBAGLI, Sarita (Orgs.). Informação, conhecimento e poder:

mudança tecnológica e inovação social. Rio de Janeiro: Garamond, 2011, p. 68-70.

Mesmo saindo do âmbito exclusivo dos negócios do estado, a informação não deixa de

encerrar em si o diferencial de poder que, na nova ordem social, tem a ver com os meios de

produção e o domínio das tecnologias que lhe são inerentes. Há, para o grande público, uma

promessa geral de evolução humana – que passa a ser vista majoritariamente como o acesso

ao consumo. Entretanto, para aqueles que passam a deter o poder – agora desdobrado em

poder político e econômico, muito embora o primeiro seja apenas extensão do segundo – a

mesma necessidade de controle no obtenção e difusão da informação.

A nova época e o arcabouço teórico que a sustenta não mais admitem a simples

intervenção do príncipe, a sua vontade como primeiro e último elemento decisório.

Apresenta-se a necessidade de construção de mecanismos científicos e jurídicos capazes de

lidar com os novos cenários, que se formam a partir de uma intensa evolução tecnológica. O

Século XX surge sob este signo, muito embora a promessa de uma nova utopia

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vá encontrar,

já na segunda década daquele século, uma guerra mundial que exterminou cerca de nove

milhões de vidas, em grande parte graças à eficiência adquirida pelas novas armas.

A Segunda Guerra Mundial, ocorrida ainda na primeira metade do século XX, além de

marcar o fim dos sonhos sobre a elevação da humanidade, denota também a relevância que o

uso da informação vai desempenhar no equilíbrio das forças em campo. Estão presentes no

conflito não apenas novas – e notáveis – tecnologias ligadas à produção de armamentos, mas

aquelas que dizem respeito à formulação e análise de estratégias de combate. Daí Gleick

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afirmar que o sucesso dos ingleses em decifrar a máquina Enigma “teve um impacto mais

importante no resultado dos combates até mesmo do que o Projeto Manhattan”. Logo após a

guerra, Vannevar Bush

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vai expressar a sua preocupação com o armazenamento e acesso à

informação, lançando as bases teóricas do que se tornaria a Internet e destacando o traço

definidor daquilo que viria a ser conhecido como Sociedade da Informação.

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Serra discorre sobre este novo cenário afirmando que “À utopia científico-tecnológica, herdada de

Descartes, o Iluminismo vai, assim, juntar a utopia “liberal humanitária” (mannheim), assente na ideia de

que o saber (que tende a identificar-se, cada vez mais, com o saber científico) tem um poder informativo e

educativo. Informando e educando cada um dos seres humanos, de forma cada vez mais completa, será

possível construir uma sociedade cada vez mais humana e perfeita – não só do ponto de vista material como

do ponto de vista moral e político.”

100

GLEICK, James. A informação, uma história, uma teoria, uma enxurrada. São Paulo: Companhia das

Letras, 2013.

101

BUSH, Vannevar. As we may think. 1945. Disponível em:

<http://www.theatlantic.com/magazine/archive/1945/07/as-we-may-think/303881/?single_page=true>.

Acesso em: 02 dez. 2016.

No documento São Paulo (páginas 47-50)

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