Desde muito cedo a informação mostrou-se essencial à humanidade. Em um primeiro
momento ela serve para garantir a sobrevivência em um ambiente de constante e acirrada
disputa. Mais tarde, o seu armazenamento servirá à evolução, possibilitando a compreensão e
manipulação da natureza. Esse contexto possibilita também, já nas primeiras e mais
rudimentares organizações sociais, a percepção acerca da informação como elemento
indispensável à obtenção e ao exercício do poder. O controle da informação e o saber que dela
deriva são, pois, afastados do homem comum, cuja compreensão forja-se a partir do pecado
original que é, antes de tudo, o pecado do conhecimento, capaz de igualar o homem aos
deuses (Gênesis, capítulo 3).
A evolução tecnológica apresenta, no entanto, crescentes desafios àqueles que,
detendo alguma forma de poder, necessitam lidar com a obtenção e difusão da informação,
cada vez mais facilitada por instrumentos como a escrita, que Darnton
95aponta como a
primeira revolução informacional.
Essa perspectiva é partilhada por Lévy,
96assinalando que a permanência própria da
escrita traduzir-se-ia em “uma rede potencialmente infinita de comentários, de debates, de
notas e de exegeses ramificada a partir dos livros originais”. Cada passo dado pela evolução
tecnológica em favor da difusão da informação encontrava um equivalente por parte daqueles
que se preocupavam com o seu controle. Assim, enquanto a escrita evoluía e possibilitava a
edição de livros, a sua disponibilidade era limitada por uma variedade de fatores, desde o
monopólio exercido pela igreja sobre aquilo que era copiado, até o valor das obras, que
acabava por colocá-las fora do alcance de grande parte da população.
Mantinha-se desse modo, mesmo que de forma indireta, o domínio da informação por
determinados segmentos sociais, aos quais cabia decidir sobre a sua disponibilidade e, via de
consequência, inviabilizar o acesso a tudo que pudesse ameaçar o status vigente.
Entretanto, o fluxo de mudanças não podia ser interrompido, de forma que a invenção
da prensa de tipos móveis por Johannes Gutenberg, possibilitando a produção de textos em
larga escala e a um custo acessível, impôs novo desafio àqueles que pretendiam o controle da
informação. Muito embora discorra sobre o advento do direito autoral como forma de
95
DARNTON, Robert. A questão dos livros: passado, presente e futuro. São Paulo: Schwarcz Ltda., 2009.
96LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência o futuro do pensamento na era da informática. São Paulo:
proteger e remunerar o autor, Levy também observa que os instrumentos jurídicos que lhe são
inerentes passaram a constituir-se em uma nova modalidade de controle da informação:
97Com Gutenberg, que inventou a impressão gráfica com tipos móveis (século XV),
fixou-se de maneira definitiva a forma escrita, e as ideias e suas diversas expressões
puderam finalmente, e aceleradamente, atingir divulgação em escala industrial. Aí,
sim, surge realmente o problema da proteção jurídica do direito autoral,
principalmente no que se refere à remuneração dos autores e do direito de reproduzir
e de utilizar suas obras. Começa então a surgir também uma certa forma de censura,
pois os privilégios em relação a assuntos autorais concedidos por alguns governantes
(e por prazos determinados) estavam sujeitos a ser revogados, de acordo com os
interesses dos próprios concedentes. Cumpre ainda assinalar que os privilégios,
quase sempre, eram concedidos aos editores e não aos autores.
Estabelece-se, já no Ancien Régime, um padrão de conduta deixando clara a relação
entre o exercício do poder e o domínio da informação, o seu controle. Há os mecanismos
econômicos e sociais destinados a este controle, mas existe também - e sobretudo - o poder do
príncipe, capaz de, por variados mecanismos, controlar o acesso à informação. Tem-se assim,
desde aquela informação que representa perigo quando divulgada (e cuja definição também
cabe ao próprio príncipe), até aquele conhecimento cuja aquisição depende do favor do rei.
Boutang
98assinala com propriedade esses aspectos quando assevera:
Sob o Antigo Regime, a partir do momento em que o poder se organiza na forma de
poder da Igreja e, dentro deste, na forma de monarquia absolutista, a circulação das
pessoas, assim como a expressão não apenas das opiniões sobre a cidade, mas de
informações puramente factuais, e a coleta e a propriedade os meios de impressão,
têm sido atributos essenciais da potestas, a sua manifestação de majestade, sua
expressão de “glória” ou reputação. Portanto, o segredo, bem como a revelação
(disclosure), é apanágio do príncipe e um dos critérios para avaliar sua arte de
governar, formando a imagem e a opinião que o sumo Pontífice, no caso da Igreja, e
o Príncipe, para a Monarquia, sabem ou não fazer emanar de si mesmos.
[...]
O ponto central é que o saber do poder (pela administração) e o poder do saber (por
parte do clero e dos profissionais laicos), a capacidade técnica de produzir e
controlar a difusão e o acesso ao saber começam a se entrecruzar.
Inaugurando uma nova visão acerca do conhecimento, o iluminismo traz consigo
mudanças sociais profundas, tendo como base o poder libertador deste, o seu papel
fundamental na construção de uma sociedade mais avançada sob todos os aspectos, mas,
especialmente, quanto às tecnologias de produção. Não apenas se estabelece o saber científico
como o novo paradigma, mas também se adota o seu resultado primeiro, a tecnologia, como
um novo presente de Prometeu. Desta feita, o presente irá efetivamente possibilitar a
construção de uma nova utopia.
97
Ibidem, p. 57.
98
BOUTANG, Yann Moulier. Wikipolítica e Economia de Abelhas. Informação, poder e política em uma
sociedade digital. In: MACIEL, Maria Lúcia; ALBAGLI, Sarita (Orgs.). Informação, conhecimento e poder:
mudança tecnológica e inovação social. Rio de Janeiro: Garamond, 2011, p. 68-70.
Mesmo saindo do âmbito exclusivo dos negócios do estado, a informação não deixa de
encerrar em si o diferencial de poder que, na nova ordem social, tem a ver com os meios de
produção e o domínio das tecnologias que lhe são inerentes. Há, para o grande público, uma
promessa geral de evolução humana – que passa a ser vista majoritariamente como o acesso
ao consumo. Entretanto, para aqueles que passam a deter o poder – agora desdobrado em
poder político e econômico, muito embora o primeiro seja apenas extensão do segundo – a
mesma necessidade de controle no obtenção e difusão da informação.
A nova época e o arcabouço teórico que a sustenta não mais admitem a simples
intervenção do príncipe, a sua vontade como primeiro e último elemento decisório.
Apresenta-se a necessidade de construção de mecanismos científicos e jurídicos capazes de
lidar com os novos cenários, que se formam a partir de uma intensa evolução tecnológica. O
Século XX surge sob este signo, muito embora a promessa de uma nova utopia
99vá encontrar,
já na segunda década daquele século, uma guerra mundial que exterminou cerca de nove
milhões de vidas, em grande parte graças à eficiência adquirida pelas novas armas.
A Segunda Guerra Mundial, ocorrida ainda na primeira metade do século XX, além de
marcar o fim dos sonhos sobre a elevação da humanidade, denota também a relevância que o
uso da informação vai desempenhar no equilíbrio das forças em campo. Estão presentes no
conflito não apenas novas – e notáveis – tecnologias ligadas à produção de armamentos, mas
aquelas que dizem respeito à formulação e análise de estratégias de combate. Daí Gleick
100afirmar que o sucesso dos ingleses em decifrar a máquina Enigma “teve um impacto mais
importante no resultado dos combates até mesmo do que o Projeto Manhattan”. Logo após a
guerra, Vannevar Bush
101vai expressar a sua preocupação com o armazenamento e acesso à
informação, lançando as bases teóricas do que se tornaria a Internet e destacando o traço
definidor daquilo que viria a ser conhecido como Sociedade da Informação.
99
Serra discorre sobre este novo cenário afirmando que “À utopia científico-tecnológica, herdada de
Descartes, o Iluminismo vai, assim, juntar a utopia “liberal humanitária” (mannheim), assente na ideia de
que o saber (que tende a identificar-se, cada vez mais, com o saber científico) tem um poder informativo e
educativo. Informando e educando cada um dos seres humanos, de forma cada vez mais completa, será
possível construir uma sociedade cada vez mais humana e perfeita – não só do ponto de vista material como
do ponto de vista moral e político.”
100
GLEICK, James. A informação, uma história, uma teoria, uma enxurrada. São Paulo: Companhia das
Letras, 2013.
101
BUSH, Vannevar. As we may think. 1945. Disponível em:
<http://www.theatlantic.com/magazine/archive/1945/07/as-we-may-think/303881/?single_page=true>.
Acesso em: 02 dez. 2016.
No documento
São Paulo
(páginas 47-50)