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1 – inseparabilidade entre pensamento e existência

Parte II – o argumento do cogito

II. 1 – inseparabilidade entre pensamento e existência

Logo no início da Segunda Meditação, Descartes retoma qual o estatuto da suposição proposta ao fim da Meditação anterior. Uma das opiniões que estavam em questão era de que tudo aquilo que conhecemos, o fazemos pelos sentidos ou dos sentidos. Propõe-se então em assumir que esta opinião é falsa, e cai com ela a certeza de que as coisas que vemos são verdadeiras e existentes. A outra opinião que estava em questão era de que nada pode vir a existir ou ser produzido a partir do nada, e que, portanto, existem elementos simples e gerais verdadeiros e existentes que configuravam a realidade do tudo que era visto. A proposta é assumir que corpo, figura, extensão e etc também não são verdadeiros e existentes. Embora, este movimento será alegoricamente representado por Descartes a partir da existência da personagem de um gênio maligno, não nos parece haver qualquer dúvida sobre o estatuto que tal personagem representa para a constituição do cenário hipotético pretendido. E mais ainda, não nos parece haver qualquer dúvida quanto ao caráter hipotético, fictício, ou especulativo do movimento que está sendo realizado. Assim diz Descartes:

Suponho, portanto, que todas as coisas que vejo são falsas; persuado-me de que jamais existiu de tudo quanto minha memória referta de mentiras me representa; penso não possuir nenhum sentido; creio que o corpo, a figura, a extensão, o movimento e o lugar são apenas ficções de meu espírito.59

Quando estas duas opiniões perdem seu valor de verdade, é preciso perceber que não se trata mais de admitir que as opiniões podem ser verdadeiras, mas também podem ser falsas. A alegoria do gênio maligno é introduzida como forma de determinar que estas opiniões são absolutamente falsas. E, no que se relaciona à alegoria, é preciso ter em mente que não é o caso de que simplesmente tudo é falso, isto é, de que não percebemos como sendo algo existente, verdadeiro e externo. Pelo contrário, continuamos percebendo como se fosse verdadeiro e existente, e não temos evidências contundentes para afirmar que não é verdadeiro, a não ser porque sabemos que existe um gênio manipulando-nos. O que nos parece importante frisar é que é somente por conta de termos conhecimento de que existe um gênio maligno que aceitamos que tudo se resume a uma ficção do pensamento. Pois esta informação privilegiada contraria aquilo que parece ser evidentemente verdadeiro.

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Agora, quando se rompe com a correspondência entre algo externo e o sujeito, se configura uma situação onde o princípio de causalidade não é respeitado. Neste contexto, eu percebo objetos existindo fora de mim, o que se apoia no princípio de causalidade, mas sei que eles não são causados fora de mim. Este princípio funda tanto a opinião de que conhecemos pelos sentidos quanto a opinião de que existem elementos mais simples e gerais que configuram aquilo que conhecemos. Agora, se por um lado, vimos que na passagem onde Descartes polemiza acerca das evidências que validam a certeza de que nada pode ser produzido a partir do nada, e, não menos importante, a certeza de que dois mais três é igual a cinco, e de que um quadrado tem quatro lados, a saber, “pode ocorrer que Deus tenha desejado que eu me engane todas as vezes em que faço a adição de dois mais três, ou em que enumero os lados de um quadrado,”60

agora, esta última certeza não é elencada por Descartes, nem na passagem onde ele sugere o uso da alegoria na Primeira Meditação, tão pouco, na passagem onde se reafirma o estatuto desta alegoria na Segunda Meditação.

Podemos assumir que embora não explicitamente indicado, quando adicionamos dois mais três, e enumeramos os lados de um quadrado, também nos enganamos, e a existência de um gênio maligno causaria este erro. Neste caso, a existência do gênio quebra com o princípio de não contradição. Por outro lado, se assumimos que é de propósito que Descartes não inclui esse princípio sob o domínio da ação do gênio maligno, podemos ter uma indicação de que os julgamentos que não dependem do princípio de causalidade, ou seja, julgamentos que não se constituem sob o modelo de afirmação em que uma coisa é causada por outra, estão imunes a ação do gênio maligno. Este seria o caso da adição de dois mais três é igual a cinco e o quadrado tem quatro lados.

O que poderá, pois, ser considerado verdadeiro? Talvez nenhuma outra coisa a não ser que nada há no mundo de certo61

Parece-nos que o foco da questão se restringe a verificar o que é possível afirmar de certo no mundo no sentido de existente, já que a suposição versa sobre a falsidade dos objetos externos, e do próprio corpo. Mas fica a pergunta: ao supor que não existe nenhum sentido, nenhum corpo, figura, extensão e etc, se assume que por

60 Meditações (AT, IX, 21-22) 61

conta da falsidade destes, incorremos naturalmente em erro ao adicionarmos dois mais três e enumeramos o lado de um quadrado? Parece-nos que estes dois pensamentos não tem sua verdade abalada pela ação do gênio maligno. E, portanto, o princípio de não contradição, que funda estes dois pensamentos, segue válido, mesmo diante da ação do gênio maligno. No desenvolvimento do argumento que visava sugerir a menor dúvida possível acerca dos princípios do conhecimento, Descartes questiona a validade do princípio de causalidade e do princípio de não contradição. Mas no cenário do gênio maligno, apenas o princípio de causalidade é revogado.

Mas que sei eu, se não há nenhuma outra coisa diferente das que acabo de julgar incertas, da qual não se possa ter a menor dúvida?62

Existe alguma coisa que sobrevive à dúvida? Existe algo que pode ser afirmado como conhecimento verdadeiro, isto é, que para além de conhecimento apenas duvidoso como todos até aqui examinadas, não só parece possível de ser verdadeiro, mas indubitavelmente verdadeiro? Como vimos, esta questão do conhecimento verdadeiro é o foco das Meditações e orienta todo o argumento desenvolvido por Descartes. Assim, concluímos que o conhecimento que provém dos sentidos não atende ao critério de verdade proposto. Da mesma forma, o conhecimento puramente racional que fundamenta a afirmação de que existem elementos simples e gerais que constituem e provam a existência de objetos externos também é atingido pela dúvida e falha no critério da verdade. É de se notar a radicalidade do argumento dado o fato de que ele parece acabar em definitivo com a possibilidade de qualquer conhecimento verdadeiro, reduzindo todo conhecimento que se tem em apenas opiniões, já que estas por não estarem fundadas em princípios inabaláveis, acabam tendo seu valor reduzido. E, estabelece que todo conhecimento que se pode ter é o conhecimento do provável, jamais o conhecimento do verdadeiro.

Mas o argumento não está concluído. Ao invés de se encerrar aceitando que o todo conhecimento se reduz à esfera do provável, Descartes irá oferecer novos elementos para se rever o estatuto obtido até este momento. Diz Descartes: “Não haverá algum Deus, ou alguma outra potência, que me ponha no espírito tais pensamentos”63. Como vimos no cenário da pre-dúvida, tudo aquilo que é percebido como imagem ou ideia está associada às coisas existindo fora de nós de onde essas imagens ou ideias se

62 Meditações (AT, IX, 24-25) 63

formariam. Assim, garantimos nossa existência e a existência de algo para além de nós. Com a ação do gênio maligno, rompe-se a conexão necessária entre as imagens e os objetos, reduzindo tudo à imagem. Descartes irá, então, se questionar se ao menos, estas imagens, ideias, pensamentos, não são produzidas por Deus, ou alguma outra potência. Seria uma forma de ainda garantir que existe algo para além das imagens e ideias e que estas estariam representando. Estas ideias ou pensamentos poderiam ser causados por Deus, de modo que, teríamos ao menos, nossa existência como certa, e a existência de deus. Se esta tese for verdadeira, então, derruba-se a tese de que nada é possível de se conhecer com certeza.

Entretanto, a existência de deus, diz Descartes, “não é necessária, pois talvez seja eu capaz de produzi-los por mim mesmo64”. Se estas ideias, que não tem mais sua existência atreladas a objetos externos, podem, como sua causa, por um lado serem associadas a deus, e por outro lado a nós mesmos, evidencia-se novamente uma incerteza pairando, e novamente um estado de dúvida. É preciso reparar que o estado de dúvida em relação à origem dos pensamentos não se dá porque não sabemos se deus existe, mas pelo fato de que para a causa dos pensamentos, poderíamos dizer que eles podem ser causados por nós, ou ser causado por algo que não somos nós, isto é, por alguma outra potência, que embora não sejam objetos externos, existe fora de nós. Agora, não seria então o caso de assumir que estes pensamentos que existem em nós tem em nós sua origem, de modo que podemos assim ter isto como absolutamente certo? Se assumirmos tal tese sem justificá-la, caímos no problema do conhecimento provável e não justificado. Esta tese seria tão duvidosa quanto a tese de que todo conhecimento provém dos sentidos ou pelos sentidos, ou de que nada pode ser produzido a partir do nada. Parece-nos que o critério de verdade é de que tenhamos evidencias que justifiquem explicitamente a tese pretendida como possuindo valor de absoluta verdade, ao invés de apenas assumir que ela é provavelmente verdadeira e dar- lhe valor de absolutamente verdadeiro.

Então, foi possível mostrar que é duvidosa a existência de um mundo, de coisas externas, sejam aquelas coisas que percebo pelos sentidos, ou seja, aquilo que afirmo pelo puro entendimento, a saber, elementos simples e gerais. Depois, foi explicitado que é duvidosa a existência de um deus que poderia ser a causa dos pensamentos que tenho de coisas como se elas existissem fora de mim. Por fim, Descartes irá verificar se

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também é duvidosa a existência do último elemento desse conjunto de que se costumava assumir como absolutamente verdadeiro: “Eu então, pelo menos, não serei alguma coisa?”65

Primeiramente, Descartes lembra da dúvida acerca da existência do corpo. Pode parecer que se já foi negado a existência do corpo, e eu tenho corpo, é possível admitir que assim como o corpo não existe, eu também não existo. Se essa tese se segue, isso implica dizer que nossa existência está estreitamente e necessariamente ligada ao corpo de modo que não podemos existir sem ele, ou no mínimo que se a existência de corpo é duvidosa, também a nossa própria existência é. Descartes reafirma o que estava em jogo quando a existência do corpo foi colocada em dúvida: “...eu me persuadi de que nada existia no mundo, que não havia nenhum céu, nenhuma terra, espíritos alguns, nem corpos alguns”66

. E se pergunta se toda essa negação não recai consequentemente sobre a própria existência. Poderíamos assim concluir que não existe de fato nada que não seja duvidoso. Nesse conjunto dos elementos que costumávamos assumir como absolutamente certo, constatasse que tudo é duvidoso.

Porém, o argumento não se encerra assim. Descartes diz: “certamente não, eu existia sem dúvida...”67 Nos parece que ao duvidar da existência de um mundo, de corpo, e etc, o sujeito meditante não estava atrelando a isso automaticamente também a dúvida sobre a sua própria existência, ou seja, ao duvidar da existência de um mundo, não se está também duvidando da existência de si. Diz Descartes: “... se é que eu me persuadi, ou, apenas, pensei alguma coisa”68

. Se sou eu que ao longo de todo a

Meditação realizo o processo, se sou eu que me persuado, ou se mesmo não me

persuadindo, sou eu que estou tentando me persuadir, isto é, pensando qualquer coisa que seja, então, eu existo. Parece-nos, então, que um elemento do conjunto sobrevive à dúvida: a minha existência não pode ser duvidosa, ou seja, ela é absolutamente verdadeira. Mas o que pode dar as garantias necessárias de modo a fazer a minha existência sobreviver à dúvida? Todo o colocar em ação da dúvida tem como condição de ocorrência um sujeito que realiza o encadeamento de ideias que é a dúvida. Na ausência do sujeito, temos a impossibilidade de realização da dúvida. Se a dúvida se realiza, pensamentos estão sendo realizados, e estes pensamentos não podem ocorrer sem um sujeito que esteja pensando. Agora, não é possível existir pensamento sem o

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Meditações (AT, IX, 24-25)

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idem

67 idem 68

sujeito pensante? Pois se isso for possível, poderia se concluir que a existência do sujeito é duvidosa já que pode ser que para pensar se precise existir, mas também pode ser que não.

Mas não parece ser possível. Parece que é inegável que o pensamento e o sujeito existem formando uma unidade indivisível. Onde há sujeito, há pensamento, e vice-versa. Esta verdade não parece ser passível de dúvida sem que, ao mesmo tempo, não estivéssemos produzindo uma contradição.

Reexplicando o argumento a partir da alegoria do gênio maligno, Descartes irá relembrar que “há algum, não sei qual, enganador mui poderoso e mui ardiloso que emprega toda a sua indústria em enganar-me sempre.”69 E, deste modo, a existência do sujeito parece necessária para que o gênio maligno tenha a quem enganar. O sujeito será enganado, isto é, todas as coisas que ele pensava que eram verdadeiras, se encontram falsas, e mesmo assim, é fato que ele que é enganado, está pensando ser algo. Nesse sentido a verdade ou falsidade do pensamento não compromete a existência do próprio pensamento que por sua vez traz necessariamente consigo a existência do sujeito e, portanto, “esta proposição, eu sou, eu existo, é necessariamente verdadeira todas as vezes que a enuncio ou que a concebo em meu espírito.”70

Mas como vimos, a alegoria do gênio maligno que representa um artifício de persuasão que visa dar ao duvidoso o caráter de absolutamente falso se constituiu no cenário do argumento como uma passagem ou como a proposição da simulação de um cenário que extrapola a realidade. Teria por conta disso, a verdade da existência do sujeito um valor apenas hipotético, isto é, fora da simulação a existência do sujeito seria duvidosa? Não. Neste aspecto o caráter de simulação da existência de um gênio maligno funciona como uma exercício tão radical que aquilo que sobrevive à sua ação goza de verdade para além da simulação. Pois é preciso sempre ter em mente que o gênio maligno não é um falseamento arbitrário. Ou seja, tudo que foi falseado já era de algum modo duvidoso de modo que, se a existência do sujeito fosse, dentro da simulação, considerada falsa, isso se deveria ao fato de que fora da simulação, ela já apresentaria um mínimo de dúvida, como foi visto nas outras ideias que eram tidas como absolutamente verdadeiras.

Para Gueroult a existência do sujeito não é atingida pelo argumento da dúvida porque esta ataca apenas o julgamento de existência que se relacionam a coisas

69 Meditações (AT, IX, 24-25) 70

existindo fora do sujeito. No caso em questão o sujeito afirma a existência de si, não de algo externo a ele, mas a ele mesmo. Nessa medida nos parece que o julgamento de existência em questão não cai perante a dúvida porque goza de um acesso privilegiado ao objeto sobre o qual se realiza o julgamento.

É que o cogito é uma exceção a regra da dúvida universal imposta pela ficção do gênio maligno porque em realidade ele se encontra naturalmente fora da esfera que esta regra cincuscreve. A dúvida universal atinge aquilo que o eu afirma como verdade existêncial ou essencial válida fora dele. Ou, aqui, o eu afirma a ele mesmo : o objeto posto não é outro que o sujeito.71

Mas em que medida é suficiente afirmar que existe uma coincidência entre o sujeito e objeto para se justificar um acesso privilegiado de modo que a verdade no julgamento em questão sobreviva à dúvida? Como vimos, Descartes afirma que o conhecimento através do sentido é duvidoso, a existência de elementos simples constituindo objetos externos é duvidosa, a soma de dois mais três é duvidosa. No caso da dúvida direcionada aos sentidos e ao entendimento, realmente os julgamentos entram nessa categoria de afirmar a existência de objetos que existem externos ao sujeito. Isso valida a interpretação de Gueroult, quando este diz que no caso da existência do sujeito, a dúvida falha, porque não se trata de afirmar algo externo ao sujeito, mas o próprio sujeito. Entretanto, no caso em que a dúvida falseia o julgamento de que dois mais três é igual a cinco e que um quadrado tem quatro lados, o mesmo não pode ser dito, isto é, estes julgamentos não se dirigem a afirmação de algo externo. Ambos os julgamentos não são de ordem existencial. Se assumimos que a ação do gênio maligno ataca à todo julgamento, concluímos que também os julgamentos que não são de ordem existencial são duvidosos. Parece-nos que ambos os julgamentos se utilizam de elementos que já possuem uma existência delimitada a apenas ideia ou pensamento. A ação do gênio coloca em dúvida a relação que se estabelece entre os pensamentos, mas não atinge, da mesma forma, a existência dos elementos enquanto pensamentos.

Nesse sentido, nos parece que não é a coincidência entre objeto e sujeito que salva o julgamento de existência do sujeito da ação da dúvida. A existência do sujeito se torna inatingível porque não é possível desenvolver o processo de dúvida sem um sujeito. Dito de outro modo, o gênio maligno não pode enganar se não existir um sujeito

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ao qual ele engane. No caso de dois mais três é igual a cinco e um quadrado possui quatro lados, podemos perceber a mesma situação. Se não é admitida a existência, enquanto pensamento, dos elementos que constituem o julgamento, não é possível realizar o segundo passo que é duvidar do julgamento. No caso da dúvida que se dirige para a ideia de que todo conhecimento provém dos sentidos ou pelos sentidos, a estrutura completa do julgamento afirma que temos imagens de coisas que parecem representar de forma semelhante os objetos que existem fora de nós e que produzem estas imagens. A ação do gênio maligno se encarrega de dizer que estas imagens existem, mas que elas não são produzidas por objetos externos. No caso do julgamento que afirma que existem elementos simples e gerais que constituem estas imagens e que correspondem a elementos simples e gerais verdadeiros e existentes, a ação do gênio maligno se encarrega novamente de aceitar que estes elementos simples gerais existem enquanto pensamento, mas que estes elementos gerais e simples não são verdadeiros e existentes.

No caso da existência do sujeito, para que seja possível afirmar uma coincidência entre objeto e sujeito, seria necessário evidenciar que o sujeito tem uma ideia e que esta ideia corresponde a um objeto, e como vimos, este modo de pensar iria ser atacado pelo gênio maligno. Esta correspondência não precisa ser para com algo externo, pois dois mais três igual a cinco, são atingidos pelo gênio maligno e não se constroem por relação de algo interno com algo externo, mas apenas entre um relação de elementos existentes no próprio pensamento. Se seguirmos a interpretação proposta por Gueroult de que o sujeito afirma um julgamento de existência acerca de si, e por existir uma coincidência entre sujeito e objeto, tal julgamento escapa à dúvida, seríamos autorizados a dizer que no caso de dois mais três é igual a cinco, o julgamento versa sobre objetos que só existem no sujeito que profere o julgamento, e que, portanto, tal julgamento também escapa à dúvida. Como vimos que dois mais três é igual a cinco é duvidoso, o julgamento eu existo, mesmo que reportando ao próprio sujeito, também seria duvidoso. Mas então, porque a existência do sujeito não é duvidosa? Parece-nos que a existência do sujeito se salva justamente pela ausência de um julgamento de relação entre objeto e sujeito. Descartes poderia utilizar a fórmula “penso, logo existo” para concluir pela existência do sujeito, esclarecendo assim que não se trata de uma coincidência entre sujeito e objeto, mas para evidenciar que para pensar é preciso existir e que se o gênio maligno nos engana, ele nos faz pensar, e que se não existirmos, não haverá o pensamento e por fim, não haverá o engano. Entretanto, essa fórmula está

ausente. Pois ela implica um julgamento da mesma ordem de dois mais três é igual a cinco e seria falso perante a ação do gênio maligno. Dito de outro modo, dois mais três é igual a cinco, mas pode ser que não seja. Ou, perante a ação do gênio maligno é falso.

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