2.3 O CONTROLE APLICADO À ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA
2.3.3 Controle Externo
2.3.3.2 Instrumentos constitucionais de controle social
O Brasil enquanto Estado Democrático de Direito elegeu, consoante o artigo 6.º da Constituição Federal, os direitos sociais, a saber: a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados.
A partir do texto constitucional o Estado torna-se automaticamente guardião desses direitos e, portanto, tem o papel de promovê-los através da busca à igualdade na distribuição de renda e acesso com qualidade aos serviços públicos essenciais.
No entanto, segundo Ashley (2005, p.15), "apesar da obrigação social, o Estado não vem apresentando condições organizacionais, econômicas e políticas para resolver sozinho". Problemas como a corrupção, os desvios da burocracia, entre outros levam muitas vezes o cidadão a não ver seus anseios cumpridos e desfrutar dos benefícios que sua efetividade traria.
Assim, o controle social precisa ser exercido ao nível de controle das ações do governo (CASTRO, 2008, p.44), questionamento da efetividade das ações públicas (ASHLEY, 2005, p.232), e não apenas apreciação pura e simples da eficiência numérica através de instrumentos efetivos.
Tendo em vista a recente história de redemocratização do país, os mecanismos pelos quais o controle social pode ser exercido efetivamente foram garantidos constitucionalmente, como forma de preservar a participação popular de arbítrios.
Segundo Bandeira de Mello (2009, p.936), no Brasil o sistema que vigora é o da "jurisdição única", ou seja, "cabe unicamente ao Poder Judiciário decidir com força definitiva sobre toda e qualquer contenda sobre a aplicação do Direito a um caso concreto sejam quais forem os litigantes ou a índole da relação jurídica controvertida".
Os institutos jurídicos consagrados constitucionalmente através dos quais o controle social pode ser exercido são: habeas corpus; habeas data; mandado de segurança, individual e coletivo; ação popular e ação civil pública (CASTRO, 2008, p.45), todos constantes como incisos do artigo 5.º.
O habeas corpus, consoante inciso LXVIII, é "uma ação de caráter penal e de procedimento especial, isenta de custas, que visa evitar ou cessar violência ou ameaça à liberdade de locomoção, por ilegalidade ou abuso de poder" (MORAES, 2012, p.135).
Outro instituto garantido constitucionalmente é o habeas data (inciso LXXII), cuja finalidade, assim conceituada por Bandeira de Mello (2009, p.945), leva ao entendimento de que:
é o instrumento processual cabível para assegurar o conhecimento ou a retificação de informações relativas a vida do impetrante constantes de registros ou banco de dados de entidades governamentais ou de caráter público, entendidas estas últimas como sendo as que armazenam ditas informações para utilização do público a que servem como é o caso do Serviço de Proteção ao Crédito.
Destaque-se que, segundo o inciso LXXVII, tanto as ações do habeas corpus como do habeas data são gratuitas, a fim de assegurar o exercício da cidadania.
O mandado de segurança, por sua vez, é outro instrumento constitucio- nalmente consagrado, nas modalidades individual e coletivo, a saber:
LXIX - conceder-se-á mandado de segurança para proteger direito líquido e certo, não amparado por "habeas-corpus" ou "habeas-data", quando o responsável pela ilegalidade ou abuso de poder for autoridade pública ou agente de pessoa jurídica no exercício de atribuições do Poder Público; LXX - o mandado de segurança coletivo pode ser impetrado por: a) partido político com representação no Congresso Nacional;
b) organização sindical, entidade de classe ou associação legalmente constituída e em funcionamento há pelo menos um ano, em defesa dos interesses de seus membros ou associados (BRASIL,1988).
O mandado de segurança é cabível para proteger direito líquido e certo onde o habeas corpus e o habeas data não sejam capazes de amparar, quando a ilega- lidade ou abuso de poder ocorrer por parte de uma autoridade pública ou agente de pessoa jurídica no exercício de atribuições do Poder Público (MORAES, 2012, p.160).
Outra figura jurídica que pode ser utilizada no controle social é o mandado de injunção, previsto no artigo 5.º inciso LXXI, sempre que a falta de norma regulamen- tadora torne inviável o exercício dos direitos e liberdades constitucionais e das prerrogativas inerentes à nacionalidade, à soberania e à cidadania (BRASIL, 1988).
O mandado de injunção se diferencia dos demais por seu objeto. Visa combater "a síndrome da inefetividade das normas constitucionais" (MORAES, 2012, p.179), em que o postulante com exclusividade, em um caso específico e concreto, obtém,
mediante suprimento judicial, a disciplina necessária indispensável ao exercício dos direitos e liberdades constitucionais ou das prerrogativas inerentes à nacionalidade, à soberania e à cidadania, frustrados pela ausência de norma reguladora, cuja falta inviabilize seu exercício (BANDEIRA DE MELLO, 2009, p.945).
Moraes (2012, p.179) assevera que se trata de uma "ação constitucional que possui um procedimento especial e visa suprimir uma omissão do Poder Público, no intuito de viabilizar o exercício de um direito, uma liberdade ou prerrogativa prevista na constituição Federal".
Outra figura constitucional de controle social é a figura da ação popular, expressa no inciso LXXIII do artigo 5.º, destacando que:
qualquer cidadão é parte legítima para propor ação popular que vise a anular ato lesivo ao patrimônio público ou de entidade de que o Estado participe, à moralidade administrativa, ao meio ambiente e ao patrimônio histórico e cultural, ficando o autor, salvo comprovada má-fé, isento de custas judiciais e do ônus da sucumbência (BRASIL, 1988).
Nas palavras de Meirelles (2009, p.726), a ação popular consiste:
no meio constitucional posto à disposição de qualquer cidadão para obter a invalidação de atos ou contratos administrativos – ou a estes equiparados – ilegais e lesivos ao patrimônio público ou entidade que o Estado participe à moralidade administrativa ou ao meio ambiente natural ou cultural.
Ainda como forma de garantir a participação democrática e exercício de direitos, o inciso LXXIV impera que "o Estado prestará assistência jurídica integral e gratuita aos que comprovarem insuficiência de recursos" (BRASIL, 1988).
Outro instrumento consagrado constitucionalmente, embora possua caráter essencialmente informal, apesar da forma escrita e independente do pagamento de taxas (MORAES, 2012, p.193), encontra-se no artigo 5.º, inciso XXXIV, alínea a. Trata-se do direito de petição aos Poderes Públicos em defesa de direitos ou contra ilegalidade ou abuso de poder (BRASIL, 1988).
Desta forma, fica assegurado a "qualquer pessoa, física ou jurídica, nacional ou estrangeira, o direito de apresentar reclamações aos Poderes Públicos, Legislativo, Executivo e Judiciário, bem como ao Ministério Público, contra ilegalidade ou abuso de poder" (MORAES, 2012, p.193), sendo que este direito está desvinculado da comprovação da existência de qualquer lesão a interesses próprios do peticionário e obriga a autoridade pública endereçada ao recebimento ao exame sob pena de configurar-se violação ao direito líquido e certo do peticionário.
Um outro instrumento de controle social, não judicante, consagrado pela Constituição Federal de 1988, é a participação dos cidadãos nos processos de tomada de decisões políticas essenciais ao bem-estar da população (MATIAS-
PEREIRA, 2010, p.196), o que se dá através de "segmentos organizados da socie-
dade, visando ao acompanhamento, a fiscalização da boa e regular aplicação dos recursos públicos" através da criação de conselhos (CASTRO, 2008, p.46).
Esses são instrumentos de controle social que serviram de base para a estruturação de muitos outros, infraconstitucionais, além de discorrer sobre a estrutu- ração e funcionamento de órgãos que dão suporte através de suas atribuições consti- tucionais ao controle social, como é o caso do Ministério Público e das Ouvidorias.