3 METODOLOGIA DA PESQUISA
3.6 DESENHO EXPERIMENTAL
3.6.2 Instrumentos
Para a elaboração do desenho, foram utilizados tanto instrumentos quantitativos quanto qualitativos, são eles: 1 – dados do rastreador ocular; 2 – relato livre; 3 – questionário técnico; 4 – relato pós-coleta. Passaremos agora a explicar sobre cada instrumento e os procedimentos de coleta.
1. Instrumentos de caráter quantitativo
a) Rastreador ocular
Como instrumento quantitativo, foi utilizado o rastreador ocular da marca Tobii Studio TX30018 composto por uma tela de 23 polegadas com resolução máxima de 1920 × 1080 pixel, com brilho de tela de 300cd/m2 (candela por metro quadrado – medida usada pelos fabricantes de imagem para transmissão de produtos audiovisuais), suficiente para produzir uma imagem de excelente qualidade, além de alto-falantes embutidos e uma câmera frontal inserida na parte superior da tela capaz de produzir vídeos com tamanho de resolução 640 × 480 com 30fps (frame rate – frames por segundo), que permite que o participante seja gravado durante o experimento. Acoplados à tela, há: 1 – três iluminadores de luz vermelha que, uma vez refletida nas córneas, permite identificar suas coordenadas espaciais e ainda fornecer precisão sobre a localização dos rápidos movimentos sacádicos e das fixações oculares durante o rastreamento; 2 – um sensor ambiente localizado na parte inferior da tela, entre os iluminadores de luz vermelha, que rastreiam o olhar do indivíduo participante da pesquisa. A taxa de amostragem é de 300Hz, o que significa que os movimentos oculares, tais como sacadas e curtas fixações, serão todos gravados e registrados em milissegundos. O software 3.2.2 do rastreador ocular da marca Tobii Studio, com base na fixação do olhar, permite-nos investigar o caminho do olhar e todo o esforço cognitivo a partir da quantidade e duração das fixações no momento em que os participantes estiverem assistindo aos vídeos. Também transforma as imagens coletadas em dados quantitativos em formato de tabelas, gráficos e mapas visuais que apresentam a sequência do caminho do olhar, conforme explicaremos a seguir.
18 Para mais esclarecimentos sobre o que a marca Tobii TX300 pode oferecer, consultar o seguinte endereço:
<http://www.tobii.com/Global/Analysis/Downloads/Product_Descriptions/Tobii_TX300_EyeTracker_Product_ Description.pdf>. Acesso em: 13 maio 2015.
b) Elaboração das tarefas no software
Com o software do fabricante Tobii, utilizamos alguns procedimentos antes e depois das gravações, conforme discorremos. O primeiro passo foi a formação do experimento no software. Assim, construímos a coleta por tarefas (tarefa 1, 2, 3 e 4) no próprio software do Tobii, seguindo a ordem do quadro latino exposto anteriormente no quadro 30. As tarefas foram inseridas na janela principal do software – Design and Record, conforme a figura 7, e em cada tarefa tínhamos que inserir na linha horizontal: 1. A mensagem de boas-vindas na ferramenta instruction; 2. O vídeo na ferramenta movie.
Figura 7 – Apresentação do projeto para gravação do olhar dos participantes
Fonte: Captura de tela do Tobii Studio versão 3.2.2. Elaborado pela autora.
Cada tarefa apresentava os 4 vídeos com suas respectivas manipulações. Cada participante tinha uma tarefa específica. Ao clicar uma vez na ferramenta Design and Record temos todas as listas de tarefas com todas as condições (figura 7). Para exemplificar como foram organizadas as listas de tarefas com os participantes ouvintes (O) e surdos (S), apresentamos o quadro 31, a seguir.
Quadro 31 – Tarefas realizadas pelos participantes
Tarefa Estímulos Participantes
1
Vídeo 1 – LBS O1, S1, O5, S5.
Vídeo 2 – RMS Vídeo 3 – RBS Vídeo 4 – LMS 2
Vídeo 1 – LMS O2, S2, O6, S6.
Vídeo 2 – LBS Vídeo 3 – RMS Vídeo 4 – RBS 3
Vídeo 1 – RBS O3, S3, O7, S7.
Vídeo 2 – LMS Vídeo 3 – LBS Vídeo 4 – RMS 4
Vídeo 1 – RMS O4, S4, O8, S8.
Vídeo 2 – RBS Vídeo 3 – LMS Vídeo 4 – LBS Fonte: Elaborado pela autora.
O quadro 31 é delimitado pelo quadrado latino, e ele apenas nos forneceu um controle sobre as tarefas no software, garantindo que todos os participantes passaram por todas as condições em todos os vídeos.
c) Calibragem
Outro procedimento de pré-gravação, exigido pelo software, é a calibragem do olhar. A calibragem é o ajuste entre o olhar do participante e as câmeras do equipamento. Quando estabelecida a distância adequada entre o participante e a tela (aproximadamente 65cm), antes de começar a gravação do olhar, inicia-se a calibragem, em que um círculo vermelho com um ponto preto aparece na tela e o participante deve segui-lo apenas com o olhar. O processo de calibragem assegura ao experimentador maior precisão e qualidade dos dados fornecidos pelas gravações do olhar. Terminado esse processo, o software nos informa a qualidade da calibragem. Concluída a calibragem, demos início às gravações do olhar de cada participante enquanto assistiam aos vídeos. Como, após cada vídeo, os participantes respondiam a questionamentos, decidimos realizar o processo de calibragem antes de eles assistirem a cada vídeo. Isso nos permitia ter mais precisão sobre a qualidade do rastreamento. Além do procedimento de calibragem, o software também nos informava a porcentagem da qualidade da gravação do olhar por participante. Consideramos como uma boa gravação aquelas que apresentavam uma qualidade acima de 77%.
Realizada a gravação do olhar, iniciamos os procedimentos de pós-gravação para análise dos dados quantitativos, como, por exemplo, a criação de áreas de interesse e a escolha do filtro para obtermos o número e a duração das fixações.
d) Áreas de interesse
A área de interesse é outra ferramenta proporcionada pelo software (figura 8). Nela, o pesquisador pode demarcar as áreas em que deseja analisar o comportamento ocular. Com as áreas de interesse demarcadas, fica mais fácil de observar os dados que são exportados pelo próprio software para as planilhas de Excel. Também é possível gerar dados estatísticos automáticos apenas nas áreas demarcadas.
Para criar as áreas de interesse nos vídeos entre legendas e imagens, traçamos as seguintes medidas para todos os vídeos, conforme o exemplo da figura 8.
Figura 8 – Áreas de interesse (legenda e imagem)
Fonte: Captura de tela do Tobii Studio versão 3.2. Elaborado pela autora.
A figura 8 mostra a aba “Area of Interest” (Área de Interesse) do Tobii. Nela aparece uma cena de um dos vídeos com as duas áreas demarcadas pelas cores azul e vermelho, que indicam área da legenda e área da imagem, respectivamente. A delimitação das áreas de todos os vídeos seguiu o mesmo tamanho:
Imagem: largura e comprimento – 996/545mm; Legenda: largura e comprimento – 996/164mm;
Com a delimitação das áreas de interesse, o software gera os dados das fixações do olhar em planilhas de Excel, informando onde ocorreram as fixações dentro dessas áreas, conforme a figura 9.
Figura 9 – Fixações nas áreas de interesse
Fonte: Captura de tela do Excel. Elaborado pela autora.
Na figura 9, temos uma planilha de Excel apresentando uma sequência das fixações (fixationIndex), a duração das fixações (GazeEventDuration) e a área da fixação: legenda ou imagem. Se a fixação ocorre na legenda, aparece o número “1” na área da legenda e “0” na área da imagem.
e) Filtro
Nosso próximo procedimento foi a escolha do filtro para obter o número e a média de duração das fixações nas áreas de interesse. Dentre os filtros oferecidos pelo software, optamos pelo filtro Tobii Fixation Filter. Esse filtro detecta mudanças rápidas no ponto do olhar e elimina ruídos, considerando fixação como sendo aquela compreendida dentro de um diâmetro de 35 pixels. Ou seja, se não houver nenhuma alteração significativa na posição do olhar antes e após 100ms, a fixação será considerada como uma única fixação. No entanto, se os pontos ausentes do olhar forem maiores que 100ms, a fixação é dividida em duas fixações separadas. O software também nos estima a posição espacial de cada fixação individual com base na informação contida no intervalo de tempo.
f) Dados quantitativos gerados pelo Tobii
Para obtenção dos dados quantitativos, o Tobii nos possibilita duas ferramentas: o caminho do olhar pela ferramenta GazePlot e os dados numéricos gerados automaticamente.
1. GazePlot
A ferramenta GazePlot nos possibilitou acompanhar a sequência e a duração das fixações nas áreas de interesse, conforme a figura 10.
Figura 10 – GazePlot – caminho do olhar
Fonte: Captura de tela do Tobii Studio3.2. Elaborado pela autora.
Na figura 10, nas bolinhas azuis, temos a numeração da ordem de ocorrência da fixação no vídeo. Quando colocamos o cursor sobre as bolinhas, o software nos apresenta a duração da fixação em segundos e o tempo exato em que ela ocorreu. Com essa ferramenta e com as planilhas de Excel geradas pelo software, seguimos o percurso do olhar dos participantes verificando a duração de cada fixação nas áreas de interesse.
2. Dados numéricos gerados automaticamente pelo software
O software Tobii Studio também nos possibilitou como dados quantitativos a ferramenta Statistics (estatística). Essa ferramenta oferece informações quantitativas gerais geradas automaticamente, sendo a quantidade e o tipo de dados determinados pelo pesquisador. Com essa ferramenta, trabalhamos apenas com a duração média das fixações (fixation duration) nas duas áreas de interesses (legenda e imagem) e comparamos com a análise manual via caminho do olhar (GazePlot).
Para gerar os dados numéricos quantitativos, basta clicar na aba Statistics e selecionar a medida de controle desejada, no nosso caso, fixation duration (duração da fixação), e o programa oferece as tabelas com o número de fixação, a duração média em segundos das fixações e a soma em segundos da duração das fixações nas duas áreas de interesses por participante – vide figura 11.
Figura 11 – Exemplo de tabelas geradas pela aba Statistics
Fonte: Captura de tela do Tobii Studio 3.2. Elaborado pela autora.
A figura 11 mostra um exemplo de tabelas estatísticas geradas pelo software. Do lado esquerdo, temos os participantes e as áreas de interesses, e do lado direito, as tabelas. Cada tabela apresenta os dados das duas áreas de interesse: imagem e legenda. Em cada área de interesse constam: o N, que significa o número de fixações na área de interesse; Mean, que significa a média da duração das fixações em segundos, e Sum, que significa a soma do tempo, em segundos, de todas as fixações na área de interesse.
Os dados gerados automaticamente não são suficientes para aprofundar a análise da influência dos problemas de segmentação na recepção de legendas. Uma vez que eles apenas apresentam a média geral da duração das fixações do comportamento ocular nos vídeos como um todo e não nos possibilitaram visualizar o que ocorreu em legenda por legenda.
g) Instrumentos de caráter qualitativo
Os próximos instrumentos são de caráter qualitativo e são compostos por relatos livres, questionários técnicos e relatos pós-coleta.
No relato livre, cada participante falava livremente sobre o conteúdo dos vídeos. Esse primeiro relato teve o objetivo de analisar a compreensão global dos vídeos e os detalhes que os participantes puderam obter da imagem e da legenda. No questionário técnico, as questões versavam sobre as impressões dos participantes em relação às legendas. O quadro 32 apresenta perguntas sobre o esforço gasto, a velocidade, a compreensão do conteúdo e comentários gerais sobre as legendas.
Quadro 32 – Questionário técnico
QUESTIONÁRIO TÉCNICO Participante:
1. Você teve tempo suficiente de ler as legendas e assistir ao vídeo sem muito esforço? Em caso de negação, explique o porquê.
2. Você achou que as legendas estavam ( ) muito rápidas ( ) rápidas ( ) normais ( ) lentas. Gostaria de fazer alguma observação complementar sobre isso?
3. Você teve dificuldade de compreender o conteúdo das legendas? Em caso afirmativo, diga o porquê. 4. Você gostaria de fazer algum comentário sobre as legendas?
Fonte: Elaborado pela autora
No relato pós-coleta, os participantes assistiam a todo o percurso do próprio olhar em cada vídeo, por meio da tela Replay do software, assim que concluía o experimento. Pedíamos a cada participante, individualmente, que nos relatasse livremente o que conseguia recordar enquanto assistia aos vídeos. Alguns nos relatavam sobre dificuldades, perturbações e/ou confortos que sentiram ao longo dos vídeos. Os dois primeiros instrumentos, relatos livre e questionário técnico, foram aplicados logo após cada vídeo. Somente o relato pós-coleta ocorreu depois que os participantes assistiram a todos os vídeos. Todos os relatos foram filmados.
A seguir, discorremos sobre todos os procedimentos para as gravações do comportamento dos dados dos participantes.