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Instrumentos e Procedimentos para a Coleta de Dados

4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS: A ELABORAÇÃO DO CORPUS

4.5 Instrumentos e Procedimentos para a Coleta de Dados

A coleta de dados junto aos sujeitos foi orientada por três instrumentos, que, apesar de serem distintos, se completam nas suas funções de busca de informações, permitindo níveis diferentes de eficácia na de coleta de dados. Como indicam Poulain e

Proença (2003), as pesquisas podem associar vários métodos de coleta, de acordo com os objetivos a serem alcançados. Assim, utilizamos no estudo a entrevista semi- estuturada, o grupo focal e a observação, sobre o que nos reportaremos a seguir, separadamente.

A utilização desses instrumentos possibilitou a técnica de triangulação dos indicadores, que representa na pesquisa um recurso de rigor metodológico, pois permite analisar o objeto de estudo usando mais de uma visão. Corroborando este fato, Leopardi (2002) refere-se à triangulação como algo em que o investigador, ao utilizar três fontes ou técnicas diferentes de coleta de dados, obtém diferentes formas de acesso aos indicativos e, desta forma, garante confiabilidade à coleta e precisão nos julgamentos, por produzirem dados comparáveis. Esta técnica possibilitou não somente examinar o nosso objeto em várias perspectivas como principalmente ampliar nossa perspectiva sobre o fenômeno.

O primeiro instrumento utilizado consistiu de uma entrevista semi-estruturada direcionada aos usuários e outra aos profissionais (apêndice A e B), ressaltando que, neste caso, o entrevistador segue um roteiro preestabelecido (LAKATOS; MARCONI, 1991) e o referido modelo de entrevista é apropriado para uma pesquisa qualitativa, visto que esta, conforme indica Triviños (1987), oferece liberdade para que o informante seja espontâneo nas suas respostas.

A técnica de entrevista semi-estruturada consiste em “fazer falar” as pessoas quando interrogadas sobre determinado tema, podendo ser reformulado no decorrer do tempo para redirecionar a discussão, sem deter-se estritamente ao assunto de partida (POULAIN; PROENÇA, 2003).

A escolha desta modalidade se justificou no estudo na medida em que a pesquisa se propôs identificar fatores explícitos e implícitos no discurso dos sujeitos pesquisados, o que, eventualmente, solicitou da nossa parte maior flexibilidade na abordagem direcionada aos informantes pesquisados. A entrevista semi-estruturada permite ao investigador formular novas perguntas, além daquelas previamente elaboradas, de acordo com o discurso dos sujeitos e, desta forma, estes também participam da estruturação da pesquisa (TRIVIÑOS, 1987).

As entrevistas abordaram aspectos relacionados à participação do usuário no PSF e foram gravadas mediante autorização dos informantes do estudo, e, quando não autorizado pelos participantes, os dados foram, por nós, registrados manualmente e em seguida lido para o entrevistado, para que confirmasse seus posicionamentos. Somente um usuário se recusou ao procedimento, sendo feito todo o registro de sua fala no diário de campo. As entrevistas, tanto com os usuários como com os profissionais, aconteceram na própria unidade básica de saúde, com duração de 30 a 50 minutos.

Para enriquecer as falas dos entrevistados e em busca de mais informações referentes ao objeto de investigação, utilizamos o grupo focal, que contribuiu com a coleta de dados, no sentido de que este tipo de instrumento propicia o relato de experiências e percepções em torno de um tema, obtendo informações qualitativas em profundidade. O sucesso no uso da técnica está no fato de que exista um foco, um tópico a ser explorado, que pode ser um tema, específico, um grupo, ou ambos (VICTORA; KNAUTH; HASSEN, 2000). No caso deste estudo, o foco foi participação do usuário no contexto do Programa Saúde da Família.

Para a realização do grupo focal, ficamos atenta a todos os passos sistematizados na literatura referida pelos autores anteriormente comentados, tais como: homogeneidade do grupo (foram operacionalizados grupos distintos com profissionais e usuários), limite no número de participantes (nenhum grupo ultrapassou dez participantes), e, seguindo um roteiro, para direcionar a discussão (apêndice C). Quanto ao número de participantes, Debus (1997) refere que o ideal é de seis a quinze pessoas por grupo. Realizamos um grupo com os profissionais e outro com os usuários de cada equipe investigada. No que se refere à composição do grupo, esta pode ocorrer desde um grupo preexistente ou organizar-se para o objetivo da investigação (BECK; GONZALES; LEOPARDI, 2002). O grupo dos usuários foi formado a partir dos informantes entrevistados.

Por fim, lançamos mão da observação provida de um check-list (apêndice D) com o intuito de sistematizar e direcionar o processo. No que se refere à observação como instrumento de investigação, concordamos com Trentini e Paim (1999), quando assinalam que esta deve ser consciente, objetiva, formalizada e exteriorizada, de maneira que seja exposta à compreensão de outras pessoas. No nosso estudo,

utilizamos a observação aberta, neste caso, o grupo investigado tem conhecimento do papel do pesquisador (POULAIN; PROENÇA, 2003), ou seja, os informantes do estudo estiveram cientes do nosso papel de pesquisadora durante o momento observado.

A ocasião escolhida no estudo para realizar a observação foi uma sessão educativa, primeiro, pela importância da participação na aprendizagem, como já descrito no decorrer do trabalho, e, segundo, por ensejar uma visão tanto dos usuários quanto dos profissionais, objetivando obter, dos informantes estudados, comportamentos, atitudes e enfrentamentos que expressem a participação. As sessões educativas observadas foram aquelas planejadas e desenvolvidas pelos profissionais das equipes, com tópicos e estratégias por eles escolhidos. Assim, foram palestras, grupos e sala de espera e o número de observações foi de duas a três por ESF.

Antes da fase de coleta de dados, realizamos o teste dos instrumentos Apêndices A e B, com seis informantes de um PSF de outro município (três usuários e três profissionais), buscando refinar e validar os instrumentos, no sentido de atender a investigação. A realização do teste-piloto possibilitou validar os instrumentos de coleta de dados, confrontando com os objetivos do estudo. Os dados coletados no teste possibilitaram, ainda, testar a estrutura teórica e o modelo de análise adotado no estudo.

As respostas obtidas das entrevistas e grupo focal nos momentos vivenciados junto aos participantes do estudo foram transcritas imediatamente após a gravação, para que não se perdessem informações importantes à compreensão do fenômeno estudado. Em seguida, procedemos à leitura do material e o agrupamos em categorias, as quais foram analisadas à luz da literatura e do referencial teórico, indicado neste estudo. Em relação aos dados da observação, utilizamos as informações provenientes do check-list, mais as nossas observações registradas no diário de campo.