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Instrumentos

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4.2. PESQUISA QUALITATIVA: OS GRUPOS FOCAIS

4.2.2. Instrumentos

O instrumento utilizado para a coleta de dados primários foi a entrevista com

os grupos pesquisados, em duas sessões (uma na Igreja Batista e outra na Igreja Metodista),

que foram divididas em três blocos de perguntas. No primeiro, foi entregue um questionário

impresso, para ser respondido por escrito. O objetivo deste questionário foi propiciar a

identificação dos integrantes do grupo, com dados como nome, idade, sexo, estado civil,

ocupação profissional, bairro onde reside, escolaridade, renda familiar e tempo de filiação

àquela igreja evangélica.

Esses dados permitem traçar um perfil do grupo e situá-lo no contexto da

cidade de Cataguases, bem como compará-lo às audiências presumidas dos dois telejornais

Para perceber o que os participantes procuram na televisão, foi feita uma

primeira rodada de perguntas, nas quais eles responderam às questões propostas sobre seus

hábitos televisivos. Cabe ressaltar que as perguntas adotadas na aplicação dos grupos focais

são de dois tipos: desestruturado e estruturado. As do tipo desestruturado “permitem aos

entrevistados se referir a qualquer aspecto dos estímulos apresentados e (...) observar a

congruência e consistência das respostas” (COSTA, 2009, p. 184-185). Por exemplo: Você

acha que sua opção religiosa interfere em sua forma de assistir à televisão? As do tipo estruturado preveem informação sobre aspectos ou dimensões do objeto de estímulo, no qual

quem responde deve estar focado, por exemplo: Para que você assiste televisão (mais por

entretenimento, mais por informação)? A questão estruturada pode ainda chamar a atenção para um tipo particular de resposta, como, por exemplo: Sua igreja possui alguma restrição

ou orientação quanto ao consumo televisivo?

Procurou-se, com isso, mapear a forma como a televisão está inserida no

cotidiano desses evangélicos protestantes numa cidade mineira interiorana. Além do tempo

médio diário, indagou-se também pela disposição da televisão no cenário da casa, pelo uso ou

não de canais por assinatura, se a família assiste junta aos programas, quais os canais e

programas mais assistidos; se a opção religiosa interfere na forma como os programas

televisivos são escolhidos em sua casa (a partir do telespectador, em si mesmo), se a igreja

possui alguma restrição quanto ao consumo televisivo de seus membros (alguma proibição ou

restrição institucional, oficial); qual a principal forma de obter informações sobre os

acontecimentos; quais os telejornais mais assistidos em sua casa e as razões da preferência por

este ou aquele telejornal. A maioria dos integrantes dos grupos focais não possui televisão por

assinatura, portanto, assistem, na maior parte do tempo, a programas produzidos ou

As informações levantadas nas respostas possibilitaram, no desdobramento da

análise, estabelecer as preferências e o perfil de cada grupo focal em relação às pesquisas de

audiência e recepção no Brasil. Na análise, é possível também perceber certos movimentos de

“conformidade dentro do grupo, em que o participante procura dar a resposta socialmente

aceitável ou aquela que pensa que é correta, como se houvesse uma avaliação envolvida”

(COSTA, 2009, P. 186). Ao mesmo tempo, pode-se verificar tanto as formas pelas quais este

telespectador evangélico insere-se na generalidade dos telespectadores brasileiros, em termos

de perfis, quanto as particularidades pelas quais “os adeptos interpretam a realidade dentro da

perspectiva da pertença religiosa em suas vidas, os conhecimentos e vivências regidos por

essa pertença em seu cotidiano” (PIGNATARI, 2009, p. 212).

Neste caso, como a televisão já foi, no passado, objeto de grande rejeição no

segmento religioso evangélico, admitir que assiste muito a ela pode gerar na pessoa que

responde a pergunta a sensação de que não está fazendo algo aceito pelo grupo. Por exemplo:

segundo a Folha Online, de 31/03/2010, o Ministério de Saúde brasileiro informou que o

brasileiro passa, em média, três horas por dia diante da televisão, sendo um percentual de

44,8% das mulheres e 40,9% dos homens. Mas, na pergunta acerca de quanto tempo de tevê

assiste por dia, a participante B1, de 29 anos, respondeu: “Estou bem na fita, apenas 30 ou 40

minutos por dia”. Já M1, de 38 anos, declarou: “Em média, 20 a 30 minutos por dia”, embora,

no desenrolar da sessão, tenha alterado sua resposta acerca deste tempo.

Por fim, na última etapa das perguntas, procurou-se indagar, especificamente

no Jornal Nacional e no Jornal da Record, pela representação do evangélico no olhar do grupo

focal sobre duas matérias, uma de cada telejornal, exibidas em sequência. Isto porque,

segundo Costa, “é necessário expor os participantes à peça de comunicação alvo da análise

para assegurar homogeneidade de impacto” (COSTA, 2009, p. 182). No grupo metodista,

matérias que cobriram a Marcha para Jesus de 2009. Esta foi a parte mais envolvente para

ambos os grupos. As participações foram mais intensas, tanto na forma como expuseram as

respostas como também nos aspectos de gestos, expressões faciais e impostação de voz.

A opção em exibir matérias diferentes para os dois grupos objetivou

proporcionar uma análise entre matérias cujo foco tivesse sido um evento marcante para o

grupo específico (A Marcha para Jesus, um evento próprio) e uma data comemorativa geral

dos cristãos (no caso, a Páscoa). Não era interesse comparar impactos entre os grupos,

percebendo distinções, particularidades ou aproximações entre batistas e metodistas, por

exemplo, mas a percepção geral dos grupos sobre sua representação nos telejornais estudados.

Ao fazer isso, não se trata apenas de exibir um trecho de um telejornal ou outro

e ouvir os participantes quanto ao que acabaram de ver. Para além disso, interessa a percepção

de como os participantes, sendo integrantes de grupos sociais específicos, vivenciam aquelas

representações no seu cotidiano e delas fazem uso no seu fazer e agir. Isto é, entender seu

modo de assistir televisão, no contexto mais amplo de suas relações e vivências, como

atividade cotidiana de construção coletiva dos significados e sentidos sociais que regem as

relações entre sujeitos.

As perguntas desta etapa da pesquisa se concentraram nas percepções dos

grupos acerca das falas, abordagens das emissoras e as impressões que os grupos têm acerca

delas, no sentido das opções religiosas a que parecem estar vinculadas e se a forma como

apresentam os evangélicos se identifica ou não com o jeito particular da denominação

evangélica a que eles pertencem (metodistas e batistas).

Foi interessante observar, no primeiro momento, que a exibição lado a lado das

matérias instigou o espírito crítico dos participantes. Eles detectaram distinções discursivas

importantes nos dois telejornais, que os fizeram tomar partido, naquele momento, em favor ou

falas de momentos anteriores, especialmente acerca do conceito de “verdade” da notícia.

Essas observações preliminares aparecem de modo aprofundado na análise dos discursos,

tanto dos grupos focais quanto das matérias, mas foi altamente estimulante percebê-las

durante a realização dos grupos focais.

Alguns integrantes ressaltaram que a experiência os ajudou a perceber a

necessidade de comparar os conteúdos recebidos, assistindo a mais telejornais do que apenas

os seus preferidos. Também afirmaram que é preciso um melhor posicionamento do próprio

evangélico, de como ele gostaria de ver-se representado, especialmente os evangélicos

considerados históricos (metodistas, batistas, presbiterianos, luteranos, anglicanos, etc.).

Segundo alguns participantes de ambos os grupos, essas denominações precisam “aparecer

mais” para serem vistas nos meios de comunicação. De modo geral, os participantes se

sentiram extremamente valorizados e interessados em saber dos resultados quando ao final da

pesquisa.

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