Tendo em vista a grande quantidade de trabalhos relevantes na área, que
trazem exaustivamente os aspectos históricos do telejornalismo brasileiro, não se faz
necessário um aprofundamento da trajetória dos telejornais em face desta pesquisa. Contudo,
algumas reflexões são pertinentes para compreender a relação entre a produção noticiosa
sobre o evangélico e a construção/narração de sua identidade ou identidades nestes telejornais.
No contexto desta dissertação, será preciso levar em conta os entrelaçamentos
sociais presentes na história da Rede Globo. É sabido que as relações entre a Igreja Católica e
a ditadura militar no Brasil eram estreitas.
No decorrer do séc. XX, a Igreja Católica demonstrara uma habilidade excepcional para desenvolver laços sólidos com o Estado e trabalhara regularmente com autoridades públicas para seu mútuo benefício político e pelo bem comum. A cooperação entre a Igreja e o Estado torna-se um emblema do Brasil moderno. (SERBIN, 2001, p. 21)
A Rede Globo, por meio de Roberto Marinho, iniciou suas atividades de modo
bastante afinado com os interesses governamentais. Por consequência, alinhada
ideologicamente à Igreja Católica, especialmente aos seus setores mais conservadores. A
amizade entre Roberto Marinho e D. Jaime de Barros Câmara, Arcebispo do Rio de Janeiro
(de postura conservadora e anticomunista, aliado aos militares) é fato conhecido, mas, nos
limites desta dissertação, foi impossível avaliar a extensão da proximidade institucional entre
a emissora e a Igreja Católica, pela não obtenção de bibliografias que tratassem diretamente
do tópico em pauta. De qualquer modo, o vínculo é perceptível, até mesmo porque o único
programa de cunho explicitamente religioso até hoje na grade da emissora é a missa católica
(que vai ao ar aos sábados e domingos pela manhã). O programa é descrito no site da Rede
Mais antigo programa da TV Globo, a Santa Missa foi transmitida pela primeira vez em 4 de fevereiro de 1968, com missa solene celebrada pelo arcebispo do Rio de Janeiro, na época o Cardeal D. Jaime de Barros Câmara. A missa foi assistida por autoridades civis e militares e concelebrada por vários bispos12.
Há, ainda, uma série, chamada Sagrado, que vai ao ar todos os dias às 6:05 da
manhã, mas propõe-se a ser um espaço para a discussão de temas da contemporaneidade, sob
o prisma de diversas religiões, com participação de representantes de cada segmento e atores
do cast da emissora afinados com a proposta de cada religião. Desta forma, a Rede Globo
tenta assegurar a diversidade religiosa, como a emissora afirma no seu site, mas isso se dá
muito mais pelo aspecto educativo e elucidativo. Como espaço de ministração religiosa
aberta, portanto, permanece somente a missa católica. Este dado é relevante no contexto desta
pesquisa, como se poderá perceber no seu desenvolvimento.
No ar desde 1º de setembro de 1969, o Jornal Nacional se consolidou na
televisão brasileira como o padrão nacional de telejornalismo. Atualmente, apresentado pelo
casal William Bonner e Fátima Bernardes, o jornal representa “a família brasileira”, por cerca
de meia hora diária. A presença do casal em cena foi uma mudança estratégica da Rede
Globo:
Ao buscar um descolamento do regime militar – intimamente associado ao JN e ao locutor Cid Moreira, carismático apresentador que atuou de 1969 a 1995 –, a Globo testou novos formatos, e em 1998 concede o cargo de editor-chefe e apresentador a William Bonner, ao mesmo tempo em que a mulher dele, Fátima Bernardes, assume o cargo de apresentadora e editora. (HAGEN, 2007, p. 2)
Seu formato e estética são recopiados vezes sem fim por outras emissoras. Para
compreender o peso da influência do telejornal sobre as concorrentes, basta comparar os
logotipos, legendas, cenários, etc., dos programas do gênero. A competição entre o Jornal
Nacional e o Jornal da Record é direta, neste aspecto. Um casal de apresentadores e padrão
gráfico bastante similar são utilizados, conforme se pode observar nas imagens abaixo:
Por sua vez, a Rede Record, fundada em 1953 por Paulo Machado de Carvalho,
foi comprada primeiramente pelo Grupo Sílvio Santos e depois, no final da década de 1980,
adquirida pelo bispo Edir Macedo. O processo de controle acionário da emissora é bastante
controvertido e alvo de divergências políticas e jurídicas. Atualmente, a Record é a segunda
na disputa pela audiência.
Tem sido adotada uma estratégia de apagamento da própria Igreja Universal do
Reino de Deus nos discursos da emissora. Em inúmeras entrevistas, pessoas ligadas aos
processos de produção da Record afirmam o caráter comercial da emissora, seu interesse em
falar de modo geral a todo telespectador. Contudo, a temática religiosa está subjacente a uma
CAPÍTULO TRÊS: O TELEJORNALISMO BRASILEIRO E A REPRESENTAÇÃO EVANGÉLICA
A identidade torna-se uma celebração móvel, formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam. (Stuart Hall)
O jornalismo pode ser entendido, dentre as diversas conceituações possíveis,
como informação de interesse público materializada em um discurso. Neste trabalho, o
discurso é entendido na acepção de uma regularidade de sentido, constituída na história, com
função mediadora. “O caráter de mediação, pressuposto nos discursos, refere-se ao seu aspecto de construção do mundo, apontando para a indissociabilidade entre campo discursivo
e campo social (SOARES, 2008, p. 14). Por esta compreensão, pode-se ainda depreender o
jornalismo como um lugar de circulação e produção de sentidos.
A Análise de Discurso Francesa será utilizada neste capítulo como uma
metodologia para a pesquisa dos textos telejornalísticos que constituem o corpus empírico
desta dissertação, sendo Foucault a principal referência teórica. Diversamente de outros
autores, que utilizam um conjunto de categorias prévias de análise, será adotada uma
perspectiva foucaultiana de análise, entendida como “arqueologia do discurso”.
O discurso aparece no pensamento de Foucault como objeto de estudo, porque sua preocupação é conhecer o que torna este ou aquele discurso possível, ou seja, porque determinados discursos são aceitos como verdadeiros e não outros em seu lugar. Sua preocupação não é com o discurso, enquanto expressão de uma ideia ou de uma linguagem, mas enquanto suas condições de possibilidade, o que o autor denomina como as condições da “formação discursiva”. (VANDRESEN, 2008, p. 3)
A pesquisa buscará evidenciar as camadas discursiva e pré-discursiva (saberes
anteriores, algo externo e anterior à produção do discurso telejornalístico e que o determina).
Ao falar em texto, considerando o formato televisão, aborda-se não apenas a
fala dos jornalistas e demais sujeitos falantes, como também os aspectos relacionados com
cenário, entonação de vozes, enquadramentos, marcadores de edição e demais elementos que
compõem o “texto audiovisual” do qual é feito o conjunto das matérias pesquisadas.
Ainda que não necessariamente sejam analisadas, há que se ter no horizonte as
condições de produção ou existência da notícia: a realidade ou os aspectos manifestos dos
acontecimentos; os fatores que constrangem os jornalistas no sistema organizacional, as narrativas
que orientam a escrita jornalística, as rotinas de trabalho, os valores-notícia dos jornalistas, as
identidades e interesses das fontes de informações (BENETTI, 2007, p. 110-111)