A própria exposição de determinados grupos sociais na mídia, televisiva em
particular, tem mudado a maneira como estes são vistos pela sociedade brasileira, conforme
seus valores são mais ou menos evidenciados. Sua linguagem, adequação ao mercado e
demais aspectos são bem ou mal trabalhados por cada segmento social que tem garantido um
espaço midiático, televisivo.
Assim, ao estudar a relação entre televisão e identidades, é imprescindível
levar em conta o processo de interação com o receptor, não como um mero recipiente no qual
novos conteúdos são introduzidos, senão como aquele ser capaz de dar sentido ao que assiste,
recebendo e reinterpretando situações. Suas reações podem incluir a aceitação, mas também a
indiferença, a resistência, a negação e a contestação daquilo que está proposto pela mídia
televisiva. Isto significa, de alguma forma, indagar: De que formas os sentidos são produzidos
a partir do que é visto, ouvido e sentido, a partir dos valores simbólicos transmitidos e do
cenário, que também mediam a relação entre a televisão e os grupos sociais?
Além disso, como já dito, mudanças na sociedade incidem na “televisão que se
pode fazer, na programação, no perfil das diferentes emissoras” (FRANÇA, 2009, p.31). Ao
realizar um estudo sobre a recepção do Jornal Nacional, Carlos Eduardo Lins da Silva (1985)
aponta esta perspectiva ao afirmar que as contradições no interior dos meios de comunicação
“mudam de acordo com as mudanças que acontecem na sociedade e, por sua vez, influenciam
Cabe ressalvar que a preocupação em estudar a audiência ainda é recente nos
estudos acadêmicos e carece, segundo Alfredo Vizeu Pereira Júnior5 (2006, p.31), de melhor
conceituação do termo, pois
o âmbito e a origem das pesquisas de audiência são ainda bastante restritos, seja porque o meio acadêmico só agora começa a se interessar por pesquisas de recepção, seja porque o próprio meio profissional não considera necessário investir –e muito menos para revelar – muitas verdades sobre quem lê, ouve e assiste (PEREIRA JÚNIOR, 2006, p. 31).
Nesta dissertação, há duas concepções acerca da audiência que foram tomadas
como referenciais de análise, como será visto, sinteticamente, a seguir. Elas serão retomadas
na análise dos telejornais e dos grupos focais, nos respectivos capítulos.
1.3.1. Audiência presumida
Segundo Pereira Júnior, tem-se trabalhado, na prática jornalística, a perspectiva
que ele chama de audiência presumida, ou seja, “os jornalistas imaginam a audiência a partir
deles mesmos, eles se julgam representativos da audiência” (Pereira Júnior, 2006, p.30). Isso
acontece porque
quando o jornalista tem que pensar no tipo de notícias para o público, serve-se mais de sua opinião acerca das notícias do que de dados específicos sobre a composição, o gosto e os desejos daqueles com quem está se comunicando (PEREIRA JÚNIOR, 2006, p.29).
Entretanto, perceber a audiência desta forma, ainda que com dados estatísticos
comprovados, pode não ser suficiente para compreender a forma como os discursos sociais
são construídos, mediados pelos meios de comunicação e circulados em sociedade. Vizeu e
Correia afirmam que, “no âmbito do discurso, não podemos falar em passividade da
5 Alfredo Eurico Vizeu Pereira Júnior é um autor brasileiro bastante proeminente nos estudos de comunicação.
Na bibliografia desta dissertação, porém, há livros deste autor em que ele assina o nome por completo e, em outro, como Alfredo Vizeu. Foi seguida a norma da UFJF em citar o autor conforme aparece na folha de rosto do livro. Por isso, os/as leitores/as devem estar cientes de que Pereira Júnior e Vizeu tratam-se do mesmo autor, em obras diferentes.
audiência, pois ela é acionada a efetuar percursos no interior deste campo, fazendo elos
associativos com base no investimento de seus próprios saberes” (VIZEU e CORREIA, 2008,
p. 24). Na análise dos dados levantados pelos grupos focais, foram colocadas, lado a lado,
algumas percepções acerca do que se presume e do que, ao menos, esta audiência em
específico permitiu detectar (Capítulo Quatro).
Também vale sempre lembrar que
a audiência não é audiência só quando interatua com a TV. A audiência são muitas coisas ao mesmo tempo e participa de diversas instituições sociais, de forma que a identificação dos sujeitos receptores não apaga as outras identidades (SIGNATES, 2006, p.66).
Por exemplo, ao lado da recepção da notícia está um mundo de significados,
discursos e sentidos que atravessam o telespectador, tais como a influência dos líderes de
opinião (pessoas dentro do próprio grupo social que influenciam as demais quanto a consumo,
votos, atitudes e modos de comportamento, moda). Além disso, a coesão do próprio grupo e
sua dependência mútua podem moldar, em diversos momentos, as atitudes e valores dos seus
membros.
1.3.2. Modo de endereçamento
Itânia Gomes, ao estudar a forma pela qual os telejornais se posicionam, não
apenas em relação ao acontecimento, mas também em relação ao telespectador, propondo um
estilo de apresentação, de construção mesma do produto midiático, parte do conceito de
“modo de endereçamento”. Segundo ela,
Modo de endereçamento é aquilo que é característico das formas e práticas comunicativas específicas de um programa, diz respeito ao modo como um programa específico tenta estabelecer uma forma particular de relação com sua audiência (cf. Morley & Brunsdon, 1978). A análise do modo de endereçamento deve nos possibilitar entender quais são os formatos e as práticas de recepção solicitadas e construídas pelos telejornais. (GOMES, I., 2005, p.2)
O conceito de modo de endereçamento, segundo a autora, vem das análises
fílmicas. Seria associada ao conceito uma questão de investigação: “Quem este filme pensa
que você é?”. “Na perspectiva da análise televisiva, o conceito tem sido apropriado para
ajudar a pensar como um determinado programa se relaciona com sua audiência a partir da
construção de um estilo, que o identifica e que o diferencia dos demais” (GOMES, I., 2005, p.
2-3). Essa abordagem vem sendo usada nos estudos de recepção que procuram analisar
comparativamente “os discursos dos produtos televisivos e os discursos de seus receptores” e
compreender “a relação de interdependência entre emissores e receptores na construção do
sentido do texto televisivo” (GOMES, I., 2005, p. 2-3).