Em termos pragmáticos, defende-se, aqui, que a integração de determinados tipos de fundo à figura obedece a uma intencionalidade deliberada, isto é, é motivada pela necessidade de veicular informações de forma direta e objetiva face às limitações de espaço físico próprias da revista e face ao leitor. Aqui, essa disposição será considerada em termos de “integração
espacial”, ou seja, de proximidade da porção em fundo da porção em figura. Assim,
busca-se descrever, nesta seção, como os fundos encontrados nos artigos de opinião analisados se distribuem, em termos de integração espacial, na superfície textual.
Considerando a escala de integração semântica proposta anteriormente, constatou-se que, embora o fundo de justificativa seja um suporte imediato à figura/argumento, estando mais próximo dela em termos de integração semântica, ele não necessariamente ocorre espacialmente junto a ela. Do mesmo modo, não é exclusividade do fundo de justificativa a ocorrência próxima à figura. Na verdade, sua presença no texto é solicitada sempre que o autor considera necessário fazer uma remissão à tese defendida, atendendo, dessa forma, a seus interesses. Em outras palavras, significa dizer que o uso dos tipos de fundo serve à necessidade momentânea do texto, seja esta justificar, descrever, exemplificar, modalizar etc.
O Quadro 9 descreve, em termos numéricos, a integração entre os planos. Assim se lê: na primeira coluna, listam-se os níveis de integração semântica propostos; na segunda, os tipos de fundo que correspondem a cada um desses níveis; na terceira, tem-se o total de ocorrências do referido fundo verificado nos textos; e, por fim, na quarta, explicita-se a quantidade de ocorrência de cada fundo próximo às figuras.
Quadro 8 – Integração espacial dos tipos de fundo às figuras
Nível de
Integração Tipo de Fundo
Total de ocorrências verificado nos textos
Quantidade de ocorrências integradas às figuras
I Fundo de Exemplificação Fundo de Justificativa 90 61 46 27 II Fundo de Contextualização Fundo de Reiteração 22 48 23 8
III Fundo de Modalização 51 21
IV Fundo de Digressão 25 7
Fonte: autoria própria.
Os dados apresentados no Quadro 9, que se referem à disposição espacial dos fundos nos textos, revelam uma disposição icônica que obedece ao subprincípio da integração, ou seja, aquilo que está mais integrado no plano conceitual também está mais integrado no plano sintático. Nos textos analisados, esse subprincípio se manifesta de modo que quanto mais
integrados semanticamente, mais próximos espacialmente da figura os fundos serão colocados.
Conforme mostram os quantitativos do Quadro 9, os tipos de fundo semanticamente mais integrados à figura (justificativa e exemplificação, por exemplo) ocorreram, com maior frequência, mais próximos espacialmente a ela.
No plano pragmático, a relação figura/fundo se dá a partir da compreensão de que figura é o que se quer dizer e fundo é o que se entende que precisa ser dito (FURTADO DA CUNHA; COSTA; CEZÁRIO, 2015), isto é, a interlocução efetiva leva em conta os objetos comunicativos e a percepção das necessidades do interlocutor. Esses fatores se refletem na elaboração do texto editado através do acionamento das propriedades topicidade e planos, monitoradas, aparentemente, pelo princípio geral da iconicidade18.
Considerando, ainda, que todos os tipos de fundo podem ser colocados junto às figuras, percebe-se sua carga argumentativa nos textos. Esse comportamento reitera a noção de integração semântica entre todas as porções do texto, de modo que se torna inviável a retirada de qualquer uma de suas partes. Novamente, o que se percebe é uma aparente escolha deliberada por determinado tipo de fundo se consideradas as intenções do escritor. Nos excertos seguintes, verifica-se que os diferentes tipos de fundo podem estar espacialmente ligados à figura.
Em (56), abaixo, ilustra-se um trecho do texto 4, A reforma tributária essencial (Quadro 13, p. 87). Nele, defende-se que há uma proposta de modernização do sistema tributário disponível para ser implantada no Brasil.
(56) Não é tarefa fácil mudar um sistema tributário, mas o Brasil dispõe de proposta
para modernizar o seu e aumentar a produtividade. É a melhor entre as que já li e
analisei. (Texto 4)
Em (56), a porção em itálico corresponde a um fundo de modalização, enquanto a porção em negrito corresponde à figura principal (tese). É possível ver, nesse excerto, que o trecho em itálico carrega uma opinião a respeito do argumento inserido no texto. Sua disposição espacial indica que esse fundo atua como um desdobramento da opinião anteriormente expressa.
Em (57), trecho retirado do texto 5, Aparências, nada mais (Quadro 14, p. 88), que defende que o lançamento de determinadas pré-candidaturas à presidência do Brasil não tem
18 A relação figura/fundo tem ligação com os subprincípios de iconicidade, preservando uma relação icônica entre a tese defendida e os argumentos e entre estes e os fundos, de modo que, num continuum, o que é + figura é, também, +icônico, pois tende a refletir propriedades da conceptualização humana. Além disso, as noções de a topicidade e planos orientam o falante para aquilo que é central, isto é, o que se quer comunicar.
consistência factual, tem-se a ocorrência de um fundo de contextualização (itálico) antecedendo uma figura terciária (negrito). Nesse caso, nota-se que o fundo é disposto propositalmente junto à figura para situar o leitor a respeito da validade do argumento que vai enunciar. Em outras palavras, utiliza-se esse fundo para esclarecer em que contexto o argumento faz sentido. Conforme Lira (2009), isso acontece porque a aceitabilidade da premissa é condicionada à apresentação de evidências que respaldem sua veracidade.
(57) E, para não dizer que não falamos da flor mais vistosa desse recesso do debate real, vamos a Luiz Inácio da Silva. Comandante de tropa existente apenas no imaginário de
posições voluntaristas, sem os recursos da propaganda indispensáveis à prática das manipulações habituais e na iminência de na melhor hipótese tornar-se inelegível e, na pior, vir a habitar uma penitenciária, o ex-presidente é, no máximo, candidato ao inevitável ocaso. (Texto 5)
O trecho a seguir foi retirado do texto 8, As batalhas da previdência (Quadro 17, p. 91), no qual se defende que a reforma da previdência é necessária, mas fracassou devido à atuação de entidades da velha esquerda junto à opinião pública. A porção negritada corresponde a uma figura secundária, que vem antecedida por uma porção em fundo de justificativa (itálico).
(58) Aqui, sob a influência de mentes tão obtusas como a dos cardeais de Roma do século XVII, foram aceitas barbaridades sobre a reforma da Previdência. Políticos e sindicalistas
da Receita Federal emitiram documentos negando o déficit. O rombo de 269 bilhões de reais, quase seis vezes o investimento público federal em infraestrutura, foi visto como manipulação. (Texto 8)
Ainda considerando o trecho em (58), para defender o ponto de vista de que a reforma da previdência fracassou devido à não aceitação da opinião pública, o autor justifica que se divulgaram mentiras sobre ela. Para tanto, faz uso de uma comparação com a mentalidade de líderes católicos do século XVII, no intuito de conquistar a adesão do leitor ao ponto de vista defendido. Nesse sentido, observa-se a atuação de processos (inter)subjetivos.
Nesse caso, a subjetividade é verificada quando o autor do texto manifesta seu posicionamento, ação que envolve a expressão da atitude/ponto de vista desse falante/autor, em relação ao fracasso da reforma da previdência. A intersubjetividade, nesse caso, ocorre a partir da consideração do outro na produção do texto, isto é, o escritor convida o leitor a se engajar no jogo comunicativo porque quer conquistar sua adesão à tese defendida. Nesse caso, o escritor conta que o leitor saiba minimamente do assunto para que seja possível compreendê-lo.
Ainda considerando processos (inter)subjetivos em (58), é possível observar que o falante/escritor direciona a compreensão de seu interlocutor, comparando os sindicalistas da Receita Federal aos cardeais de Roma do século XVII, que possuíam “mentes obtusas”. Ao fazer essa comparação, o autor evoca uma época da história em que se vendiam muitas inverdades, fazendo, com isso, que o povo fosse lesado. É preciso, então, estabelecer uma comparação, monitorada pelo autor, entre as informações que se tem sobre os políticos e sindicalistas da Receita Federal e os membros do alto escalão de uma igreja cuja mentalidade era medíocre. Nesse caso, o que se verifica é que o autor manifesta seu posicionamento ao argumentar ao mesmo tempo em que busca a adesão de seu interlocutor (leitor) à tese defendida.
No excerto seguinte, em (59), o que se discute é a ocorrência do fundo de exemplificação ou testemunho integrado à figura. No texto utilizado como exemplo, qual seja o texto 15, Bola preta no clube dos ricos (Quadro 24, p. 102), defende-se que a tentativa de o Brasil entrar na OCDE é uma decisão econômica e politicamente inadequada e revela despreparo administrativo. Sendo a significação “negociada pelos interlocutores em situações contextuais específicas, o que torna possível que os elementos linguísticos se adaptem às diferentes intenções comunicativas, apresentando flutuações de sentido” (MARTELOTTA; PALOMANES, 2013, p. 181), é possível verificar que o fundo de exemplificação ou testemunho atua na direção de sustentar um argumento.
(59) A OCDE não é apenas um foro para discussões e troca de informações, como às vezes se pensa. Ela é primordialmente um organismo normativo, que fixa princípios e práticas para políticas públicas em numerosas áreas. Trata-se, além disso, de um clube dominado pelos EUA e os outros desenvolvidos, com um punhado de subdesenvolvidos fazendo figuração.
Tornar-se integrante implica, cedo ou tarde, implementar as normas da OCDE, com perda de raio de manobra e soberania em diversos campos. (Texto 15)
Nesse trecho, a porção em negrito é classificada como figura secundária, ao passo que a porção em itálico corresponde a fundo de exemplificação ou testemunho. Aqui, o autor se utiliza de dados sobre a OCDE, exemplificando-os, para sustentar o argumento de que a entrada do Brasil nesse organismo é inadequada. Para tanto, o autor convida o leitor a entender seu ponto de vista, a partir de dados factuais e ilustrativos, que orientam a compreensão do argumento e, consequentemente, do texto.
Aqui e em outros casos, há, ainda, a atuação de processos interacionais, a exemplo da inferência sugerida, reforçando, mais uma vez, o caráter pragmático do uso dos fundos. E isso acontece porque é imprescindível haver um interesse comum entre os participantes da
interação, criando uma conexão psicológica entre eles, sem a qual a comunicação seria prejudicada (MARTELOTTA, 2013). O trecho em (60), retirado do mesmo artigo de opinião, ilustra a atuação do processo de inferência pragmática/sugerida.
(60) Os EUA recomendam que o Brasil adie sua adesão à OCDE. O governo Temer quer se entregar, mas ninguém parece disposto a receber. (Texto 15)
Em (60), a porção em negrito é classificada como fundo de contextualização enquanto a porção em itálico é classificada como fundo de justificativa – cumpre mencionar que esse trecho corresponde ao “olho” do texto. Nesse caso, dada a contextualização feita pelo autor, há um convite, na justificativa, para que o leitor infira o que será entregue e recebido: o que vai ser dado, nesse caso, não é um objeto propriamente dito, mas a autonomia do próprio país. Assim, o leitor é convidado a inferir, a partir desse enunciado e de elementos contextuais, como o anúncio, em maio de 2017, da solicitação de entrada na OCDE, bem como da situação de “entreguismo” pela qual passa o país nessa ocasião, a que remetem entrega e recebimento.
O processo da inferência sugerida evocado nesse trecho guarda relação com outros elementos do texto, como o próprio título (Bola preta no clube dos ricos). De novo, é preciso que o leitor infira o que significa ser uma bola preta num clube de ricos. Para tanto, ele é convidado a compreender que i) a OCDE é um clube para países; ii) é possível se filiar a esse clube; iii) esse clube, no entanto, é voltado para países desenvolvidos; iv) o Brasil é subdesenvolvido; v) o clube, portanto, não tem interesse em recebê-lo, deixando-o em último lugar; vi) bola preta refere-se ao jogo de sinuca; vii) na sinuca, a bola preta é a última a ser encaçapada; viii) em sendo a bola preta nesse clube, o Brasil é a última opção cotada para tornar-se integrante.
Considerando, ainda, o princípio de aceitabilidade (LIRA, 2009, p. 29) da premissa, coloca-se em tela a noção de suficiência, que se refere “à força inerente à justificativa, precisando esta ser suficientemente capaz de sustentar um ponto de vista”, de modo que, quando as proposições não estão razoavelmente dispostas, o autor recruta mais material linguístico para codificá-las, realizando uma reiteração. Exemplo disso é o fundo de reiteração que, nesse caso, ocorre próximo da figura no intuito de torná-la evidente o suficiente a ponto de garantir a compreensão do sentido pretendido. Em (61), exemplifica-se como isso ocorre. (61) Ocupar terras não é crime. Crime é, em pleno século XXI, haver tanta gente que
tem negado um direito tão básico. É o Brasil nunca ter feito uma reforma agrária e urbana e perpetuar uma das maiores concentrações fundiárias do planeta. Escandaloso
Nesse trecho, fica claro que a porção em fundo de reiteração (itálico) é uma paráfrase da porção em negrito que lhe antecede (figura secundária). O autor recorre a esse tipo de construção para destrinchar seu argumento ainda mais, utilizando-se, também, da noção de (inter)subjetividade, anteriormente descrita, para conferir uma única interpretação para o argumento em tela, qual seja, a de que as pessoas sem casa e sem terra para trabalhar/produzir não têm outra alternativa senão ocupar imóveis abandonados, uma vez que o governo não cumpre seu papel quanto ao provimento de moradia e de terra para cultivar à população carente.
A interpretação desse trecho é monitorada pelo apelo do escritor em afirmar insistentemente que os movimentos sociais a que se refere não cometem crime algum, mas são vítimas de um país que não lhes atende. Nesse caso, verifica-se influência do falante/escritor sobre o locutor quando se afirma que i) ocupar terras não é crime; ii) crime é ter um direito básico negado; iii) crime é o Brasil nunca ter feito reforma agrária/urbana; iv) ocupar não é escandaloso; v) escandaloso é só poder ocupar. A intersubjetividade, aqui, é lançada na intenção de ganhar adesão do interlocutor, fazendo com que ele se filie ao mesmo pensamento defendido.
Por fim, é possível capturar, ainda, a ocorrência do fundo de digressão localizado próximo à figura, conforme disposto em (62).
(62) É um padrão sofisticado de manipulação, na medida em que é personalizado,
diferente do marketing tradicional. Ao identificar os medos, desejos e expectativas de alguém, por seu comportamento nas redes, o Facebook dá “soluções” sob medida.
O efeito imediato dessa revelação foi a perda de mais de 50 bilhões de dólares de valor de mercado do Facebook e repetidos pedidos de desculpas dos seus executivos. O criador da empresa, Mark Zuckerberg, garantiu que a empresa fará de tudo para garantir a integridade das eleições em diferentes países, Brasil incluído. (Texto 17)
Embora o fundo de digressão seja semanticamente menos integrado à figura e embora seja este também o que menos ocorre próximo a ela, há, nos dados, ocorrências desse fundo integrado à figura, como se vê em (62). Nesse excerto, a porção em negrito classifica-se como figura secundária e a porção em itálico como fundo de digressão. Nota-se que, mesmo a porção em fundo de digressão apresentando um conteúdo que se distancia do ponto de vista defendendo, qual seja, o de que a utilização ilegal de dados de usuários de redes sociais com fins de manipulação política configura uma espécie de coronelismo digital consentido, o fundo de digressão apresenta um desdobramento de uma informação fornecida em figura/argumento.
Ainda que não se coadune diretamente à tese defendida, esse tipo de fundo mantém certo grau de vinculação à figura a partir da causa/consequência expressa entre as partes, reforçando, novamente, o caráter pragmático da utilização dos tipos de fundo para a argumentação.