Capítulo I – A Intercompreensão no quadro de uma Educação para o Plurilinguismo
1. A intercompreensão 1 Introdução
1.2 O conceito de intercompreensão – sua multidimensionalidade
1.2.2 Intercompreensão enquanto método de aprendizagem
A intercompreensão pode ser vista, também, com um método de aprendizagem de línguas, uma vez que os projetos europeus, efetivamente, destinam-se à promoção da aprendizagem de línguas. Assim, a interpretação de intercompreensão, como método, foca-se inicialmente no desenvolvimento de capacidades de compreensão nas línguas estrangeiras, sobretudo nas particularmente próximas, e nas capacidades de produção, numa perspetiva didático-pedagógica.
O conceito de intercompreensão poderá ser considerado como método de aprendizagem, na medida em que se concentra nas competências de receção e produção da língua estrangeira, para possibilitar a compreensão entre sujeitos falantes de línguas distintas. Deste modo, esta surge como método de compreensão de outras línguas, o qual é possível aprender e desenvolver através da própria intercompreensão. Assim, tal como nos é descrito na brochura da DGLF, “dans cette méthode d’apprentissage des langues,
l’effort de communication se concentre sur des compétences de réception de la langue étrangère (lire, écouter) et met entre parenthèses les compétences de production d’une langue étrangère (parler, écrire)” (2006, p. 3).
Baseando-nos ainda na brochura da DGLF, apresentamos as vantagens dos métodos de aprendizagem centrados na intercompreensão por antítese ao “ensino tradicional” de línguas estrangeiras. São assim destacadas as seguintes vantagens,
maior eficácia na comunicação, pois en m’exprimant dans ma
langue, j’y gagne avant tout de la finesse dans l’expression ; je n’ai en effet pas besoin de passer par une langue étrangère qui m’obligerait à reformuler ma pensée de manière simplifiée, voire simpliste. Mon interlocuteur a les mêmes avantages. Certes, l’échange oblige chacun à un effort de clarté, mais beaucoup plus facile à maîtriser que celui de produire un message hors de sa langue” (2006, p. 4).
Assim sendo, todas as especificidades de uma língua não se perdem na inter-relação entre sujeitos falantes de línguas distintas, ganhando uma maior riqueza ao promover-se
o contacto entre diferenças linguísticas, sem que a comunicação fique danificada. Contudo, exige por parte dos sujeitos um empenho no sentido de tornar claro para o outro as especificidades de cada língua e cultura, recorrendo à flexibilidade que a intercompreensão proporciona, usando, sempre que necessário, o conhecimento que detem de outras línguas, para tornar claro ao seu interlocutor essas diferenças linguísticas. Castagne (2006) afirma que a tomada de consciência, pelo sujeito, da sua língua e da língua do outro, o irá ajudar a explorar e reconhecer a riqueza da sua língua materna (LM) para que mais facilmente se possa adaptar de modo a torná-la mais rapidamente compreensível ao seu interlocutor uma vez que
“l’intercompréhension privilégie par définition le développement des
compétences réceptives, quelques semaines permettent d’acquérir le bagage suffisant pour s’intercomprendre à l’écrit” (DGLF, 2006, p.
4).
Ao promover maior aquisição e desenvolvimento de competências de receção, estamos a estimular por outro lado, a aquisição de conhecimentos que irão potenciar o desenvolvimento de competências de intercompreensão escrita. Desta forma, percebe-se o elevado grau de motivação e rapidez na aprendizagem pela
valorização das competências recetivas, já que “lorsque j’apprends
à découvrir les langues par l’intercompréhension, je n’acquiers pas seulement des connaissances linguistiques. J’apprends avant tout à bâtir une méthode fiable d’approche des textes ou des paroles”
(DGLF, 2006, p. 4).
Em ligação com esta vantagem, a valorização de competências recetivas institui a aquisição de uma metodologia de aproximação às línguas, oralmente ou por escrito, que torna o processo de intercompreensão mais flexível e alargado aos diferentes contextos comunicacionais em que esta se poderá realizar. Porém, esta prevê também uma relação suportada por atitudes de abertura em relação ao outro, procurando, pelo recurso do conhecimento das línguas dos falantes, promover a intercompreensão.
A efetiva relação de intercompreensão não se baseia apenas em compreender ou fazer-se compreender usando as línguas dos sujeitos, mas sim em utilizar todo o capital
de conhecimentos linguísticos e de conhecimentos do mundo por forma a tornar compreensível ao outro o que se quer exprimir e ao mesmo tempo procurar compreendê-lo, pois a autêntica intercompreensão reside no esforço de ambas as partes na construção de sentidos ao se dialogar. É assim necessário reforçar-se a ideia defendida por Noguerol & Vilà, de que a comunicação “implica la voluntad de hacerlo y de que esta
voluntad no está exenta de un cierto esfuerzo por comprender al outro” (cit in, Santos,
2007, p. 522). Neste processo, evidencia-se a
valorização dos conhecimentos linguísticos prévios, já que “en
prenant appui sur les langues que je connais le mieux, j’élargis mês connaissances linguistiques aux langues de la même famille. Mon apprentissage approfondi d’une langue me permet ainsi d’aborder la lecture et l’écoute des langues qui lui sont apparentées” (DGLF,
2006, p. 4)
A valorização dos conhecimentos previamente adquiridos, sejam estes linguísticos ou culturais, resultantes do ensino ou de contactos diversificados, permitirá aos sujeitos a (re)construção de sentidos, de acordo com o contexto e a situação comunicativa na qual se encontram. Assim, como afirma Doyé,
“L’hipothèse méthodologique centrale est que tous les apprenants en intercompréhension disposent de certaines ressources cognitives dans chacune de ces catégories, et que les enseignants peuvent les aider à développer des stratégies leur permettant d’exploiter ces ressources pour la compréhension de messages oraux ou écrits”(2005, p. 14).
Ao recorrerem à sua competência estratégica, os sujeitos poderão, a partir dos seus conhecimentos prévios, responder às solicitações com que se confrontam nas mais diversas situações de comunicação.
Uma vez referida a noção de intercompreensão enquanto método de aprendizagem de línguas, importa destacar a sua característica convergente ao apoiar-se nos princípios comuns à língua, “de que o sujeito parte (geralmente a língua materna) e a língua que
assim se chegar à compreensão da língua do outro” (Santos, 2007, p. 524). De acordo
com Meissner, Meissner, Klein & Stegman (2004) este processo de comparação intra e inter-línguas representa uma vantagem em termos neurolinguísticos, desta forma, a intercompreensão institue-se como estimuladora e potenciadora da aprendizagem.
Neste sentido, a intercompreensão enquanto método de aprendizagem, ainda que de forma subtil, tem emergido como objetivo a ser atingido na aprendizagem, sobretudo em termos discursivos, confundindo-se com o objetivo de construir uma educação para o plurilinguismo, que consequentemente contribui para a formação em língua estrangeira, tal como afirma Ploquim,
“jouer la carte des familles de langues servirait à enraciner les
élèves dans leur identité linguistique tout en développant chez eux une conscience plurilingue qui, par la suite, leur serait extrêmement utile pour un apprentissage plus approfondi de l’une ou l’autre langue” (2006, p. 18).
Assim, ao constituir-se método de aprendizagem, a intercompreensão assesta o seu enfoque didático-pedagógico numa educação em línguas que, superando o método de aprendizagem tradicional, vê o sujeito-aprendente como participante ativo na (re)construção do conhecimento, que aprende na interação com o outro linguística e culturalmente diferente.