Capítulo I – Símbolos e Saberes 27
1.1 O cuidado em alegoria-‐ Mito do Cuidado 27
1.1.2 Vulnerabilidade 40
“Cuidado, você foi quem primeiro lhe deu forma, por isso irá possuí-lo, enquanto ele viver.” (Higino- Mito do Cuidado)
Os seres vivos têm como condição a vulnerabilidade e no Mito do Cuidado vemos isso simbolizado em relação ao Ser-Humano. Diante desse requisito, somos todos iguais. O que nos diferencia um dos outros é o grau de vulnerabilidade ao qual estamos submetidos em determinado momento e condição na vida. Essa variação hierárquica pode ser refletida a partir do estudo do Mito do Cuidado, com a transposição de alguns dos seus aspectos para as relações do care. Mais especificamente, por meio do simbolismo do Cuidado não ser nem divindade, nem terrestre, aspecto que determinará a seguinte decisão de Saturno: “Você, Júpiter, você deu o espírito [...] receba o corpo. Porque foi o Cuidado quem primeiro lhe deu forma, por isso irá possuí-lo, enquanto ele viver.” (BORIQUD, 1997, p. 146 e 147) Completada em outra versão por:
Júpiter, você deu o sopro de vida a essa criatura e terá sua alma quando ela morrer. Terra, você ofereceu-lhe seu corpo e a você ele retornará com a sua morte. Cuidado, você foi quem primeiro lhe deu forma, por isso irá possuí- lo, enquanto ele viver. (QUEIRÓS, 2015, p. 143)
Com base na segunda versão é possível dizer que Saturno entrega ao Cuidado o Ser- Humano durante a sua vida, pois espírito e corpo, que pertencem respectivamente aos deuses Júpiter e Terra, a eles retornarão com a sua morte. Assim, ao cuidado o ser-humano está designado.
É no plano terrestre, no plano da vida ordinária que o Cuidado e o Ser-Humano se encontram. Assim, podemos concluir que a vida torna o ser-humano vulnerável e por isso ele precisa de cuidados, esta afirmação nos remete ao medo da finitude. Por outro lado, há também a ideia de que o ser-humano precisa de cuidado, por isso ele é vulnerável, a qual, por sua vez, nos reporta ao incômodo com a interdependência, associada à dependência. Ambas contêm nosso medo da vulnerabilidade e estão intrínsecas, por isso não as diferenciaremos.
Para pensar sobre a vulnerabilidade será retomada a intercessão de Saturno no mito do Cuidado e procurar-se-á demonstrar como esta alegoria pode ser concretizada nas relações humanas. Desta maneira, será possível refletir sobre as interações nas relações do care e as permutações de trabalho do care entre as pessoas.
Ao retomar o Mito, pode-se observar que a determinação de que o Cuidado possuirá o Ser-Humano supõe uma hierarquia nessa relação. Mas extrapola-se o mito para dizer que se o Cuidado deu forma ao humano e lhe acompanhará por toda sua existência, eles estarão juntos e o Ser-Humano expressará o Cuidado, aquele que o acompanha, assim como dele precisará. Por consequência, o cuidado está com cada ser-humano e cada um deles será do cuidado usando-o para si e para outros. Nesse sentido, pensar que o Cuidado possuirá o Ser-Humano nos remete à síntese com (o) cuidado se faz (o) ser-humano34. Assim, ao estender tal ideia as
relações que materializam o cuidar, ou seja, na interação entre as pessoas. Mais, especificamente ao observar o trabalho do care sendo realizado, também é possível constatar como um doador do care, em uma situação, torna-se seu receptor em outra, constatando as permutações do care na organização social. Embora, em todas as relações haja um cuidado, sua demanda é mais específica em algumas relações que, quase sempre, se configuram em uma forma de trabalho. Nesse caso, a relação do care traduz uma necessidade evidente de ajuda de uma pessoa ou grupo à qual outra pessoa, ou um grupo de pessoas, responde. Essa resposta acontece em um tempo e em um espaço determinados e nela se evidencia uma assimetria. Ainda assim, não há uma dicotomia imutável entre receptor e doador do care quando essa relação é contextualizada de maneira global. Para ilustrar essa afirmação, definiram-se três categorias de trabalho do care: o trabalho-direto profissional35, o trabalho- indireto profissional e o sem troca monetária. Todas serão expostas com exemplos da permutação, que prova que todos somos beneficiários do trabalho do care. Porém, não se considerará as relações de poder que podem envolvê-las. Assim têm-se:
O trabalho-direto profissional do care é aquele em que existe uma relação de prestação de serviço com remuneração. A pessoa que executa tal serviço é socialmente reconhecida pela realização profissional de um care: é o caso de babás, cuidadoras, enfermeiras, entre outros profissionais. Desta categoria ogirina-se outra forma de expressão que a referência, o trabalho direto do care, aquele realizado com a pessoa que gerou a busca
34 Essa síntese foi construída a partir das ideias: todo cuidado aponta para uma possibilidade/produção e, é a partir do cuidado que se faz o ser-humano. As quais partem da consideração de que o cuidado é base fundamental da organização social, aspecto simbolizado no Mito do Cuidado.
35 O adjetivo profissional é justificado mesmo para aqueles que não realizaram uma formação para a execução da atividade, pois o substantivo que origina este adjetivo tem como um dos seus sinônimos “ocupação”.
pela profissional.
A permutação do care, nessa categoria, é constatada entre distintos profissionais que não compõem a díade a priori observada. O fornecedor (profissional) dos cuidados em uma situação é seu receptor em outro momento. Por exemplo, ao observar uma babá e a criança da qual ela cuida, sabe-se que a criança não poderá oferecer cuidados profissionais à babá. No entanto, a babá precisará, em algum momento de sua vida, desse tipo de trabalho-direto- profissional, ou seja do trabalho direto do care. Este pode ser o de uma enfermeira, o qual, por sua vez, também precisará de outro profissional, e assim sucessivamente. No caso da enfermeira, por ser uma adulta, ela não receberá o trabalho-direto-profissional de uma babá, mas, pode precisar de uma babá para cuidar do seu filho. Neste contexto, a enfermeira receberá o care por meio do trabalho-indireto-profissional, que é a segunda categoria proposta.
O trabalho-indireto profissional do care refere-se aos cuidados que atingem indiretamente uma pessoa ou um grupo de pessoas ligadas ao indivíduo que os recebem diretamente. É, portanto, aquele que atinge as pessoas prόximas de uma pessoa que está (evidentemente) recebendo o trabalho do care. Por exemplo, a babá que cuida de uma criança está oferecendo para a família desta criança o care indireto do profissional, enquanto a criança (care receiving) recebe o care diretamente. Por consequência o trabalho que a babá oferece à família é o trabalho-indireto-profissional. O care que a babá fornecerá à família não é o mesmo fornecido às crianças, mas ela está, indiretamente, oferecendo um trabalho aos pais ao cuidar de seus filhos. É o trabalho-indireto-profissional do care oferecido pela babá que permite aos pais usufruírem o seu tempo como desejarem. Do mesmo modo, as enfermeiras oferecem um trabalho-indireto-profissional às famílias de seus pacientes. Essa família pode ser a da babá, e dessa maneira teríamos um exemplo de forma de permutação que envolve esse tipo de trabalho do care.
O trabalho é adjetivado como “indireto”, pois está situado em uma relação do trabalho-direto-profissional de care, ou seja, escolheu-se como referência a relação de care entre o fornecedor do care (care giver) e o seu receptor (care receiving) explícito; este responsável pela ligação entre os envolvidos. Mas, o trabalho-direto-profissional e o trabalho- indireto-profissional do care, na grande maioria dos casos, estão intrínsecos. O trabalhador do care será mais bem avaliado tanto pela sua relação com o objeto direto dos seus cuidados quanto pela relação com aqueles que são afetados indiretamente. Nesse sentido, o trabalho, para o qual o profissional é contratado (o direto), é somado ao trabalho indireto, ou seja, seu trabalho relacional está para além da configuração fornecedor do care (care giver) e receptor
(care receiving). Assim o trabalhador do care será mais bem avaliado se comtemplar bem seu trabalho direto e o seu trabalho indireto, e dessa forma, estes trabalhos são distintos, mas fazem parte de um mesmo processo. Esta percepção vai ao encontro da afirmação de Zelizer (2012) ao falar sobre as babás “A negociação em torno da adequação entre o trabalho, as relações interpessoais e as formas de compensação preocupam estas empregadas, têm um grande impacto sobre o care que elas oferecem, e determinam se elas conservam ou perdem o seu trabalho.” (ZELIZER, 2012, p. 22).
O terceiro tipo de trabalho do care, diferente dos dois primeiros, não envolve trocas monetárias, por isso é nomeado trabalho sem troca monetária do care. A característica básica, de não envolver dinheiro, não exclui necessariamente o profissionalismo, mas apenas o difere no modo pelo qual a relação é estabelecida. Nesses casos, o trabalho do care acontece de maneira benevolente, mas se caracteriza como um trabalho, pois uma determinada pessoa oferece seu tempo a terceiros que não podem, ao menos naquele momento, realizar a tarefa que demandam. Para continuar com os exemplos das babás e das enfermeiras, isto acontece quando ambas deixam seus filhos com outras pessoas sem remunerá-las, como por exemplo, com os familiares ou os vizinhos.
Dentro dessas três categorias, podemos notar que as permutações nas relações de trabalho do care são inúmeras e que, portanto, a dicotomia entre fornecedor e receptor do care é conjuntural.
Ao considerar que em uma relação do trabalho do care aquele que aparece mais claramente como seu fornecedor (care-giver) também pode estar recebendo algum tipo de cuidado e que, como mostrado, receberá, e certamente já recebeu, afirma-se que somos todos, em situações distintas, beneficiários do care e “cada um de nόs é o centro de uma cadeia complexa de relações de cuidado” (TRONTO, 2009, p. 51, tradução própria).36 É importante destacar que a permutações evidenciadas para configurar tal afirmação acontecem dentro de uma sociedade desigual, portanto não desaparecem com as assimetrias de poder presentes nas relações estabelecidas.