4.1 NOÇÕES EM DIÁLOGO
4.1.2 Interdisciplinaridade: ligação de saberes
4.1.2.1 Interdisciplinaridade como processo de integração
A interdisciplinaridade aparece nos textos T-I, T-II, T-III, T-IV, T-V, T-VII, T-VIII, T-IX, T-X, T-XI, T-XII, T-XVII, T-XVIII, T-XX, T-XXI, T-XXIII, T-XXV, T-XXVI, T- XXVII, T-XXVIII, T-XXIX, T-XXX, T-XXXI, T-XXXII e T-XXXIV, o que demonstra a ênfase colocada pelos professores nesta noção.
Refletindo sobre a noção, que nominamos de B, quanto à forma como acontece ou não a interdisciplinaridade, percebemos as seguintes dimensões e respectivas quantidades de referências:
B 1. Conteúdos relevantes, com projetos, práticas diferenciadas e em espaços diversos = 91;
B 2. Currículo adaptado, com pluralismo de ideias, avaliação coletiva = 28; B 3. Conteúdos significativos na vida cotidiana dos estudantes = 45;
B 4. Conteúdos articulados e integradores = 18.
Gráfico 9 – Noção B, com as dimensões B 1, B 2, B 3 e B 4 – quanto a forma como acontece a interdisciplinaridade.
Fonte: Elaborado pela pesquisadora.
Ponderando sobre a dimensão B 1, em que os professores entendem interdisciplinaridade como organizar conteúdos relevantes, através de projetos coletivos,
utilizando práticas diferenciadas e saindo dos espaços da sala de aula, foi salientado nos textos T-I , T-II, T-III, T-IV, T-V, T-VII, T-VIII, T-IX, T-X, T-XI, T-XIII, T-XXIII, T-XXVI, T- XXVII, T-XXIX, T-XXX, T-XXXI, T-XXXII, T-XXXIII e T-XXXIV.
O escrito dos professores de Curitibanos, por exemplo, enfoca a importância de se trabalhar com projetos interdisciplinares:
A interdisciplinaridade nasce no momento em que o projeto é pensado no coletivo, mas vai muito além; quando o projeto é encarado de maneira integral, cada disciplina vai integrando o que há de melhor, que fora vivido naquele instante, faz uma releitura da vida nos anos 1960 e assim sucessivamente, até encontrar o dia que amanhece hoje; ai então se pergunta se o vivido na época tem conexão direta com o vivido hoje (SANTA CATARINA – CURITIBANOS, 2016, p. 22).
Portanto, o que fica destacado no texto dos professores é enfatizado por Morin (2010), quando salienta que “é fundamental desenvolver cooperação interdisciplinar entre os professores para que os alunos se conscientizem dos problemas fundamentais e globais”.
As saídas para outros espaços, como forma de aprendizagem, de aproximar e integrar o conhecimento, também é um tema enfatizado pelos professores de Laguna:
No Projeto, foram previstas atividades em todas as disciplinas e saídas de campo, pois entendemos que, quando oportunizamos aos alunos situações de aprendizagem nas quais eles podem vivenciar in loco os estudos que ocorrem nas diversas áreas do conhecimento, este se aproxima deles de tal modo que os faz aprender de forma mais prazerosa e significativa para sua vida (SANTA CATARINA – LAGUNA, 2016, p. 74).
Os professores de Canoinhas destacam outro ponto de relevância, que são as reuniões semanais na escola, com horário específico para planejamento coletivo. E fazem especial diferença para quem está “visando a contínua construção dos conhecimentos no processo educativo dos estudantes” (SANTA CATARINA – CANOINHAS, 2016, p. 103).
Nesse sentido, nosso ensino deve tratar os problemas globais e fundamentais de nossas vidas e da nossa época, que necessitam da cooperação dos saberes disciplinares, mas, que, ainda permanecem separados uns dos outros.
Morin (2018) explicita que o professor deve buscar sempre o trabalho interdisciplinar.
Ele deve ter consciência da importância de sua disciplina, mas precisa perceber também que, com a iluminação de outros olhares, vai ficar muito mais interessante. O professor pode procurar ter essa cultura menos especializada, enquanto não existir uma mudança na formação e na organização dos saberes. O professor de Literatura precisa conhecer um pouco de história e de psicologia, assim como o de Matemática e o de Física necessitam de uma formação literária. Hoje existe um abismo entre as humanidades e as ciências, o que é grave para as duas. Somente uma comunicação entre elas vai propiciar o nascimento de uma nova cultura, e essa, sim, deverá
perpassar a formação de todos os profissionais.
Os professores de Canoinhas enfatizam essa compreensão de que as disciplinas, isoladamente, têm suas especificidades e importância, mas que, na coletividade, adquirem um brilho diferenciado.
[...] sempre quando ocorre a exclusão de alguma disciplina não é apenas a disciplina que perde, mas a escola em sua totalidade. Quanto mais desunidas estiverem as disciplinas e os educadores, mais vulneráveis estarão a instituição e os estudantes aos problemas oriundos e estruturados no meio social (SANTA CATARINA - CANOINHAS, 2016, p. 103).
Neitzel e Rosseto (2016, p. 148-149) enfatizam a interdisciplinaridade como cooperação do conhecimento e não como perda das particularidades de cada disciplina:
Diagnosticada a fragmentação do saber como um dos maiores problemas da formação dos jovens e que de certo modo se materializa na organização da grade curricular, um possível modo de enfrentá-la é aproximar as diferentes áreas disciplinares e pôr as mesmas em diálogo pela proximidade epistêmica. Assim, a proposta do novo Ensino Médio identificou quatro grandes áreas, a saber: Linguagens, Matemáticas, as Ciências da Natureza e as Ciências Humanas. Com isso se intenciona garantir certa interdisciplinaridade. Mas a proposta tem muito claro que isso só é possível à medida que se mantém o caráter disciplinar e a especificidade de cada disciplina. É uma condição do diálogo que não se dissolvam as fronteiras epistêmicas que demarcam as áreas de saber. Só há diálogo se tomamos os interlocutores como outros entes e com identidades próprias.
Isso não é pouco, nem é fácil. Mas é o desafio do nosso tempo: trabalhar de modo interdisciplinar e contextualizado, a fim de atender a um projeto que não é mais individual, mas coletivo. Isso impõe mudanças, cuja operacionalização exige esforço pessoal de cada um dos agentes envolvidos no processo educacional.
Em nossa resposta a esse desafio reside a grande mudança que se pode dar na qualidade da educação oferecida no EM.
Educar é crer na perfectibilidade humana, na capacidade inata de aprender e no desejo de saber que a anima, em que há coisas (símbolos, técnicas, valores, memórias, fatos,...) que podem ser sabidas e que merecem sê-lo em que nós, homens, podemos melhorar uns aos outros por meio do conhecimento (SAVATER, 2000, p. 24).
O texto dos professores de Curitibanos vem ao encontro dos autores anteriores ao destacar a importância do coletivo e que permeia a dimensão B 2, de um currículo adaptado, com pluralismo de ideias e avaliação coletiva.
A interdisciplinaridade nasce no momento em que o projeto é pensado no coletivo, mas vai muito além; quando o projeto é encarado de maneira integral, cada disciplina vai integrando o que há de melhor, que fora vivido naquele instante, faz uma releitura da vida nos anos 1960 e assim sucessivamente, até encontrar o dia que amanhece hoje; ai então se pergunta se o vivido na época tem conexão direta com o vivido hoje (SANTA CATARINA – CURITIBANOS, 2016, p. 22).
Essa, também, é a fala dos professores de Criciúma, ao enfatizar a relação entre as diversas áreas do conhecimento:
O currículo tem sido organizado historicamente de forma a priorizar processos de ensino e aprendizagem conteudistas, em que os conceitos de biologia, física e química não dialogam entre si. Dessa forma, este relatório vem com o propósito de compreender que as Ciências da Natureza são constituídas por atividades sociais e culturais produzidas no diálogo com inúmeros outros conhecimentos (SANTA CATARINA – CRICIÚMA, 2016, p. 89).
Em relação a dimensão B 3, dos conteúdos significativos na vida cotidiana dos estudantes como fator preponderante para a interdisciplinaridade, os professores de Canoinhas ressaltam que “o papel do professor requer uma prática pedagógica que repense os sujeitos envolvidos, suas origens, valores e perspectivas (SANTA CATARINA – CANOINHAS, 2016, p. 103).
O mais importante é dar autonomia a esse aluno para que ele ultrapasse a barreira da simples memorização do conhecimento e torne-se um investigador. A aprendizagem deixa de ser passiva, teórica e dicionarizada e passa a fazer com que o aluno consiga interligar, associar, refletir e utilizar seu aprendizado na solução dos problemas do seu dia a adia (SANTA CATARINA, JOINVILLE, 2016, p. 120).
Há, indiscutivelmente, um descompasso entre o currículo e a vida cotidiana, entre os conteúdos e as demandas da vida prática. Para superar essa dicotomia faz-se necessário repensar a interdisciplinaridade, os conteúdos, as práticas individuais e coletivas, que se instituem no interior da escola.
Flexibilidade quer dizer capacidade de transformar a si mesmo, de se reorganizar, se for preciso, para alcançar os fins propostos, inclusive de articular, de outra maneira, os fins parciais, ou de substituir os fins gerais para sobreviver como organização. Uma escola faz isso, por exemplo, quando passa do trabalho por matérias ao trabalho por projetos (ENGUITA, 2004, p. 101).
Um currículo flexível, que contemple a interdisciplinaridade com um rol de conteúdos articulados e integradores, está balizado na dimensão B 4 e fica bem explicitado no texto de Blumenau.
O Ensino Médio da EEB José Bonifácio segue, atualmente, a modalidade de aprendizagem por projetos de elaboração coletiva e multidisciplinar. De acordo com essa proposta, um tema de interesse coletivo é lançado e, a partir de uma problematização, inicia-se um projeto de estudo (SANTA CATARINA – BLUMENAU, 2016, p. 116).
Nota-se que os textos dos professores destacam ideias que se encontram com as falas dos autores. A organização coletiva por meio de projetos interdisciplinares se sobressai em vários textos. O tempo para o planejamento grupal também é a tônica de muitos escritos dos professores. Concordam plenamente que esse tempo de discussão sobre os temas e assuntos, seja dos projetos ou das atividades interdisciplinares, é o que faz a diferença no EMI. E, com isso, como salienta Federico García Lorca, se consegue o mistério de unir disciplinas que, aparentemente, são insólitas por essência.