• Nenhum resultado encontrado

Interdiscurso e Memória Discursiva

No documento 2007DeboraCristinaSchneider (páginas 35-37)

1. OS PRESSUPOSTOS TEÓRICOS

1.2.3 Interdiscurso e Memória Discursiva

O interdiscurso representa o universo de formulações possíveis que, através da memória discursiva, retorna no dito como a base que o sustenta. Assim, o interdiscurso é uma região regida pelo nonsense, em que se localizam infinitas cadeias discursivas aleatórias, que a memória discursiva recupera de acordo com o acontecimento discursivo em que o sujeito se insere. Desse modo, o interdiscurso pertence à ordem do enunciável, pois segundo Courtine:

[...] o enunciável é exterior ao sujeito enunciador e o discurso só pode ser construído em um espaço de memória, no espaço de um interdiscurso, de uma série de formulações que marcam, cada uma, enunciações que se repetem, se parafraseiam, opõem-se entre si e se transformam. Esse domínio de memória constitui a exterioridade do enunciável para o sujeito enunciador, à qual ele recorre e da qual ele se apropria para construir sua enunciação. (apud GREGOLIN, 2003, p. 55)

Assim, o interdiscurso e a memória discursiva retomam sentidos já existentes, ideologicamente determinados e já sabidos pelo sujeito. O interdiscurso, de acordo com os autores citados, representa redes de memórias em que transitam formulações primárias com formulações que trazem de volta esses ditos. Associada a essa noção de interdiscurso, há o intradiscurso que representa a superfície discursiva, a materialidade do interdiscurso, a forma como os elementos do saber armazenado são linearizados. Esses dois conceitos, ao interagir, constroem as relações de sentido para o discurso.

A memória discursiva representa as significações que são trazidas à tona no momento em que o discurso é produzido e o constituem, dando-lhe as referências que estabelecem os encadeamentos de sentido. Trata-se de formulações extraídas do universo de possibilidades que habitam o interdiscurso e, inconscientemente, condicionam o efeito de sentido construído pelo sujeito e pelo outro. Essa memória discursiva é buscada e selecionada pelo sujeito de acordo com esses efeitos de sentido e as condições de produção do discurso.

A noção de memória apresentada aqui não diz respeito à memória psicológica, mas a um espaço onde há uma regularização e uma desregularização sobre os sentidos dados, mobilizada pelo discurso recente que remete à memória discursiva, buscando nos sistemas de

implícitos algo mais que uma mera paráfrase, mas se transformando em uma possibilidade geradora de sentido diferente. A memória, então, remonta a enunciados pré-existentes, a um já-dito que regula as possibilidades do dito. Foucault esclarece da seguinte maneira essa noção:

[...] todo o discurso manifesto repousaria secretamente sobre um já-dito; e que este já-dito não seria simplesmente uma frase já pronunciada, um texto já escrito, mas um ‘jamais-dito’, um discurso sem corpo, uma voz tão silenciosa quanto um sopro, uma escrita que não é senão o vazio de seu próprio rastro. Supõe-se , assim, que tudo que o discurso formula já se encontra articulado nesse meio-silêncio que lhe é prévio, que continua a correr obstinadamente sob ele, mas que ele recobre e faz calar. O discurso manifesto não passaria, afinal de contas, da presença repressiva do que ele não diz; e esse não-dito seria um vazio minando, do interior, tudo o que se diz. (2002, p. 28)

Dessa forma, a memória discursiva reedita dizeres que, no entanto, não apresentam regularidades, pois estão sujeitos aos imprevistos ocasionados pelo seu retorno, que podem gerar a descristalização desse dizer, bem como distintos efeitos de sentido. Gregolin afirma a respeito dessa questão:

[...] numa relação dialética entre o ‘mesmo’ e o ‘outro’: na repetição literal da identidade material , ao mesmo tempo em que a repetição assegura o espaço de estabilidade de uma vulgata parafrástica, pode provocar uma divisão de identidade material; já que sob a materialidade do mesmo abre-se o jogo da metáfora que perturba a memória e a descristaliza. (2003, p.56)

Enfim, o discurso se constitui em função dos demais discursos com que dialoga. Dessa forma, atinge sua materialidade na relação entre o interdiscurso e o intradiscurso, sendo o dialogismo um dos elementos que o funda. Para Pêcheux (1997a), o discurso representa um efeito de sentido entre locutores, uma prática simbólica que remete à formação do sujeito e às condições de produção específicas que não podem ser relacionadas a um indivíduo e uma realidade, mas a projeções e representações. Assim, também, nos assevera Eni Orlandi:

Necessariamente determinado por sua exterioridade, todo discurso remete a um outro discurso, presente nele por sua ausência necessária. Há o primado do interdiscurso (a memória do dizer) de tal modo que os sentidos são sempre referidos a outros sentidos e é daí que eles tiram sua identidade. A interpretação é sempre regida por condições de produção específicas que, no entanto, aparecem como universais e eternas. É a ideologia que produz o efeito de evidência, e da unidade, sustentando sobre o já dito os sentidos institucionalizados, admitidos como ‘naturais’. Há uma parte do dizer, inacessível ao sujeito, e que fala em sua fala. Mais ainda: o sujeito toma como suas as palavras da voz anônima produzida pelo interdiscurso (a memória discursiva). (1996, p. 30-31)

Então, temos a noção de ideologia, discurso, interdiscurso e memória discursiva que, até o momento, constituem os primeiros conceitos-chave desta dissertação. A ideologia é materializada nas marcas lingüísticas presentes no discurso, produzido a partir do interdiscurso e da memória discursiva. Igualmente, o discurso é a forma de percebermos o sujeito, seu assujeitamento, as posições que ocupa e os discursos que essas posições o autorizam a enunciar. Como o discurso é a representação ideológica das condições sócio- históricas, há discursos que antagonizam as vontades e as verdades estabelecidas pelo poder vigente, vindo de encontro ao discurso considerado legítimo e adequado. Dessa forma, resta a esses discursos serem relegados ao silêncio, à censura, ao controle do que pode ser dito e o que pode ser entendido. Isso nos remete ao próximo conceito-chave: o silêncio.

No documento 2007DeboraCristinaSchneider (páginas 35-37)

Documentos relacionados