CAPÍTULO 1 TECENDO AS TEIAS DOS SIGNIFICADOS QUE ENVOLVEM A COMPREENSÃO LEITORA
1.6 As interfaces do leitor e o texto
Na nossa investigação é fundamental adotarmos uma noção de texto para contextualizarmos a compreensão leitora. E como destaca Koch (2000), há várias formas de trabalhar a concepção de texto, mas elegemos no sentido lingüístico a noção de Halliday e Hasan, e no sentido da psicologia cognitiva vamos trabalhar o texto
enquanto representação mental do que está escrito (capítulo 2).
É fundamental destacarmos as interfaces do leitor e do texto na concepção de Halliday e Hasan (1976,1989), precursores da lingüística textual européia, estudiosos do desenvolvimento das habilidades de linguagem para esta discussão. A relevância teórica de seus estudos reside na ênfase da função sócio-comunicativa da linguagem e na crítica severa ao ensino tradicional da gramática, descontextualizado e orientado para as normas e formas gramaticais.
Halliday e Hasan (1989) sugerem que as investigações, com o intuito de explicitar o conhecimento da linguagem por parte do aprendiz, são uma grande contribuição para a área. Os autores são filiados a um grupo de estudiosos que parte da perspectiva sistêmico-funcional da análise da relação texto e contexto, estrutura e esquemática do texto em estágios, relação situacional e cultural e gênero textual como realização do registro. Para os estudiosos, é importante compreender a relação
bidirecional da linguagem enquanto aspecto representativo da experiência humana, e enquanto recurso de fundamental importância para a constituição da experiência humana. A linguagem não é só parte da experiência, mas está intimamente envolvida com as formas pelas quais construímos e organizamos nossas experiências, por isto implica totalmente na produção de significados. Se a linguagem incorpora nossas experiências, o texto possui a função sócio-comunicativa de expressar esses eventos sociais por meio dos vários gêneros do discurso.
O falante não se comunica por palavras ou frases, e sim por textos, orais ou escritos. O texto ou o discurso se constitui uma unidade de comunicação lingüística. Vejamos uma das definições de texto mais usadas na literatura proposta por Halliday e
Hasan (1976, p.1): “um texto é uma unidade de linguagem em uso... não é definido pelo seu tamanho... O texto é melhor denominado como uma unidade semântica: não é uma unidade de forma mas sim de significado”.
Em outro momento complementam esta idéia, acrescentando que o texto é uma linguagem em funcionamento “realizando algum trabalho” (Halliday e Hasan, 1985, p. 10). Para eles, o texto, enquanto linguagem em uso, atende a determinadas situações e contextos e, para isto, adquire conotações e intenções diferentes que são expressas por sua estrutura. As peculiaridades próprias do texto são denominadas de tipos textuais.
Na perspectiva dos autores, a linguagem é um sistema semiótico, porque, por meio dela, as pessoas negociam, constroem e mudam a natureza de sua experiência social. Portanto, parafraseando-os, a linguagem é uma forma entre os vários sistemas de significação, que coexiste com todos os demais sistemas, que constituem a cultura humana. E é social, porque usa, produz e reproduz o sistema social constituído
culturalmente. Então temos a linguagem como uma semiótica social, um sistema social e cultural, que está embutido em um sistema mais amplo de significação.
Halliday e Hasan (1989) também criticam as formas tradicionais de ensino da linguagem e enfatizam a construção de significados. Ressaltam que a forma como os professores ensinam a linguagem é insatisfatória, e está relacionada à visão que adotam em relação à linguagem e à experiência própria com a leitura. Durante muitos anos, a forma de o professor ensinar a linguagem foi focalizada na gramática, nas normas gramaticais. O isolamento de palavras, sentenças ou partes do texto para exploração eram prioridades. O significado da linguagem e o seu papel na construção do significado são às vezes desprezados, e os tipos de conhecimentos sobre linguagem que são disponibilizados e trabalhados com os alunos no ensino da língua são muito limitados.
Unindo os conceitos da lingüística e da psicologia cognitiva, entendemos que a leitura envolve decifrar o texto, revelar as intenções do autor, buscar os significados, construir representações mentais que abram para o leitor a possibilidade de construção de novos conhecimentos. Isto envolve o aprender a aprender, a aprendizagem ativa (capacidade de o indivíduo decidir as estratégias que deve usar como ferramenta para decifrar o texto) e uma tarefa primordial para a educação que deve fazer parte do currículo do aluno, visto que o texto escrito está presente em todos os espaços do ambiente escolar.
A partir desses argumentos podemos concluir que a atividade de leitura, como toda atividade humana, deve ser estudada numa dimensão integral e como um
processo construtivo a partir de um contexto dinâmico. Os sistemas de análise devem favorecer a compreensão de processos integrados e não de elementos parciais do comportamento removendo-os do contexto, tempo e espaço naturais. Se isolarmos os elementos do contexto sócio-histórico, a narrativa, a feia dos indivíduos não fará nenhum sentido. O discurso é uma ocorrência do sentimento e vivência de pertencimento a uma classe social, a uma comunidade, a uma sociedade em um determinado momento histórico e cultural e, portanto, o ato de compreender e interpretar são co-construídos na intersecção do leitor com o texto a partir de uma determinada situação comunicativa. Inclusive, se entendermos o ato de compreensão como um processo de co-construção de significados, então, poderíamos pressupor que o texto enquanto objeto da compreensão não preexistiria ao leitor, à compreensão e à interpretação. O texto somente se constituiria enquanto entidade quando fosse
decifrado pelo leitor; isto é o que garantiria a sua existência.
Nesta perspectiva vale destacar a função da cultura como. instrumentadora da leitura. A cultura provê condições ou ferramentas para a interpretação que extrapolam a relação leitor e texto, e englobam o contexto imediato da leitura, a história cultural que envolve o texto e o leitor, as relações de poder inerentes à participação social na evocação dos signos e o conjunto de experiências de vida do leitor. O ato de leitura pressupõe a atração de sentidos de natureza cultural e historicamente construídos a partir da interação entre leitor texto e contexto.
Finalmente, parafraseando Moll (2000) e Smagorinsky (2001), postulamos que a noção de significado emerge da participação nas práticas sociais, e como tudo é prática social e cultural, é inevitável que leiamos culturalmente, conseqüentemente a leitura de mundo, visual ou escrita, será sempre uma prática sócio-cultural. E, neste contexto, a compreensão de textos envolve um exercício sócio-cultural de acesso às chaves que possibilitam captar os signos e construir os seus significados.
CAPÍTULO 2 - ELEMENTOS QUE INFLUENCIAM E CONSTITUEM A