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2.3 LEITURA

2.3.3 Interjogo de Fatores Presentes nas Dificuldades de Leitura

As dificuldades na leitura, como em qualquer outra área de aprendizagem, podem resultar de uma interação entre aspectos biológicos (incluindo os genéticos e neurológicos), cognitivos e ambientais que estão interligados (CAPOVILLA, CAPOVILLA, 2004a). Mencionamos brevemente cada um destes fatores.

Aspectos genéticos

Estudos apontam que a dislexia ocorre, ao menos em parte, devido a influências genéticas. Tais evidências provêm das pesquisas com gêmeos que apontam a existência de uma influência genética nas habilidades implicadas no reconhecimento de palavras (RACK; OLSON, 1993).

Aspectos neurológicos

Pesquisas por meio de neuro imagem têm mostrado alterações nos cérebros de indivíduos disléxicos. Apesar de não se poder afirmar que tais alterações causam diretamente a dislexia, é possível relacionar os padrões de alteração com os padrões cognitivos e comportamentos observados na dislexia. Anormalidades cerebrais na região perissilviana do hemisfério esquerdo levariam às dificuldades cognitivas no processamento fonológico, ou seja, no processamento de informação baseada na estrutura fonológica da linguagem oral (LYYTINEN et al., 2005).

Pinheiro (2002) faz referência a estudos que destacam que o sistema nervoso, que possui propriedades inatas geneticamente determinadas, também responde a modificações ambientais. Fatores decorrentes de problemas sócio-emocionais, motivacionais, educacionais podem causar no sistema nervoso alterações estruturais que, por sua vez, podem provocar alterações funcionais.

Butterworth (1994) propõe a existência de partes do cérebro dedicadas à leitura. O autor sugere a existência de lesões no giro angular - áreas envolvidas no armazenamento de formas de palavras – que devem ocasionar a dislexia de superfície, e lesões no giro temporal superior – possivelmente a área de Broca – que levam à dislexia fonológica.

Aspectos cognitivos

Diversas habilidades cognitivas têm sido apontadas na literatura como relacionadas às dificuldades na leitura: processamento visual, processamento fonológico, memória de trabalho, velocidade de processamento (CAPOVILLA; CAPOVILLA, 2004b), e atenção (LIMA; ALBUQUERQUE, 2003). Retornaremos aos aspectos cognitivos mais adiante.

Encontramos ainda os estudiosos que focam o desenvolvimento inapropriado de habilidades cognitivas e/ou metacognitivas por parte de alguns alunos (LAWSON, 1991, INOSTROZA, 1998).

Aspectos ambientais

Diversas situações ambientais podem contribuir para agravar as dificuldades na leitura. Por exemplo, o método de alfabetização utilizado, a demanda requerida pela ortografia à qual a criança está exposta são situações que podem facilitar e/ou dificultar o aprendizado da leitura (CAPOVILLA, CAPOVILLA, 2004a).

Alguns pesquisadores compartilham a idéia de que a inabilidade por parte da escola de lidar com aprendizagem da leitura e formar bons leitores é uma importante fonte de dificuldades nesta área. Pesquisadores como Jolibert (1994), Nunes et al. (1997), Bourdier e Chartier (1998), Solé (2003) enfatizam a necessidade da escola rever-se em relação ao ensino da leitura e ao seu papel quanto à formação de leitores críticos e ativos.

Os estudos sobre letramento8 que surgem a partir da década de 80 ampliam nossa compreensão a respeito da aprendizagem da leitura (KATO, 1986, TFOUNI, 1995) e reforçam a estreita ligação entre alfabetização e letramento. O caminho para a superação dos problemas na aprendizagem da leitura, de acordo com esta corrente, é alfabetizar letrando ou letrar alfabetizando (SOARES, 2004).

8 Letramento tem sido definido como um conjunto de práticas sociais que usam a escrita em múltiplos contextos e com objetivos definidos. Assim, as formas como crianças e adultos fazem uso da língua escrita, mesmo quando não sabem ainda ler, buscando atender seus interesses, necessidades, são formas de letramento. As práticas escolares, em função dessa definição, passam a ser apenas um tipo de prática que desenvolve algumas habilidades e não outras e que determina uma forma de utilizar o conhecimento sobre escrita. Isso significa não ser a escola a única a possibilitar letramento e também entender a alfabetização não, necessariamente, como letramento (SOARES, 2003).

A dinâmica de interação entre todos os fatores envolvidos nas dificuldades de leitura é destacada por Capovilla e Capovilla (2004a) ao salientarem que nenhum aspecto consiste em um fator causal direto da dislexia, ou seja, nenhum deles isoladamente é a causa única da dislexia. Por exemplo, certas alterações neurológicas podem afetar o desenvolvimento cerebral (fator neurológico) e, consequentemente, prejudicar o processamento fonológico (fator cognitivo). Mas tais alterações somente levarão ao quadro disléxico se o indivíduo estiver exposto a uma ortografia alfabética, isto é, a uma ortografia que mapeie a fala no nível fonêmico (fator ambiental), pois neste caso o processamento fonológico é essencial à aquisição da leitura e da escrita.

Lahire (1997) sugere que a compreensão das dificuldades em leitura só pode se dar a partir das inter-relações entre os vários elementos que compõem o fenômeno. De acordo com esta perspectiva, as causas das dificuldades em leitura não podem ser entendidas a partir de um único dos fatores possíveis: professor, métodos, recursos, escola, sistema, pois elas estão em vários destes fatores, ao mesmo tempo (DORNELES, 1999).

Vimos assim que a leitura é um fenômeno complexo que requer um interjogo de fatores, internos e externos ao indivíduo, ligados a aspectos sociais, psicológicos, orgânicos, pedagógicos, familiares. Se não encararmos os problemas em leitura como sendo originados por este interjogo de fatores, corremos o risco de perder a noção do todo que a leitura envolve. A compreensão das dificuldades em leitura requer, deste modo, não apenas o conhecimento isolado de cada um dos aspectos envolvidos com a atividade de leitura, como também a consideração em seu conjunto, estabelecendo as interações necessárias

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Em síntese, a compreensão da leitura como um processo mental complexo, proveniente da interação de muitos fatores nos possibilita contextualizarmos e problematizamos as dificuldades nesta área. Bem como lembram Ferreiro e Teberosky (1986) e Scoz (1994), é preciso evitar posturas apressadas e/ou rótulos inadequados já que temos visto processos normais de construção e evolução da aprendizagem da leitura sendo encarados como patológicos. Não resta dúvida de que há a necessidade urgente de “despatologizarmos” este campo. Por outro lado, não podemos negar que existem transtornos de aprendizagem em leitura que merecem nossa atenção e estudo cuidadoso.