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International Cooverative Biodiversity Grouvs— (ICBG)

No documento Viabilização de mecanismos de troca : (páginas 110-116)

ANÁLISE CRÍTICA DA BIOPROSPECÇÃO

3.2 Análise crítica de alguns contratos de bioprospecção

3.2.2 International Cooverative Biodiversity Grouvs— (ICBG)

Em 1992, três agências governamentais norte-americanas, o Instituto Nacional de Saúde, a Fundação Nacional de Ciências e a Agência para o Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos, lançaram um programa de desenvolvimento internacional relacionado com bioprospecção, que ficou conhecido como International Cooperative Biodiversity Groups.

Foi lançado um edital, e escolheram-se cinco projetos de bioprospecção com início em 1993. O valor de cada contrato foi de cerca de US$ 450 mil. O contrato prevê intensa colaboração entre os pesquisadores principais, colaboradores e o governo norte-americano, por meio destas agências. A bioprospecção deveria ser feita de forma a manter o desenvolvimento sustentável das regiões onde se desenvolvessem as atividades, implementando novas estratégias de conservação e gerenciamento dos recursos biológicos; realize o screening de organismos para doenças típicas dos países desenvolvidos e dos países de origem, subdesenvolvidos; promova a distribuição eqüitativa dos benefícios angariados.

Os produtos obtidos com princípios ativos eram testados principalmente para doenças como Aids, câncer, doenças cardíacas e problemas mentais.

Como contraprestação, os grupos de pesquisa deveriam também transferir tecnologia para os países de origem dos recursos biológicos, ensinando etnobiologia, etnomedicina, química, biologia celular, biotecnologia, métodos e controle de qualidade no desenvolvimento de novos produtos farmacêuticos, de modo a possibilitar o aprendizado dos países de origem a usar seus próprios recursos19.

A primeira cooperativa de trabalho foi desenvolvida no Suriname20 e teve como participantes o Instituto Politécnico da Universidade Estadual da Virgínia (VPI), a Conservação Internacional (Cl), a Cl-Suriname, o Jardim Botânico do Missouri (MBG), a transnacional farmacêutica Bristol-Myers Squibb, o Herbário Nacional do Suriname e o

18 Grupos Cooperativos Internacionais de Biodiversidade.

19 GRIFO, Francesca T. e DOWNES, David R. Agreements to collect biodiversity for pharm aceutical research: m ajor issues and proposed principies in BRUSH, Stephen e STABINSKY, Doreen. Valuing local

knowledge. W ashington: Island Press, p.287.

Bedrijf Geneesmiddelen Voorziening Suriname (BGVS). O programa tinha como objetivo prospectar novos materiais biológicos com aplicações na indústria farmacêutica e promover atividades de extensão, com a implementação de programas educacionais pelo país.

Os extratos de plantas eram preparados pelo BGVS, a partir de coleções já preparadas pelo Jardim Botânico do Missouri e pela Conservação Internacional. Estes extratos, quando apresentavam princípios ativos, eram remetidos à Universidade de V irgínia, nos Estados Unidos.

Outro ICBG foi desenvolvido no Peru, também para a busca de novos produtos farmacêuticos. Neste caso participaram a Universidade de Washington, o Museu de

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História Natural do Peru e a Universidade Catyetano , o Jardim Botânico do Missouri e a transnacional Monsanto.

Foram procuradas plantas para o tratamento de doenças virais, como herpes e doenças respiratórias, bactérias patogênicas e tuberculose. Procuraram-se plantas já utilizadas para estes fins pelas comunidades locais, com o uso de etnobotânica.

O terceiro ICBG foi realizado na Costa Rica e teve como participantes a Universidade de Cornell, o INBio, a transnacional farmacêutica Bristol Myers Squibb, e se dedicaram à pesquisa de insetos e outros invertebrados com chances de colaborar no descobrimento de novas drogas contra um grande número de doenças. O trabalho foi coordenado pelo INBio e as coletas foram feitas na área de conservação de Guanacaste, no norte do país .

O INBio realiza testes a partir do material coletado para o screening, objetiavndo o tratamento de doenças locais, como a malária, em um projeto conjunto com a Universidade da Costa Rica. A Universidade de Cornell provê treinamento a pesquisadores do INBio e da Universidade em Ecologia e Química. A empresa farmacêutica realiza testes com o material coletado em doenças cardiovasculares e dermatológicas, câncer, anti- inflamatórios .

21 A Universidade Cayetano fica em Lima, Peru. 22 GRIFO, F. T. et al. Obra citada, p.289. 23 GRIFO, F. T. et al. O bra citada, p.289,

O quarto é o ICBG dos Camarões, na África, que abrange Camarões e Nigéria. Participam: o Instituto de Pesquisas Walter Reed Army; o Instituto Smithsonian; o Programa de Suporte à Biodiversidade, que é um consórcio da Fundo para Vida Selvagem (WWF), a Nature Conservancy e o Instituto de Recursos Mundiais (WRI); a Shaman Pharmaceuticals (do grupo Eli-Lilly) e, pelos Camarões, a Universidade de Yaounde.

A prioridade é o estudo da medicina das comunidades tradicionais, como o uso de ervas para a cura de doenças. Procuram-se remédios para leishmaniose, malária, doença do sono africana e triconomose. Foi instalado um laboratório permanente no Parque Nacional de Korup, nos Camarões, financiado pelo Instituto Smithsonian, que provê cursos à estudantes aficanos sobre plantio, cultivo e gerenciamento dos recursos naturais24.

O quinto e último ICBG trabalha em três países da América Latina, com destaque para o Chile, Argentina e México. Como se pode observar, quatro dos cinco ICBG funcionam nas proximidades do Brasil, sem mencioná-lo. Neste contrato, encontram-se as Universidades Católica do Chile, Nacional da Patagônia, Nacional do México, do Estado de Lousiana, Purdue, e a transnacional American Cyanamid Company, de origem norte- americana e que atua tanto no setor farmacêutico, quanto no agrícola25.

As plantas são coletadas nos três países, com preferência para aquelas usadas pelas comunidades locais. Estas são avaliadas quanto à sua eficácia no combate a doenças cardiovasculares, alergias, inflamações, câncer, vírus, bactérias, problemas gastrointestinais, saúde animal e potencial agrícola.

Estudantes de graduação e pós-graduação são treinados para lidar com estas 9 f\

plantas, em destaque em Química, para a extração e processamento desses materiais . As agências norte-americanas “sugerem” que as comunidades locais participem das negociações com as Universidades e as empresas. Principalmente, se houver o uso de etnobotânica e o emprego de curandeiros para ajudar na identificação, coleta e aplicação das plantas envolvidas. Ao menos, as comunidades devem ser informadas sobre a atividade

24 GRIFO, F. T. et al. Obra citada, p.290. 25 Idem, p.290.

de coleta e os fins planejados para o material biológico27. Há também necessidade de concordância do governo do país de origem dos recursos genéticos, em virtude da Convenção da Diversidade Biológica, já assinada pelos Estados Unidos. Neste ponto, ressalta-se que se tratam de entidades governamentais que financiam o programa que tem obrigação moral maior do que as empresas transnacionais de cumprir os acordos multilaterais já estabelecidos.

As informações obtidas devem ser publicizadas, não se admitindo a proteção por segredo de negócio. Nada impede que apenas o conhecimento inicial seja aberto, enquanto que o processo industrial específico, para a fabricação do fármaco com base em uma planta retirada de um destes contratos, por exemplo, seja protegido por patentes ou, mesmo, por segredo de negócio. Se assim não fosse, dificilmente haveria o interesse de tantas empresas transnacionais que atuam apenas quando há garantias de proteção intelectual de seus produtos futuros.

Prevê-se também um período para desistência do contrato, um termo final para o arrependimento das comunidades locais. Os contratos devem ser escritos em linguagem clara e acessível a todos os participantes. Muitas vezes estes contratos devem ser feitos em diversas línguas, com exata correspondência entre seus sentidos, de forma que não deixe dúvidas. As agências norte-americanas sugerem também a participação das comunidades

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indígenas nos contratos. Foi o caso do Peru e dos Camarões . No caso brasileiro, onde os silvícolas são relativamente incapazes, de acordo com a legislação civilista, haveria a necessidade de assistência do órgão de proteção ao índio, no caso, a Funai. Como se trata de um contrato de bioprospecção, haveria que se seguir o trâmite explicado no capítulo II. De qualquer modo, inexistem ICBG no Brasil.

Fala-se em distribuição dos benefícios, em que os recursos angariados com os produtos obtidos devem ser redistribuídos entre os participantes, com destaque para as comunidades que proveram os conhecimentos tradicionais e o material biológico. Tal distribuição deve ser prevista, de forma clara, de tal modo que evite dúvidas posteriores. Prevê-se também uma compensação imediata. Neste sentido, é muito difícil convencer

pequenas comunidades a receberem apenas os valores advindos das vendas de possíveis produtos, que normalmente exigem 10 a 12 anos de pesquisas. Dez anos depois, sequer se lembram do trabalho efetuado e não haveria como provar que se chegou a determinada droga a partir de um planta com origem geográfica em tal ou qual região do planeta, isso que acontece na prática, pois inexiste obrigatoriedade na legislação internacional, de indicação geográfica do material biológico utilizado em produtos e processos farmacêuticos para a concessão de patentes29.

Além da compensação eni dinheiro, há uma contraprestação não monetária, com o estudo de remédios para doenças típicas de regiões de origem, o treinamento de pesquisadores locais em farmacologia, bioquímica e taxonomia, a doação de equipamentos.

Recomenda-se a divisão dos créditos com relação aos direitos de propriedade intelectual, indicando os pesquisares dos países de origem do material biológico. No entanto, nem todos os países aceitam patentes para material biológico, ou mesmo para processos e produtos farmacêuticos. Com a homogeneização legislativa internacional, a partir dos acordos da Rodada Uruguai, prevê-se que, em breve, todos os países possuam normas patentárias para produtos e processos farmacêuticos.

De qualquer forma, outras modalidades de propriedade intelectual, como segredo de negócio, por exemplo, podem e têm sido efetivamente utilizada. Quando se trata de conhecimento sagrado, indígena, existem normas internacionais (ILO 169, e Convenção sobre Folclore - UNESCO), que dispõem sobre a matéria e proíbem o patenteamento. É uma opção que deve ser tomada pelas comunidades indígenas. Na prática, não se observa qualquer autorização; as mesmas sequer são requisitadas.

Muitas vezes as comunidades locais desejam renegociar o contrato durante sua realização, pois pouco têm a perder nestes casos. Assim, as agências norte-americanas recomendam aos ICBGs que realizem contratos com curtos períodos de duração e se programem para tanto, tentando renovar o contrato antes do seu término.

No caso específico da Nigéria, as comunidades locais decidem o quanto será cobrado pela bioprospecção, e como o dinheiro será utilizado; além disso, realizaram um acordo para negociar com o ICBG. Um problema enfrentado pelas comunidades é a própria inexistência de modelos a seguir, pois a maioria dos contratos em andamento não são feitos com comunidades indígenas, mas com Universidades, ou Jardim Botânicos, até porque, até há pouco tempo, não se pensava em compensar os índios pelo seu conhecimento30. Enquanto o conhecimento das empresas farmacêuticas (às vezes o mesmo) era uma poderosa com m oditie, protegido por propriedade intelectual, o conhecimento indígena e o conhecimento tradicional das comunidades locais era entendido como algo público, de livre acesso.

No caso da Nigéria, paga-se 5% adiantado do valor do projeto para o grupo que está ajudando nos trabalhos. Se uma droga for descoberta, mais plantas serão necessárias; e a comunidade se dispõe a fornecê-las, quando receberão somas maiores pelo trabalho. Ainda neste exemplo específico, o grupo entrega 25% do que ganha às comunidades locais.

Prevê-se também uma percentagem sobre o faturamento da empresa com os produtos porventura obtidos. Esta parcela do faturamento é variável, conforme a ajuda da comunidade local, conforme o valor agregado à matéria-prima. Se a mesma fornecer apenas material biológico seco, receberá de 1 a 2% das vendas; se um extrato vegetal, de 3 a 5%; se tratar de um componente químico, de 5 a 7%. Tudo depende do nível de desenvolvimento da pesquisa realizado na origem do recurso biológico.

Metade dos royalties são divididos com o Governo local, o que advém da atenção ao princípio da soberania nacional sobre os recursos genéticos. No caso da Nigéria, para garantir a entrega dos royalties, foi feito acordo com a Universidade de Howard, pois o contrato com uma Universidade americana é mais seguro do que com uma empresa

29 Tal obrigação deveria ser requisito para o patenteamento, como forma de regulam entação da Conferência das Nações Unidas para o M eio Ambiente e Desenvolvim ento 92 e exigida no âmbito da Organização M undial do Com ércio, como estudado no capítulo II.

30 M cGOW AN, Janet e UDEINYA, Iroka. Collecting traditional medicines in Nigéria: Proposal for IPR com pensation in GREAVES, T. Obra citada, p.60-61.

farmacêutica ou com uma cooperativa de empresas, como no caso. É mais fácil à Universidade exigir o cumprimento do contrato do que a comunidade fazê-lo31.

No documento Viabilização de mecanismos de troca : (páginas 110-116)