O ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO E A PROTEÇÃO DA DIVERSIDADE BIOLÓGICA
2.7 Sistema multilateral de comércio e propriedade intelectual
O texto final da lei de patentes foi além do acordo sobre TRIPs da Rodada Uruguai, mas muito aquém do que desejavam os interesses norte-americanos. Embora as disputas diplomáticas no campo internacional para a redação do texto final do acordo sobre propriedade intelectual estivessem estreitamente ligadas às discussões domésticas, as pressões norte-americanas e os lobbies no Brasil eram mais exigentes do que no campo internacional, pois as possibilidades de pressão dos Estados Unidos sobre o Brasil na diplomacia bilateral era maior do que dos Estados Unidos sobre todo o mundo, na negociação multilateral do GATT. De acordo com o então Ministro das Relações Exteriores, Luiz Felipe Lamprea, se a lei de patentes brasileira não tivesse sido aprovada até final de 1996, as sanções comerciais previstas seriam da ordem de US$ 1 a 1,8 bilhão, impostas sobre as exportações brasileiras de suco de laranja concentrado,
calçados, aço e eletro-eletrônicos, setores escolhidos por representarem grande parte da pauta brasileira de exportações e por empregarem grande mão-de-obra, o que poderia ocasionar maior impacto social .
A matéria relacionada à propriedade intelectual (Agreement on Trade-Related Aspects o f Intellectual Property Rights, Including Trade in Counterfeit Goods - TRIPS) é parte da última rodada de negociações comerciais multilaterais do GATT, conhecida como Rodada Uruguai. A Rodada Uruguai do GATT foi a mais longa de todas as rodadas de negociação e durou seis anos. O tema propriedade intelectual foi debatido pela primeira vez, e as pressões norte-americanas e japonesas foram muito intensas sobre todos os demais países, gerando grandes disputas diplomáticas, não apenas entre os países ricos e pobres, em relações Sul-Norte, mas também nas relações Norte-Norte.
O texto aprovado prevê que os países podem excluir da patenteabilidade plantas, animais, microrganismos e processos que originem plantas ou animais53. A única restrição se relaciona com a obrigatoriedade de o país possuir alguma forma de proteção intelectual de plantas, ainda que sui generis (art. 27, 3, b). No caso, o texto refere-se à proteção de cultivares, de acordo com a UPOV.
Interessa notar que este é um dos únicos pontos do TRIPS, no qual se faz expressa menção de futura análise pela Organização Mundial do Comércio (OMC), após determinado tempo, no caso, quatro anos. Espera-se que, a partir de 1999, as discussões se reiniciem no âmbito da OMC e as pressões norte-americanas aumentem, no sentido de possibilitar a obrigatoriedade do patenteamento internacional de novos seres vivos.
Com relação aos produtos farmacêuticos, o acordo prevê a obrigatoriedade de patenteamento. O texto final impulsionou a aprovação no Brasil do patenteamento de produtos e processos farmacêuticos, uma vez que qualquer infração ao acordo pode dar origem a reclamações (paneis) no campo internacional; as quais, por sua vez, podem
52 LAM PREA, Luis Felipe. Pronunciamento do senhor Ministro de Estado das Relações Exteriores,
em baixador Luis F elipe Lamprea, na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado Federal. Brasília: 10
de agosto de 1995, mimeo, p. 12.
53 O Prof. Carlos Correa, da Universidade de Buenos Aires, levanta um a questão interessante sobre as am bigüidades do texto final do TRIPS. O texto fala em processos biológicos e não-biológicos para a construção de plantas. A questão é saber qual o critério para saber se um processo para construção de plantas é ou não biológico. Pela lógica, todo o proceso que origina um ser vivo é biológico, e a distinção seria n u la In CORREA, C. M. Obra citada, p.214.
ocasionar sanções por parte de diversos países, inclusive os Estados Unidos, mas agora com o aval do sistema multilateral de comércio.
2.8 Vantagens da propriedade intelectual para os países ricos em
biodiversidade
Existem também vantagens decorrentes da aceitação internacional de patentes para microrganismos e proteção de cultivares, vantagens estas que os países do terceiro mundo apenas agora começam a explorar. Um dos principais pontos positivos da aceitação de patentes sobre processos e produtos farmacêuticos é que o Brasil cria um espaço político para poder exigir que as empresas que detenham propriedade sobre produtos ou processos patenteados, que utilizem organismos vivos originários da diversidade biológica brasileira (do seu território), obrigatoriamente retribuam ao país com desenvolvimento. No caso, seria necessário indicar a origem geográfica do material biológico utilizado em cada invenção.
Ao se ter certeza da origem geográfica, haveria possibilidade de exigir uma contraprestação pela retirada do organismo. A origem geográfica dos organismos vivos utilizados nas pesquisas que contribuíram para o seu resultado final deve ser um dos requisitos para a concessão de patentes ou de qualquer outra modalidade de proteção intelectual. Como se trata de matéria comercial, deve ser discutida no âmbito da Organização Mundial do Comércio, como forma de regulamentação da Convenção da Diversidade Biológica e da Agenda 21. Como bem dizem os textos internacionais, o desenvolvimento econômico (OMC) deve ser realizado de forma eqüitativa e sustentável, e os países do terceiro mundo têm o direito internacionalmente garantido de participar da distribuição dos benefícios advindos do uso de seus próprios recursos naturais.
A contraprestação poderia operar-se em forma de recursos financeiros, tecnológicos, científicos, o que pode ser feito de diversos modos54. No entanto, a legislação brasileira em momento algum se refere à obrigatoriedade da indicação da
54 As modalides de desenvolvim ento sustentável advindos do uso da biodiversidade serão estudados no capítulo IV.
origem geográfica; e, embora a matéria esteja sendo discutida no âmbito da OMC53, e o Brasil seja o maior interessado, este tem se mantido ausente das discussões56.
2.9 Conclusões parciais
legislação brasileira é ineficiente no que tange à proteção do acesso aos I
recursos genéticos ou ao incentivo ao desenvolvimento através do uso sustentável da biodiversidade. Com relação ao combate à biopirataria, inexiste no Brasil qualquer norma legal em vigor, com destaque apenas para alguns decretos e portarias que regulam a realização de expedições científicas por estrangeiros no território nacional.
Mesmo em se tratando das expedições científicas, as normas infra-legais se demonstram ineficazes e, em muitas ocasiões, sequer os órgãos públicos conveniados com entidades nacionais as fazem respeitar. Neste sentido, a grande maioria das expedições científicas realizadas no Brasil é feita sem qualquer fiscalização.
v Os tratados internacionais são muito amplos, o que implica a necessidade de uma regulamentação nacional, que não existe. Embora haja normas genéricas a serem seguidas pela comunidade internacional, na prática também elas são ineficazes.
É necessária nova regulamentação capaz de incentivar a conservação da diversidade biológica e promover o desenvolvimento a partir do uso sustentável desta biodiversidade. A atividade de bioprospecção deve ser aprovada previamente pelo Poder Público, como estipula a CNUMAD 92 e em termos aptos a possibilitar a transferência de tecnologia, bem como o desenvolvimento regional e nacional. Também é importante o fortalecimento de um sistema de propriedade intelectual apto a atingir esses objetivos.
*^f£ara que sejam apresentadas propostas concretas para a solução destes problemas, é necessário estudar o que vem sendo realizado no cenário internacional, em destaque no tocante à bioprospecção, abordando as cláusulas que tratam da contraprestação oferecida pelas entidades internacionais, a distribuição dos direitos de
55 A índia iniciou um p a n ei na OMC, que não foi aceito pela Organização, encontrando-se hoje em grau de recurso.
56 É o m aior interessado, pois é país de maior biodiversidade do mundo e com maiores possibilidades de desenvolvim ento, por possuir um grartde parque industrial, massa crítica, satélites e equipam entos de fiscalização m elhores que os demais países.
propriedade intelectual e a validade desses contratos sob a ótica da legislação brasileira. Tal estudo será desenvolvido no próximo capítulo.