A morte é um fenômeno inevitável da biologia, e todos os seres vivos passam pelo mesmo processo, mas só o homem tem o hábito de sepultar e visitar seus mortos.
Antonius Robben antropologista diz que é um consenso universal “nenhuma cultura no planeta deixa o corpo sem um ritual”. Existem inúmeros métodos de inumação desde as primeiras civilizações registradas, a maneira de descartar o cadáver sempre é usualmente de forma cuidadosa e detalhada, mas nem sempre o homem se preocupou com o meio ambiente. Nos primórdios da humanidade, o homem, que sempre estava em movimento despojava seus mortos em covas rasas, pelos lugares onde passava (DILLEHAY, 2015).
Os Egípcios foram uma das primeiras civilizações catalogadas preocupadas a realmente criar um lugar para os mortos, mas não as conhecidas pirâmides dos faraós. Segundo Montet (1989), os mortos comuns eram enterrados em túmulos abandonados no deserto, semelhantes aos ossuários da atualidade. Já os mais abastados, tinham condições de construir seus sarcófagos1 adornados, mas todos eram sepultados junto a utensílios para serem usados na vida após a morte. Já segundo Fargette-Vissière (2009), no império Romano os mortos eram sepultados fora das cidades próximo às estradas ou, com menos frequência, cremados. Apenas com a disseminação do cristianismo a cremação passou a ser proibida.
O termo "cemitério" começou a ser mais usado pelo cristianismo, (grego koimetérion, local de repouso), tem como sinônimos campo santo, última morada, carneiro, necrópole, sepulcrário. E os cemitérios, da maneira como são utilizados hoje, só apareceram em plena Idade Média, daí em diante surgiu a tendência de aglomerar os sepultamentos em lugares sagrados, na expectativa do Juízo Final e ressureição dos corpos Fargette-Vissière (2009).
Reis (1991) contam que as necrópoles eram anexadas e totalmente ambientadas à vida das cidades, que, embora contra as leis municipais e a decência religiosa, reiteradamente serviam de locais de pastagem, jogos, atalhos, depósito de lixo, banheiro público, bailes, moradas de mendigos, locais de namoro e feiras livres.
1 Em grego – sarx = carne, phagos = comer) significa literalmente “comedor de carne”. É um tipo de túmulo de pedra onde se deposita um cadáver, geralmente mumificado, para sepultamento usado no antigo Egito (DICIONARIOINFORMAL, 2012).
Jaques Heers faz uma associação direta entre as igrejas e os cemitérios paroquiais, que eram locais de integração entre o sagrado e o profano lugares que celebravam carnavais e festas populares. “Uma sociedade em que coabitavam os vivos e os mortos, em que o cemitério se confunde com a igreja no coração da cidade”
(VOVELLE, 1976 apud AÍRES, 1977, p. 126).
Era comum nas sociedades do século XVIII, a convivência entre vivos e mortos, a morte não inspirava medo, não existia o pavor espiritual nem físico. Essa
“versatilidade” dos cemitérios europeus continuou como prática comum até o século XIX, quando foram deslocados para longe dos centros das cidades.
O Brasil do final do século XVIII não dava muita atenção aos sepultamentos, conforme relata Faria (1999). Por exemplo, os mortos eram transportados em esquifes de suas confrarias e sepultados vestidos com mantos (já que na época, não existiam ainda os caixões atuais)2. Caso cristão, o morto seria sepultado na igreja;
se escravo e cristão, no cemitério ao lado da igreja, em caso de outra religião, era sepultado em covas rasas ou teria o corpo doado para dissecação, o que era o mais comum, já que os cadáveres eram bastante disputados por médicos e acadêmicos para fins de estudo (ROACH, 2015).
Mas, em todos os casos, sem nenhuma preocupação ambiental:
Na França, uma nova atitude diante da morte e dos mortos se delineou ao longo do século XVIII no rastro do iluminismo, do avanço do pensamento racional, da laicização das relações sociais, da secularização da vida cotidiana. (REIS, 1991, p. 74).
Por aqui só no início do século XIX, é que o Brasil começa a tirar os cemitérios das igrejas e consequentemente dos grandes centros, copiando os modelos europeus. Estes, por sua vez, já começavam a se preocupar com as razões sanitárias (REIS, 1991).
Segundo Kemerich et al, (2014), é possível observar que o modelo aplicado no Brasil (amplamente copiado do modelo europeu) é, em si, uma fonte de problemas de ordem ambiental e que terminam por colaborar para impactos negativos e sociais. Isto porque, conforme a Fundação Nacional de Saúde (FUNASA, 2007) muitos dos moradores próximos aos cemitérios fazem uso de águas que muito possivelmente estão contaminadas com resíduos causados pelos processos de
2 Os caixões, ao contrário que muitos pensam, foram criados não para proteger o meio ambiente, mas por conta da disputa entre escravos e libertos. Os libertos do século XIX no Brasil não queriam ser sepultados da mesma maneira que os escravos, já que estes tinham solicitado a coroa, a
produção de esquifes próprios e assim, os libertos começaram a construir seus caixões (REIS, 1991).
decomposição dos corpos, materiais usados no embalsamento, resíduos dos caixões, roupas, medicamentos e até radiação podem ser agentes de contaminação.
O modelo europeu em geral é pouco arborizado, e a nossa região com sol praticamente o ano todo requer um modelo diferente de cemitérios:
Campina Grande localizada a 130 Km do litoral paraibano, com 96 Km de área urbana, cuja temperatura média anual oscila em torno dos 22 graus centígrados, podendo atingir 30ºC nos dias mais quentes 15ºC nas noites mais frias do ano, a umidade relativa do ar, varia entre 75 a 83%.
(COELHO, 2004).
Os cemitérios são fontes potenciais de impactos ambientais, principalmente quanto ao risco de contaminação das águas subterrâneas e superficiais por bactérias e vírus que se proliferam durante os processos de decomposição dos corpos, além das substâncias químicas liberadas. Com base nessas informações sabemos que: quando esses cemitérios foram idealizados não existiam normas especificando a construção, nenhum estudo de solo e tão poucos serviços de saneamento, embora eles constituam um grande potencial para contaminação (FUNASA, 2007).
As necrópoles mais antigas foram construídas fora das cidades, mas nos grandes centros urbanos já integram as regiões centrais, O trabalho visa buscar métodos ecológicos de sepultamentos na cidade de Campina Grande, contribuindo para reduzir o déficit de covas rotativas e propiciar áreas verdes e de socialização:
a) confrontar os métodos de sepultamentos aplicados na cidade e propor uma solução que cause menos impacto ambiental;
b) contribuir para a redução da escassez de árvores em campina grande, priorizando árvores nativas;
c) estimular o convívio social com a criação de um espaço público e seguro, que busca desmistificar o fúnebre, de modo a amenizar os impactos sociais, psicológicos e ambientais.