BEM COMUM - O EMERGENTE PARADIGMA DO CONSTITUCIONALISMO CONTEMPORÂNEO
3. INVIOLABILIDADE À LIBERDADE DE CONSCIÊNCIA E DE CRENÇA
malferimento do direito à imagem. 0 mero uso da imagem sem autorização, como a estampa de fotografias em revistas, gera constrangimentos e dá causa ao ressar
cim ento.18 Não mais se aplica a tarifação do valor dos danos, na forma prevista na Lei de Imprensa,19 muito menos a decadência do direito de pleitear danos morais causados pela atividade da imprensa.20
ga-se, por conseguinte, a outra faceta da liberdade religiosa: a atuação ponderada do Estado em permitir o pluralismo de crenças, seja abstendo-se de refreá-lo; seja atu
ando comissivamente para prestigiá-lo. É por essa causa que ao Estado Democrático de Direito torna-se impeditivo subvencionar ou estimular expressões religiosas de modo discriminatório ou orientado a conferir privilégios.23
3 .1 .2 . Liberdade de consciência
O indivíduo, ao se autodeterminar, pode escolher entre o teísmo, o ateísmo e o agnosticismo. Essa é a decisão primária, de nível consciente, que o homem livre deve e pode fazer. Sua relação como divino, o sobrenatural e o metafísico integra o âmbito de liberdade e de autodeterminação. É a liberdade de consciência e de escolha.24
A consciência é uma forma de autodeterminação, vinculada às escolhas men
tais do indivíduo quanto à concepção do mundo e de seus valores, o que implica um universo de decisões formadas no foro íntimo. A liberdade de consciência vincula- se à categoria geral de liberdade de pensam ento.25
3 .1 .3 . Conteúdo jurídico da liberdade religiosa
A ideia-núcleo de liberdade religiosa compreende um conteúdo positivo, inte
grado pelos seguintes elementos:
a) Liberdade de escolha e liberdade de crença: Definindo-se como um indivíduo teísta, o ordenamento jurídico reconhece-lhe a liberdade de crença. A fé religiosa não é mais herdada dos pais ou de um príncipe soberano no território em que nasce a pessoa natural. Cabe ao sujeito capaz a escolha político-jurídica de ter ou não uma fé e, em se optando por ser um crente, de adotar a denominação mais adequada à forma de ver o mundo e seu Criador. A liberdade de religião implica a liberdade de crença, com isso, abre-se-lhe o direito de escolher uma fé religiosa, alterar seu vínculo com a igreja escolhida ou ainda deixar de acreditar em determi
nada expressão da religiosidade. Poderá haver liberdade de crença sem liberdade de culto, como ocorreu no Império.26
b) Liberdade de culto: Esse elemento é assegurado em todas as Constituições do período republicano, refere-se ao modo de celebração dos ofícios religiosos (se público ou privado), bem assim à forma de expressão e de proselitismo religioso.
Insere-se na liberdade de culto a informação e o ensino religioso, que, no Brasil, na forma da lei, deve respeitar a individualidade dos cidadãos e impedir a união entre Estado e igrejas.27
23 Art. 19, inciso I, CF/1988.
2 4 BVerfGE 1 9 ,1 2 9 . 25 BVerfGE 12,1.
2 6 GODOY, Arnaldo Moraes. "A liberdade religiosa nas constituições do Brasil". In: Revista de Direito Constitucional e Internacional. São Paulo: RT, vol. 9, nc 34, pp. 155-167, jan.-mar./2001. p. 156.
2 7 Artigo 210, § I o, CF/88.
1 0 1
A liberdade religiosa também contempla um conteúdo negativo, a esfera jurí
dica na qual se vedam, proíbem e sancionam comportamentos contrários ao direito de outrem no plano religioso. Esse conteúdo negativo é formado pelas seguintes restrições: á) Ninguém pode ser obrigado a adotar, seguir ou abandonar certa ou determinada religião, muito menos a assistir a cultos ou a receber assistência ou material religioso que não deseje, b) Não é dado a quem quer que seja coagir pes
soas a perm anecer vinculadas a religiões, seja por meio de atos de caráter coativo, doloso ou afins, c) Proíbe-se a discriminado ou a diferenciação entre as pessoas em decorrência de suas práticas religiosas ou sua fé.
3 .2 . Princípios Jurídicos d eco rren tes da Liberdade Religiosa na Constituição de 1 9 8 8
A CF/88 é de orientação teísta, pois Deus não foi esquecido em seu preâmbulo.
Ademais, a CF/88 é aconfessional, pois não adota religião oficial no Estado brasilei
ro. Ressalve-se que o fato de ser a CF teísta não impede que os Estados-membros, o Distrito Federal e os municípios adotem em seus textos fundamentais a forma ateísta.28
Os princípios jurídicos decorrentes da liberdade religiosa podem ser assim enunciados:
á) Princípio da igualdade religiosa subjetiva. Esse princípio traz em seu con
teúdo a vedação genérica a que se criem privilégios, benefícios ou vantagens pela adoção de qualquer credo religioso. Outrossim, como contraface desse princípio tem-se a proibição a que se prejudique, persiga ou que se prive de qualquer direito um indivíduo por força de sua opção no âmbito do pluralismo religioso. É o que a CF/88 assegura como direito fundamental em seu artigio 5 o, inciso VIII.29Na Euro
pa, até o início do século XX, existiam em diversos estados regras discriminatórias quanto ao acesso a cargos públicos, funções estatais, títulos nobiliárquicos, cáte
dras universitárias e altas patentes nas Forças Armadas a pessoas de credo incom
patível com o oficialmente acolhido em determinado país. De outro lado, a adesão a certa doutrina religiosa poderia ser a senha de ingresso em posições de destaque na sociedade, ao estilo das leis em vigor. Essa é uma realidade que, se presente nos dias contemporâneos, ofuscaria o princípio da igualdade religiosa subjetiva.
b) Princípio da isonomia das entidades religiosas.30 Consiste na vedação a que o Estado proteja, crie, subvencione, estimule, financie, ampare ou dê tratamento
28 "Não constitui norma central. Invocação da proteção de Deus: não se trata de norma de reprodu
ção obrigatória na Constituição estadual, não tendo força normativa" (STF, ADI n° 2.076, Rei. Min.
Carlos Velloso, julgamento em 15.08.2002, DJ de 08.08.2003).
29 "Ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei".
30 No direito francês, prefere-se dizer "princípio do igual valor das religiões" (PRÉLOT, Pierre-Hen- r i."Les religions et Végalité en droitfrançais". In: Revue du Droit Public et de Ia Science Politique en France e t à LEtranger. Paris: LGDJ, vol. 117, nQ 3, pp. 737-775, mai.-jun./2001. p. 738.
1 0 2
preferencial a qualquer igreja ou comunidade religiosa. A igualdade jurídico-formal das igrejas é insuficiente. Devem ser elas paritéticas em face do Estado no plano material.31 A sede desse primado é o artigo 19, inciso I, CF/88. Ao Estado é ressal
vada, na forma da lei, a “colaboração de interesse público" com as igrejas, hipótese que será melhor versada adiante, no item relativo ao princípio da colaboração.
c) Princípio da separação institucional. É o princípio que expressa a distinção jurídico-política dos organismos religiosos e o Estado. Sob a égide desse princípio, manifestam-se as seguintes conseqüências: i) não é permitido ao Estado interferir na nomeação ou no afastamento de líderes religiosos; ii) a organização interna das igrejas e comunidades religiosas é infensa ao controle político, doutrinário ou eco
nômico do Estado;32 iii) o Estado Democrático de Direito pode ser teísta.
d) Princípio da aconfessionalidade. Esse princípio é marcado pelas seguintes características: i) não é compatível com a liberdade religiosa, assegurada pelo Es
tado Democrático de Direito, a adoção de fé religiosa oficial; ii) o Estado não tem autoridade em questões de fé, não se manifesta, influencia ou interfere na economia teológica interna das religiões.
e) Princípio da colaboração. Esse primado excepciona o regime de esferas dis
tintas entre o Poder Público e as igrejas. A CF/88 assegura a cooperação legal en
tre o Estado e as religiões, em ordem a que se realize o bem comum e o interesse público.33 Identificam-se nesses conceitos jurídicos indeterminados a cooperação em atividades assistenciais; a promoção dos direitos humanos; a formação cultural e educacional dos cidadãos; as campanhas educativas e preventivas no âmbito da Saúde Pública, do Trânsito, do Meio Ambiente e Cidadania. Nada mais conveniente que o uso dos púlpitos e das áreas eclesiásticas para divulgação de campanhas de vacinação ou de incentivo à cultura da paz. 0 que não se pode admitir e aceitar é a escolha privilegiada de interlocutores religiosos, especialmente com repasse de verbas públicas, em detrimento do princípio da isonomia religiosa subjetiva e da isonomia institucional.34
f) Princípio da tolerância. A tolerância implica a aceitação das diferenças reli
giosas; o acatamento às formas de culto; o respeito ao proselitismo; a coibição do proselitismo abusivo, como o emprego de formas de pregação que ultrapassem os limites da liberdade de consciência.
g) Princípio da adequação cultural. Em nome da liberdade religiosa, não se pode eliminar os elem entos formativos histórico-culturais do povo e do Estado brasileiros. A liberdade assegurada no inciso VI deve conter em seu suporte fatico a preservação de figuras e institutos radicados na memória popular, nos hábitos, costumes e nos signos comunitários. Pode-se afirmar que houve a transcendência desses signos do plano estritam ente religioso para o cultural. Nesse campo estão situados crucifixos, imagens, estátuas, monumentos religiosos, nomes de ruas e ci
31 BVerfGE 1 9 ,1 . 32 BVerfGE 1 9 ,2 0 6 .
33 Artigo 5°, inciso VIII, parte final, CF/88.
3 4 BVerfGE 3 0 ,4 1 5 .
1 0 3
dades, e outros símbolos que transitam entre Religião e Cultura, dois segmentos igualmente protegidos na CF/1988.35
3 .3 . Símbolos Religiosos
A utilização de símbolos religiosos em espaços privados ou em templos não desperta maiores questionam entos atualmente. É decorrência da liberdade de cul
to. Situações como a presença de crucifixos em espaços públicos ou estatais, no entanto, é m atéria controvertida. A Corte Constitucional alemã, no célebre caso do
"Crucifixo da Baviera", examinou a pretensão de pais que desejavam a retirada dos crucifixos das escolas daquele Lander alemão, que possuía regulamento prevendo a existência desse objeto de piedade em todas as salas de aula. A Corte rejeitou a tese de que o crucifixo ligava-se à tradição cultural do Ocidente e, portanto, não poderia ser encarado como exclusivo objeto de caráter religioso. Sua presença seria ofensiva do direito dos que não professam a fé cristã e não seria a religiosidade de alguns dos alunos elemento capaz de justificar sua presença no estabelecimento.
A justificativa de que a cruz se tornou elemento da cultura, sem necessiariam ente possuir cariz de "reverência religiosa" desm erece sua função teológica na comuni
dade cristã.36 No Brasil, o Conselho Nacional de Justiça decidiu que a permanência de crucifixos em salas de audiência não é ofensivo ao texto constitucional. Nos fun
damentos da decisão administrativa do CNJ, prevaleceu a tese de que esse objeto ultrapassa os limites religiosos e conserva vínculos culturais com a sociedade bra
sileira. 0 princípio da adequação cultural, na forma como enunciado acima, é o meio hábil para resolver o impasse.
3 .4 . Form ação Religiosa de M enores
Compete aos pais, quanto à pessoa dos filhos menores, dirigir-lhes a criação e educação.37 Essa é uma das atribuições decorrentes do poder familiar. Essa prerro
gativa açambarca o poder de determinação das convicções religiosas dos filhos pelos pais. Compete aos pais o direito de manter a criança afastada da religião (ou de cer
tas manifestações religiosas) ou de inseri-la no mundo religioso, conforme se consi
derem boas ou corretas as convicções determinantes.38 Adquirida a capacidade civil, o sujeito torna-se auto determinado e poderá assumir essas escolhas de modo pesso
al, inclusive sem consultar as opiniões de seus genitores ou familiares. Nada impede, contudo, que o poder familiar, na parcela da liberdade religiosa, sofra a sindicância do Estado, por provocação do Ministério Público ou de outros legitimados, quando
35 Art.215, CF/1988.
3 6 BVerfGE 9 3 , 1 (decisão por maioria, com três votos dissidentes bem fundamentos). Para análise aprofundada e crítica da decisão alemã: CAYGILL, Howard; SCOTT, Alan. "The basic law versus the basic norm? The case of the bavarian crucifix order". In: Political Studies, vol. 44, nQ 3, pp. 505- 5 1 6 ,1 9 9 6 .
37 Art. 1.634, CC/2002.
38 BVerfGE 41, 29.
1 0 4
houver prejuízo ao interesse do menor. Tem sucesso, nessa hipótese, o princípio do melhor interesse da criança. A liberdade religiosa não pode servir de fundamento a abusos e desvios morais ou sociais na formação plena e saudável da juventude.
3 .5 . Direito de Culto e Sacrifício de Animais
É prática ritual em algumas religiões o sacrifício de animais. Em 1993, a Supre
ma Corte dos Estados Unidos analisou o direito de normas municipais vedarem essa prática por denominações religiosas. 0 julgamento concluiu pela impossibilidade de ser impor restrições a esses cultos, sob a consideração de que a garantia constitucio
nal de liberdade religiosa foi afrontada pela norma local, que suprimiu elemento nu
clear do culto da denominação religiosa. Na prática, segundo o relator, Justice Kenne- dy, a ordenança municipal atingiu a essência da prática religiosa, inviabilizando-a. 0 interesse público não poderia destruir a liberdade religiosa, por mais relevantes que fossem as preocupações com os maus tratos aos animais sacrificados.39 Na doutrina, há opinião considerando que as sevícias em animais, ditos "não-humanos", ainda que por fundamento religioso, não são lícitas. A crueldade com animais, na forma como coibida pelo STF no caso da "Farra do Boi",40 também haveria de ser vedada nos cultos.41 Recorde-se que a cláusula geral dos bons costumes foi suprimida como condicionante constitucional expresso da liberdade religiosa.42
4 . ASSISTÊNCIA RELIGIOSA
A assistência religiosa é a oferta ou disposição de serviços espirituais, de con
forto, aconselhamento e culto, por sacerdotes ou líderes religiosos, a quem deles necessitar, em estabelecim entos civis ou militares de internação coletiva.
4 .1 . A ssistentes e Assistidos
Os assistentes serão pessoas integrantes de denominações religiosas, admiti
dos a entrar em estabelecim entos civis ou especialmente selecionados para essa função em estabelecim entos militares, os quais integram a estrutura hierárquica da corporação, em geral, sob a denominação "capelães". A assistência em locais civis pode-se sujeitar ao poder de polícia da autoridade máxima do estabelecim ento, a qual poderá criar certas restrições de horário e de atuação dos religiosos, com vis
tas a impedir danos ao tratam ento de saúde ou perturbação aos que não desejam receber conforto espiritual, por convicções pessoais. A garantia de assistência não
39 Church of the Lukumi Babalu Aye v. City of Hialeah, 5 0 8 U.S 520 (1993).
40 STF, RE ne 153.531/SC, Rei. Min. Francisco Rezek, Rei. p/ o acórdão Min. Marco Aurélio, julga
mento 10.06.1997.
41 LOURENÇO, Daniel Braga. "A liberdade de culto e o direito dos animais não-humanos". In: Re
vista de Direito Constitucional e Internacional. São Paulo: RT, vol. 13, nc 51, pp. 295-318, abr.- jun./2005. pp. 313-318.
42 GODOY, Arnaldo de Moraes. Op. cit., pp. 165-167.
105
implica admissão franca de proselitismo religioso, morm ente para os que a ele se recusam a submeter. Nos estabelecim entos militares, a assistência é privativa dos oficiais integrantes dos corpos de capelania. Caberá à autoridade militar compe
tente definir os quantitativos de capelães por denominação religiosa, conforme se atenda ao interesse público e à máxima eficácia da norma constitucional do inciso VII. Os assistidos são os internos dos estabelecim entos mencionados no inciso VII (penitenciárias, hospitais, colégios internos).
A lei disporá sobre a concretização da assistência religiosa, estabelecendo nor
mas específicas sobre: a) os destinatários da assistência; b) a possibilidade de sua participação como auxiliares dos cultos; c) os objetos que podem ser introduzidos no estabelecim ento de internação coletiva, com finalidade piedosa; d) a existência de locais apropriados para a realização da assistência religiosa, bem assim a com- partição de horários e de espaços entre as diferentes denominações; e) o direito de qualquer interno de participar ou deixar de fazê-lo das atividades de assistência religiosa.
5. DIREITOS POLÍTICOS, CRENÇA RELIGIOSA E CONVICÇÃO FILOSÓFICA OU