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O passado como escravizado da pessoa negra, como se pode observar, ainda tem forte influência em todos os espaços e instâncias da sua vida social. Neste sentido, é notório a presença

de um poder, que segundo Bourdieu (1989), está presente em todas as instâncias da vida, contribuindo para organizar a socie- dade. No caso da pessoa negra, parece não ser diferente. Esse sistema de opressão é mais hostil com esta fatia da sociedade, sendo capaz de marcar e naturalizar, concedendo, inclusive, o

status de cidadania e subalternidade, sobretudo, por conta da

invisibilidade da população negra.

Neste sentido, Spivak (2010), que faz parte do Grupo de Estudos Subalternos, considera que as minorias populacionais são consideradas cidadãos subalternos. Nesse aspecto, a po- pulação negra está incluída na subalternidade. Vale destacar, que a condição de subalterno não está ligado a qualquer po- pulação marginalizada ao fato de ter voz ou não, mas de poder produzir seu próprio discurso, a partir de suas palavras e da sua perspectiva. E a pessoa negra não tem essa oportunidade. A sua história, vivência, cultura e identidade, encontradas nos registros, como livros didáticos, ainda são contadas através da visão dominante colonialista pertencente ao branco.

Em vista desse cenário de exclusão e marginalização da população subalterna, Spivak (2010) é contundente em afirmar que intelectuais pós-coloniais não devem falar pelo outro, esse comportamento apenas continua fortalecendo as estruturas de opressão que existem em sociedades como o Brasil, deixando o cidadão subalterno, mais uma vez, sem voz e sem oportu- nidade de construir suas próprias narrativas. Os intelectuais, jornalistas e pesquisadores precisam parar de emudecer a po- pulação subalterna. Essa perspectiva de Spivak de dar voz à população subalterna é um processo importante, necessário

para garantir a pluralidade de falas, de fenotípicas e etnias que compõem o Brasil. Uma maneira de diminuir a desigualdade e ainda garantir a multiplicidade de identidades que existem e são descaracterizadas todos os dias. Especificamente, no caso da população negra, esta é a possibilidade de corrigir as atro- cidades vivenciadas por este cidadão.

É através do conceito de subalternidade de Spivak (2010) que se desvela a ideia de silenciamento, manifestado no que se refere ao fato da existência de um emudecimento discursivo de um grupo, no caso a população negra. Em tal relacionamento, surge a presença da Hipótese da Espiral do Silêncio.

A Teoria da Espiral do Silêncio, proposta pela cientista alemã, Elisabeth Noelle-Neumann, tem o objetivo de explicar a questão das minorias silenciosas nas sociedades democráticas, esclarece Temer e Nery (2015). Para Neumann (1995) existe uma tendência do grupo sem expressão social não acompa- nhar a opinião da maioria. Assim, basicamente, observou a existência de uma opinião, ou ponto de vista, dominante capaz de emudecer algumas pessoas que compõem a sociedade. Isso ocorre por conta das pessoas e/ou grupos terem medo do isolamento, falta de confiança e até baixa autoestima, explica Neumann (1995). Desse modo, é explicado em algumas situa- ções, o silenciamento e até o comportamento do negro quando são levantadas questões pela mídia, por exemplo.

Assim sendo, vê-se a necessidade de intelectuais, comunica- dores e jornalistas darem voz a população subalterna. Afinal, “os meios de comunicação atuam na construção da realidade social e ao silenciar algo, tornam a realidade construída incompleta e

não representativa” (MENDONÇA e BRAGA, 2015, p.4). Ou seja, além de emudecer, a espiral do silêncio também pode pro- duzir uma falsa representação social, baseada na desconstrução de uma identidade, história, valores, vivências e até culturais de um grupo. Ademais, ao dar voz à população subalterna, no caso da pessoa negra, apresentaria a chance de operar uma resistência mais eficaz contra o discurso hegemônico adotado pelo branco que oprime, marginaliza e segrega.

Outro conceito que é apontado, através da noção de su- balternidade, está relacionado ao status de cidadania. Neste sentido, o modelo de cidadania de Marshall, um dos primeiros teóricos a desenvolver o conceito de cidadania, ainda adapta-se na estrutura social na qual estamos inseridos. Marshall (1967) explica que “a cidadania é um status concedido àqueles que são

membros integrais de uma comunidade. Todos aqueles que possuem status são iguais com respeito aos direitos e obrigações

pertinentes ao status” (MARSHALL, 1967, p.76). Para ser um

indivíduo com o status da cidadania reconhecida, é necessário

ter merecimento, ser aceito e concebido pela sociedade. Exercer a cidadania plena significa ter direitos civis, políticos e sociais, completa Pinsky (2008). Seguindo essa lógica interpretativa, é observável que o negro ainda não obteve esse merecimento. Em síntese, não possui seus direitos civis, políticos e sociais reconhecidos. A pessoa negra é subalternizada, invisível para os ‘cidadãos’ que compõem a sociedade, sendo emudecida e proibida de construir suas próprias narrativas.

Já para Cirino e Tuzzo (2016), o cidadão pleno, completo, é aquele que tem acesso aos direitos, cumpre os deveres, têm

poder de consumo e um desempenho plausível no meio social. Esse conceito, leva em consideração o fato de a sociedade atual ser marcada pela busca incessante do consumo. A partir dessa compreensão, é demonstrado que o status de cidadania é

concebido através da lógica capitalista. É considerado cidadão aquele que possui maior poder econômico. Desta forma, a pes- soa negra também não possui a sua cidadania plena atribuída, já que ainda existe uma parte considerável da população negra que está vivendo na pobreza e com difícil acesso as condições de vida básicas como saúde, segurança e educação.

Logo, considerando todo o contexto de concessão do

status cidadania no Brasil, Jessé de Souza (2003), em seu livro A construção social da subcidadania, destaca que o indivíduo que

não possui o reconhecimento social e político passa a compor o grupo dos subcidadãos, ou seja, o grupo dos não-pertences, anulados, reconhecidos da “ralé”. Então, a pessoa negra é re- conhecida nesta categoria, excluído, marginalizado do espaço da cidade, condicionado em favelas e periferias, invisível e su- balternizado, sem o direito de usar a própria voz para construir suas próprias narrativas.