James (cf. JAMES, 1907, p.27-29) aponta que, quando uma ideia apresenta valor para a vida concreta, quando ela é boa para os propósitos da vida, ela deve ser reconhecida como verdadeira. Essa afirmação, que associa a noção de verdade com aquilo em que é bom e proveitoso acreditar, assumindo a verdade enquanto valor, é problemática e expõe o pragmatismo jamesiano a dificuldades importantes. James chega a dizer que “uma ideia é verdadeira na medida em que acreditar nela é proveitoso para nossas vidas... Se o que fazemos com o seu auxílio é bom, deixaremos que a ideia em si seja boa com o que vem, pois estaremos melhor possuindo-a” (JAMES, 1907, p.28). James, nesse momento, considera a verdade uma espécie de bem, dizendo que “Verdadeiro é o nome do que prove ser bom no sentido da crença” (JAMES, 1907, p.28). Aí está, inclusive, mais um exemplo do que me parece mais problemático em James. Seu modo intenso de se expressar o impele a apresentar cada característica que levanta sobre a verdade como uma definição da verdade, o que expõe seu sistema a importantes problemas. Apenas considerando uma leitura ampla de seus textos podemos relativizar as colocações fortes e aparentemente definidoras que James faz sobre a verdade.
Mesmo que ele próprio se questione que pode ser considerado um abuso chamar as ideias de verdadeiras por essa razão (cf. JAMES, 1907, p.28), essa ideia é forte no seu pragmatismo e pode levar a consequências problemáticas. James acaba parecendo associar simplesmente a verdade ao valor de ser uma ideia boa para a vida concreta, afastando-a da exigência com a qual em outros momentos ele próprio diz concordar, qual seja, o de acordo com a realidade .
Uma forma de interpretar a atenção de James à verdade como um bem de um modo menos problemático é reduzi-la ao tratamento defendido por Audi (cf. 2011, p.2,10) quando este nos diz que crenças justificadas, aquelas que esperamos que sejam verdadeiras, são coisas boas, são desejáveis e razoáveis de se buscar e manter.
Isso nos coloca que conhecimento e justificação não são apenas interessantes por seu próprio direito enquanto tópicos epistemológicos centrais, mas representam valores positivos na vida de cada pessoa razoável. Mas de qualquer modo, o discurso de James parece ter consequências e comprometimentos mais fortes que estes defendidos por Audi.
A questão problemática é que algumas ideias podem parecer ter valor para a vida concreta, mesmo estando distantes de corresponderem de alguma forma à realidade. Mas observemos que James busca se justificar e uma das formas em que tenta fazer isso é dizendo que devemos ter razões fundamentadas para determinar o que é bom. Ele continua defendendo que devemos admitir que, se as ideias verdadeiras não fossem boas para vida, ou se o conhecimento das mesmas fosse desvantajoso e as ideias falsas as únicas úteis, então nunca teríamos desenvolvido a noção comum de que a verdade é preciosa, nem seria a sua procura um dever, uma norma. Para James, dizer que seria melhor acreditar é o mesmo que dizer que devemos acreditar, uma vez que, para ele, devemos acreditar no que é melhor para nós. Por isso, então, no seu pragmatismo, a ideia de verdade e a ideia daquilo que é bom não devem ser dissociadas (cf. JAMES, 1907, p.28). Dewey (cf. 1908, p.93) complementa, observando que, para James, as verdades são valiosas não por si, mas porque, quando dadas, levam a consequências desejáveis. Assim, o valor prático das ideias estaria associado ao valor prático que seus objetos têm para nós.
Sua associação positiva entre o que é melhor acreditar e o que é verdadeiro o leva, mais uma vez, a defender aspectos coerentistas em sua noção de verdade. Ele começa afirmando que “o que é melhor para nós acreditarmos é verdadeiro, a não
ser que a crença colida incidentalmente com algum outro benefício vital” (JAMES,
1907, p.29, itálico do autor). Para ele, benefícios concedidos por outras crenças podem entrar em choque com alguma crença em particular, quando esta última se mostra incompatível com as primeiras. Ele continua dizendo que “o maior inimigo de qualquer de nossas verdades pode ser o resto de nossas verdades, pois estas possuem [...] o instinto desesperado da auto-preservação e do desejo de extinguir o que quer que as contradiga” (JAMES, 1907, p.29). Assim, em suas ideias, qualquer crença, qualquer ideia em particular, deve aceitar o desafio de todo o conjunto de crenças, baseada no bem que ela pode proporcionar. (cf. JAMES, 1907, p.29)
Essa noção de verdade associada ao que é bom leva ao que James em certo momento chama de único teste de verdade provável, num trecho que novamente mostra sua relativização controversa do conceito de verdade e de concordância com a realidade. Porém, aí ele indica que o fato de uma ideia ser boa seja mais uma pista de que uma ideia concorda com a realidade do que um critério único de verdade substituto ao de concordância. Essa é uma diferença importante, até para que a crítica ocupe o lugar certo. Apesar de certamente podermos questionar isso, defender que ser bom é uma pista de que o critério de acordo com a realidade foi provavelmente cumprido é diferente de defender que o critério de verdade é ser bom. E observe no trecho abaixo que James aplica este teste a casos em que a verificação objetiva não é em princípio possível, como em questões metafísicas, do modo já discutido anteriormente neste texto:
O seu único teste de verdade provável é o que trabalha melhor no sentido de conduzir-nos, o que se adapta melhor a cada parte da vida e combina com a coletividade dos reclamos da experiência, nada sendo omitido. Se as ideias teológicas podem fazer isso, se a noção de Deus, em particular, prova que pode fazer isso, como pode o pragmatismo, em sã consciência, negar a existência de Deus? O pragmatismo não pode ver sentido em tratar como “não verdadeira” uma noção que foi tão bem sucedida pragmaticamente. Que outra espécie de verdade poderia haver, para o pragmatismo, que toda essa concordância com a realidade concreta? (JAMES, 1907, p.30)
Não vejo problemas necessários em um sentido amplo destas considerações, porém, quando as aplicamos a uma teoria do conhecimento, essas ideias podem guardar armadilhas que nos afastem de uma busca criteriosa, que o próprio James garante perseguir. A necessidade de discutirmos estes aspectos de maneira mais profunda, associando-os ao subjetivismo geral em James, nos fará voltar a este debate na seção 2.2.