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Jihadismo e Salafismo: elementos de uma mitologia reacionária

2. Terrorismo no Médio Oriente: uma alteração do paradigma terrorista?

2.3 Jihadismo e Salafismo: elementos de uma mitologia reacionária

Apercebemo-nos que existe uma estreita relação entre as instabilidades geopolíticas e os movimentos reformatórios sociais nas comunidades muçulmanas. O próprio conceito de jihad não é referido nas escrituras sagradas e que nasce a partir da Sunna e da expansão do império árabe sob alçada de Maomé. Este apenas ganha centralidade e alguma relevância significativa no Islão a partir do século XI aquando da ameaça externa personificada pelas Cruzadas Cristãs. As origens da teoria salafista expressas no pensamento e obra de Ibn Taimiya nascem num contexto de grande instabilidade no império árabe devido, não só aos sucessivos ataques cristãos, mas, sobretudo, à invasão dos mongóis. Será relevante observar que os mongóis, imortalizados pela brutalidade e violência inerentes às suas conquistas, erradicaram todo o califado Abássida, invadiram Bagdad, conquistaram a Síria e chegaram até à Palestina, deixando uma profunda cicatriz negativa no império Árabe. A invasão mongol deixou um vasto rasto de devastação, regiões despopularizadas, canais de irrigação, campos de cultivo e infra- estruturas destruídas, bem como marcas políticas, económicas e militares que marcariam o império. Uma das principais causas identificadas para a invasão mongol terá sido a falta de

99 Ibdem.

união e coordenação entre as diversas comunidades do império e s falta de organização e de coesão das estruturas políticas e militares.101

É neste contexto e precisamente com o intuito de fomentar a união da umma e de fortalecer a estrutura político social do império Árabe que Taimiya formula a sua doutrina. Dotada de particular rigor e fundamentalismo religioso, o pensamento da Taimiya coloca a tónica na relevância suprema que a jihad teria de ter na vida individual de qualquer muçulmano e na vida colectiva da umma. A prática da jihad, ou seja, o jihadismo era, portanto de relevância central na doutrina de Taimiya. Com efeito, as obras do teólogo da Síria e toda a sua doutrina, no geral, assentam em dois pilares: o rigor da conduta religiosa (não partilhada pelos mongóis) e a importância da jihad na protecção do Islão. Haverá aqui um duplo sentido melhor compreendido se tivermos em conta o contexto geopolítico. Por um lado, Taimiya apela ao rigor religioso e à necessidade de denunciar como falsos aqueles que não o cumprem , takfir. Por outro lado, Taimiya salienta a importância da jihad como um pilar supremo do Islão, ao qual se assemelha, apenas a oração e a submissão a Deus. Ora, Taimiya estaria, muito provavelmente, a procurar fontes que pudessem justificar a denuncia dos mongóis como apóstatas, de modo a que se tornasse concretizável e legítima a expulsão deste povo estrangeiro das terras sagradas islâmicas que faziam parte do império árabe há seis séculos. O próprio sucesso do wahabismo está intrinsecamente relacionado com o poder que o fervor religioso proporcionou. Primeiramente na consolidação das tribos sauditas no século XVIII e, posteriormente, na necessidade do reino saudita em se aliar às tribos wahabistas para derrotar os hashemitas e conquistar Ryadh em 1902. Recorde-se, também que durante a primeira Guerra Mundial a indústria militar havia já iniciado o processo de transição de dependência do carvão para a dependência do petróleo o que determinou as boas relações entre as potências ocidentais e a Casa de Saud, a qual permitiu a constituição do Reino da Arábia Saudita em 1932. Também a escola de pensamento reformista de Alfghani e a doutrina salafistas daí decorrente surge num contexto de colonização europeia do Médio Oriente, território que se havia mantido, primordialmente, sob o domínio da cultura islâmica desde o aparecimento de Maomé no século VII e que agora estava sob ameaça.

A doutrina salafista centrada na persecução da jihad demonstra ser um movimento pouco proactivo e, pelo contrário, um produto de carácter extremamente reaccionário às ameaças externas políticas que de alguma forma punham em causa a soberania nacional dos Estados islâmicos. O apelo a um retorno aos preceitos fundamentalistas do Islão aparece como um instrumento de diferenciação da comunidade muçulmana das forças externas que a invadem. Com o intuito, de fortalecer um sentido identitário que permita expelir assimilações culturais e dificultar o processo de submissão social, estas doutrinas refomatórias apresentam-se como

101 Saunders, J.J. (2002) A History of Medieval Islam, Londres e Nova Iorque, Routledge Taylis  Francis Group.

instrumento para manter viva a memória da nação islâmica e a ambição de total independência nacional e cultural em relação aos colonizadores europeus.

Não obstante, o sucesso deste processo recorre, muitas vezes, à transmissão de mensagens que produzam um grande impacto na mente dos seus ouvintes, sendo por isso, mais eficaz quando faz uso de apelos radicalistas. A força da mensagem é determinada em função do fervor do seu conteúdo, tornando-se o jihadismo radical uma poderosa arma de persuasão, bastante popular junto das camadas mais marginalizadas das sociedades e daqueles que têm um conhecimento do Islão mais reduzido. A plateia deste jogo psicológico não se limita aos muçulmanos radicalizados, pelo contrário, estes são apenas um instrumento para alcançar metas marcadamente políticas. Se na altura,de Alghani, estas consistiam essencialmente na expulsão do poder colonial da região, hoje em dia esta doutrina alia-se a um movimento revolucionário que procura objectivos políticos mais ambiciosos. Estes objectivos associam-se a uma ideologia política diferenciada que procura, não só a autonomia cultural, social e política do Médio Oriente mas também pela expansão de um modelo político regido pela sharia e pelos princípios fundamentalistas islâmicos a todo o território que outrora pertenceu ao império árabe. Sendo esta ideologia reivindicada por grupos paralelos às entidades estatais com poderes assimétricos relativamente aos grupos/Estados que assumem como inimigos, quer em termos de capacidade bélica como em termos de representação político jurídica, o terrorismo será tendencialmente a metodologia privilegiada de persecução desta guerra.102

O movimento jihadista contemporâneo está fragmentado em centenas de organizações terroristas espalhadas por todo o mundo e, mesmo admitindo, que algumas delas tenham maior poder de exportação ideológica e operacional para organizações afiliadas ou simpatizantes, nunca será possível definir um único corpo doutrinário inerente ao movimento jihadista global. Reconhecendo que em qualquer acto de terrorismo existe a inerente intenção de provocar terror, existe, também, uma multiplicidade enorme de objectivos imediatos ou de curto prazo nos diferentes grupos terroristas. Estes podem variar desde a vingança ou retaliação, a publicidade e a projecção mediática local ou internacional, a protuberância de uma imagem de poder, o domínio sob um determinado território ou a persecução de uma crença religiosa.103 Muitas vezes vezes as organizações jihadistas diferem

na priorização destes objectivos intermédios, sendo que algumas defendem a necessidade de travar primeiro a luta contra o inimigo próximo, ou seja, as entidades governativas muçulmanas corrompidas pelos ideais ocidentais, takfirs, e só depois o imigo distante, a presença americana e israelita no Médio Oriente.104 Outras defendem precisamente o oposto

102Rasler, Karen  Thompson, William R. (2011) Looking for Waves of Terrorism In Rosenfeld, Jean E. (Ed) Terrorism, Identity and Legitimacy: the four waves theory and political violence, Londres e Nova Iorque, Routledge Taylor  Francis Group.

103 Martins, Raúl François Carneiro (2010). Acerca de “Terrorismo” e de “Terrorismos”, IDN Cadernos. 104 Pensamento muito presente na geração de ideólogos da Irmandade Muçulmana como por exemplo a obra The Absent Obligation de Faraj, a qual por sua vez é inspirada nos escritos e na doutrina deixada por Qutb. Qutb havia deixado uma herança doutrinária que colocava a jihad na centralidade da vida de

– a necessidade de expulsar a presença ocidental da região e só depois proceder a uma reforma interna. Há ainda as que priorizam a Jihad Global, a qual prevê a necessidade de proteger a comunidade muçulmana ao nível global, não só nas regiões de predominância islâmica, tornando-se imperativo não só expulsar as forças ocidentais dos países muçulmanos mas erradicá-las da face da terra pois a sua existência em si constitui uma afronta à umma.105

Não obstante, podemos identificar matrizes político religiosas comuns como a crença na necessidade de adoptar uma reforma social salafista e a importância da jihad para alcançar este objectivo último. É, ainda, comum aos grupos terroristas autoproclamados jihadistas o repúdio pelos valores liberais ocidentais como a democracia secular e o ressentimento pela

“contaminação” das sociedades islâmicas pelos mesmos. Existe, desta forma, um sentimento

global de aversão aos ideais seculares ocidentais e uma cólera perante a morfologia globalizante das culturas liberais que penetra o mundo árabe. Os grupos terroristas jihadistas vão beber um pouco de cada uma das várias doutrinas reformatórias islamistas que sustentam o argumento de desresponsabilização parcial do Islamismo pelo seu declínio.

Quer a doutrina reformatória salafista quer a obra de Taimiya escrita há oito séculos atrás são frequentemente citadas e invocadas pelos jihadistas para justificar a responsabilização do ocidente –ou de forças externas à umma- pela decadência das comunidades islâmicas e para salientar a necessidade de revitalizar a umma através da aplicação dos princípios fundamentalistas islâmicos, os quais, só se tornarão aplicáveis depois de uma erradicação das influências nefastas ocidentais. Para esta “purificação” da sociedade islâmica, a óptica jihadista encontra como único caminho possível a combinação entre uma jihad defensiva, a qual deve ter maior peso porque se centra primordialmente na defesa das comunidades islâmicas, e uma jihad ofensiva, esporádica cujo objectivo é o de atingir psicologicamente o inimigo e convencê-lo de que os seus objectivos são de difícil alcance ou que exigirão um esforço demasiado pesado para os benefícios esperados.106

O terrorismo contemporâneo que assume maior expressão no seio do jihadismo apresenta-se como um veículo de subversão cujo objectivo principal é provocar um desgaste do aparelho governativo vigente (em especial nos países muçulmanos do Médio Oriente) que conduza à

um muçulmano, afirmando que esta terá de ser de natureza ofensiva e terá de ser empreendida, também e sobretudo contra muçulmanos takfirs, os quais ao se renderam aos seus interesses próprios não só não protegem a umma, como a condenam ao fracasso e à humilhação. Pegando na obra de Qutb, Abd al-Salam Faraj afirma a jihad como o 6ºpilar do Islão e de acordo com a teoria defendida, durante a década de 70 funda a al-jihad cujos membros seriam responsáveis, no início da década seguinte pelo assassinato do presidente egípcio Anwar Sadat, o qual depois da assinatura dos acordos de Camp David com Israel em 1977 passou a ser um alvo destes radicalistas islâmicos, sendo mesmo apelidade de “o faraó”. Consultar em: Migaux, Phlippe (2007) The Roots of Islamic Radicalism, In Chaliand, Gérard Blin, Arnauld (Eds), History of Terrorism: from antiquity to al-Qaeda, pp.255-349

105 Duarte, Felipe Pathé (2011), Jihadismo Global: A (In)Coerência de uma Estratégia de Subversão?,

Nação e Defesa, 5ª, 128, pp. 215-243.

106 Garcia, Francisco Proença (2006) O Fenómeno Subversivo na Actualidade: Contributos para o seu Estudo, Nação e Defesa, 3, 114, pp.169-193;

substituição deste por um novo regime: o califado. Este representa uma alteração estruturante da sociedade em todos os prismas: social, político e normativo.107 A instauração

do Califado será o objectivo último e de longo prazo comum às diferentes organizações jihadistas que podem, contudo divergir, nos objectivos de curto e médio prazo.

Torna-se, assim, possível observar que embora as várias organizações terroristas jihadistas possam diferir relativamente aos objectivos de curto e médio prazo, elas tendem a converger no propósito político que orienta a sua acção: a implementação de um regime político social orientado pelos princípios fundamentalistas islâmicos. Admitindo que existirão plurais estratégias para alcançar este objectivo, as entidades terroristas jihadistas convergem neste propósito político, formando um movimento composto por uma série de unidades inter- dependentes que nos dias de hoje apresentam dois focos de liderança: a al-Qaeda e o Daesh. Uma outra observação importante prende-se com a natureza determinantemente política da retórica religiosa jihadista. Embora se admita que este movimento terrorista, o jihadismo, abrace uma retórica religiosa bastante singular e por vezes até apocalíptica, a realidade é que ela é movida por aspirações políticas e tende a fortificar-se no contexto de adversidades políticas.

O jihadismo salafista pressupõe a aplicação da estratégia jihadista para a instauração política do modelo social salafista. Sabendo que o islamismo fundamentalista não reconhece divisão entre as eferas políticas, sociais e jurídicas, torna-se (numa linguagem liberal) evidente que a ideologia que move este terrorismo tem um carácter determinantemente político pois, conservando uma forma religiosa, ele é motivado por objectivos políticos. Estes objectivos políticos podem corresponder a um aumento da coesão interna de uma sociedade de forma a aumentar o poder interno de um dado país perante a percepção deste das ameaças externas; ou mesmo a substituição de um determinado governo ou a criação de um novo Estado. No fundo a religião dá apenas a forma a este terrorismo e serve de instrumento para a persecução dos objectivos políticos. Assim, constatamos que o terrorismo jihadista preserva o paradigma de poder político partilhado pelos restantes movimentos terroristas. Embora se esconda por detrás de uma retórica explosiva e de uma doutrina religiosa e fundamentalista, o jihadismo continua a ser motivado pela persecução de objectivos políticos utilizando a violência simbólica para a sua concretização.

107Será de salientar que o terrorismo não é o único método de corrosão das forças políticas seculares no mundo islâmico. Existem outros mecanismos de corrosão das entidades governativas baseadas numa assimilação das ideologias liberais que se podem encontrar em diferentes correntes de activismo islâmico perfeitamente legais, como determinados movimentos políticos, nomeadamente a Irmandade Muçulmana; e o regime teocrático iraniano no sentido em que, aquando da sua implementação, provocou um grande impacto emocional nos povos sunitas, suscitando a ambição de implementar um regime semelhante mas sunita. Este último acontecimento convergiu com um grande aumento na actividade terrorista no Médio Oriente e Norte de África a partir da década de oitenta. Consultar em: Garcia, Francisco Proença (2006) O Fenómeno Subversivo na Actualidade: Contributos para o seu Estudo,

Nação e Defesa, 3, 114, pp.169-193; e Hoffman, Bruce (2006). Inside Terrorism, Nova Iorque, Chicester,