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Neste capítulo propus uma reconceitualização do samba de roda centrada na sua materialidade rural e importância às comunidades multirraciais pelo interior baiano. Procurei demonstrar a forma que discursos existentes sobre raça e geografia na Bahia, resumidos pelas ideias de sertanidade e baianidade formuladas no século XX durante debates sobre a identidade nacional, influenciam a forma que o samba de roda é concebido hoje. Deste modo, procurei esclarecer por que é tão difícil conceber o samba de roda além dos limites do Recôncavo. E defendi a ideia de que, apesar da negação da cultura afro-brasileira no semiárido, o samba existe de forma difusa no Piemonte da Diamantina.

Nos próximos capítulos tratarei do samba em dois municípios do semiárido baiano: Capim Grosso e Morro do Chapéu. Abordarei o samba inicialmente através de entrevistas e a exploração biográfica dos violeiros, Jorge e Marcolino, ligando o violeiro ao grupo de samba, à comunidade social em volta do grupo, à história de cada município e ao contexto histórico maior do Piemonte da Diamantina. Eu também integrarei descrições etnográficas do repertório musical e coreográfico do samba e, por último, responderei a perguntar: por que essas comunidades fazem samba? Decorrente desta pergunta, investigarei de que maneira o samba cria comunidade, de que maneira o samba constrói identidades individuais e coletivas, e de que forma a performance do samba cultiva uma compreensão compartilhada da vida humana.

O segundo capítulo fala sobre Seu Jorge, violeiro da comunidade de Caiçara no município de Capim Grosso. Caiçara foi umas das primeiras comunidades a se estabelecer entre as fazendas da região de Capim Grosso no início do século XX. O povoado ganhou destaque por se localizar na estrada boiadeira e ser ponto de repouso dos tropeiros e boiadas que transitavam entre Jacobina, polo econômico do Piemonte da Diamantina, e Feira de Santana. Jorge, vaqueiro e lavrador, declara “lutar com gado e sambar” suas duas paixões. Ele é mestre da viola de samba, cantador de chula e dançador de piega – conhecido como o “galego da viola”. Seu irmão mais novo, Zé Pezão, é cantador de chula e tirador de desafio. Juntos eles encabeçam um grupo de sambadores com seus amigos do município, circulando pela cidade e zona rural ao longo do ano e fazendo samba onde tiverem vontade, seja no bar de um amigo ou na varanda de casa.

O samba de Jorge e Zé, assim como o samba dos outros grupos do município, é um “samba macho”. As mulheres, tradicionalmente pensadas como fundamentais à coreografia do samba de roda, são uma minoria nestas rodas de samba, e raramente tocam instrumentos, cantam chulas ou entram nas rodas para dançar. Este samba flui pelas estações e espaços da vida rural. Ele celebra o plantio, a colheita e o final do mutirão no campo (chamado de batalhão e boi

roubado), fundamenta as rezas, devoções domiciliares em homenagem aos santos, e anima bares,

feiras-livres e outras ocasiões festivas. As relações que sustentam seu grupo são norteadas pela ética de amizade, honra e desafio. Não são raros os encontros em que os sambadores se juntam para “bater piega” ao som da viola ou desafiar um ao outro no samba de profia. Eles se orgulham de terem se encontrado com os outros grupos e “dado uma surra” ou “botado pra correr”, assim aumentando sua fama na região. Por isso, há tensões entre o indivíduo e o grupo, entre as éticas da força e a da amizade, da brincadeira e do desafio.

No samba de Capim Grosso os grupos são multirraciais. A maioria dos sambadores declara não fazer diferença a cor do sambador desde que “ele seja bom”. Há, porém, tensões raciais implícitas nas suas atitudes. Os sambadores chamam o samba que eles praticam de samba

brasileiro, com o intuito de distanciar o seu samba do outro comum aos terreiros da roça, o samba de caboclo, organizado e dançado principalmente por mulheres, vinculado às práticas

afrocatólicas de incorporação e sacrifício animal, e estigmatizado pela maioria cristã das suas comunidades25. A mãe de Jorge era uma rezadeira que dançava para Santa Bárbara no seu terreiro, fato que ele frequentemente evita falar. Paralelamente, a igreja evangélica aos poucos conquista espaço na zona rural e as pessoas que antigamente sambavam, ou abriam as casas aos sambadores, param de fazer isto. O grupo também envelhece e cansa de sambar até amanhecer o dia; porém, há poucos jovens que se interessam por aprender a sambar e continuar as tradições. Pouco a pouco, a cidade cresce e o interesse por parte da comunidade cai, deixando a possibilidade de o samba parar em Capim Grosso após essa geração.

O terceiro capítulo conta a história da família de Seu Marcolino do município de Morro do Chapéu. Pobre, periférico e negro, Seu Marcolino é patriarca de uma família de reiseiros. Todo fim de ano, do dia 25 de dezembro até o 6 de janeiro, ele sai para reisar em louvor aos

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Embora as igrejas protestantes tenham sido mais agressivas em denunciar as práticas religiosas afro- brasileiras, muitos católicos praticantes também assumem posicionamentos críticos hoje, quiçá o resultado da influência crescente do protestantismo no sertão.

Santos Reis, acompanhado por seus sete filhos, netos, primos e amigos. De noite, percorrem as ruas da cidade do Morro do Chapéu e as pequenas comunidades da zona rural, acordando os moradores com seu conjunto de samba e entrando nas casas para rezar e sambar. Em cada casa pedem “esmola” para montar uma festa no fim da sua jornada ritual no dia 6 de janeiro, o dia da epifania do Senhor, a qual todas as famílias são convidadas.

Seu Marcolino herdou a tradição do reisado dos seus bisavôs que, segundo alguns moradores do Morro, nasceram na comunidade quilombola Barra II vizinha à cidade. O reisado é samba em formato de um rito religioso católico, fixo no calendário, que repete um repertório musical e roteiro de performance toda noite ao longo do período do ritual. Há, porém, no encontro entre o bando de reiseiros e os moradores do Morro do Chapéu, um imenso espaço subjetivo onde a performance do samba medeia entre grupos sociais e raciais distintos e identidades coletivas se estabelecem. Ao longo do século XX, havia muitos grupos de reiseiros ativos na cidade; hoje o reisado de Seu Marcolino é o único que ainda atua no município. Seu Marcolino também sofre de uma doença de coração que impede cada vez mais sua saída com a família. Diante da doença do pai, seu filho mais velho, Matteus, assume a liderança do grupo e a responsabilidade de animar e mobilizar seus irmãos para dar continuidade à tradição. Juntos eles cantam: “Santo Reis vai adiante aê, seus devotos a acompanhar!”

Ao apresentar estes dois “retratos” de Jorge a Marcolino, espero demonstrar os diversos significados que os sambas do semiárido possam ter em contextos específicos. Busco as palavras dos sambadores e a experiência da performance para fundamentar minhas conclusões. Através da concepção dos violeiros e suas redes de relações afetivas, eu me interesso por saber “de que forma” e “por que” acontece o samba, sua relação com o passado e a forma que o samba constrói comunidade. Acredito que a escolha de cenários tão diferentes serve para ressaltar a diversidade das comunidades de samba do Piemonte, a multiplicidade dos seus significados e os perigos de enquadrar o samba em categorias musicológicas ou geográficas ambíguas sem estudos mais aprofundados. A construção do conhecimento comparativo sobre o samba, ou entre municípios ou entre regiões como o Sertão e o Recôncavo, só será possível com estudos de caso bem elaborados. Aqui apresento dois com o intuito de mostrar a diversidade de configurações estéticas e significados compartilhados que o samba pode expressar dentro de um território relativamente pequeno. Acredito que os “pequenos mundos do samba” do semiárido são também samba de roda em toda sua criatividade, complexidade e contradição.

2 JORGE

“A gente vai gravar aqui essa roça de milho, filmar. Descer ali no tanque. Vai lá na outra roça da criação.” Eu me esforço para equilibrar a filmadora no ombro e acompanhar o compasso rápido de Jorge em direção ao curral. Embora fui eu que propus a filmagem, percebo que ele já assumiu o papel de diretor, detalhando o roteiro do nosso passeio. Enquanto andamos, ele narra com naturalidade: “Aí a vida da gente é essa, é a luta do dia a dia. De manhã levantar cuidar dos bicho. Tirar leite. Levar pra rua. Cuidar dos cavalos. Cuidar do gado.” Eu esperei Jorge às oito horas da manhã para acompanhá-lo nas tarefas matutinas, mas quando nos encontramos, ele já havia concluído tudo. Mesmo assim, ele resolveu me levar à roça. Atravessamos o povoado de Caiçara de carro. Jorge acenava pela janela e dava bom dia aos moradores do povoado espalhados pelas varandas da pracinha. Agora, ao passearmos pela roça, ele me surpreende quando se dirige à máquina e fala em nome de todos da comunidade. “E a gente vive assim. Tem uma fominha vai na roça plantar mandioca. A luta da gente é essa. O cabra da roça né.” Mais adiante eu avisto Faixa Branca, seu cavalo predileto para correr atrás de boi no mato. Chegando no curral, ele acrescenta de forma despreocupada, “sambando quando dá certo”, e solta uma risada alta e satisfeita. “Sempre no fim de semana a gente faz um sambinha que é pra distrair a vida. Se não, o negócio pega.”