2.4 SAMBA DE CABOCLO
2.4.3 Samba de Caboclo na Pimenteira
Jorge me informa que a meia-irmã de Lourdes, Dainha, fará um caruru nos dias 25 e 26 de setembro. O primeiro dia terá samba de caboclo e o segundo samba brasileiro, para agradar a todos na pequena comunidade de Pimenteira. Eu me empolgo pela ideia de ir, pois eu já havia ido no caruru de Dainha há quatro anos. Me lembro do encontro com fascinação, os tambores feitos de troncos de pau ocos postos a esquentar numa fogueira, o salão pequeno cheio de gente e sacudidos pela batucada dos tambores, os vestidos brancos rodando ao canto de Cosme e Damião e as velas reluzindo por volta da imagem de Santa Bárbara no altar. Naquele encontro Jorge e Lourdes me acompanharam, mas desta vez há menos ânimo. Lourdes estará assistindo uma formatura e Jorge apenas me comenta que terá outra coisa para fazer. Eu pego uma carona com Junior, o filho deles, que foi chamado para tocar tambor. No caminho peço a Junior algumas explicações sobre o samba. Ele diz não ter um caboclo pessoal, mas confessa que gosta de
batucar e que no mundo “tudo existe, a linha branca e a linha preta.” Ele também menciona as viagens para o caruru de Dainha como grande momento de alegria da família e da comunidade. Eram momentos da população sair para namorar, dançar e melar as mãos comendo caruru e vatapá, conforme a tradição, sem talheres. Um labirinto de estradas de chão nos levam para a comunidade de Pimenteira, local da festa, mas não vemos mais as fileiras de famílias chegando pela estrada – apenas alguns grupos de pessoas indo na direção oposta. “Evangélicos voltando para casa,” diz Junior, certamente com pouco interesse em ir para um caruru.
Ao chegarmos, deparamos novamente com uma multidão de gente no terreiro da casa de Dainha. Percebo logo uma diferença na casa. À sala de estar pequena, antigo sítio do caruru e do samba, foi acrescentado um salão enorme, feito propriamente para rezas, no lugar do velho santuário. O santuário também havia mudado de lugar e aumentado em tamanho. Fica numa antessala depois do salão de festa. O teto dos dois salões está enfeitado de faixas de papel crepom coloridas. O conjunto musical, composto de três tocadores de atabaque, três pandeiristas e um tocador de triângulo, aquece no salão maior. Entramos logo no santuário e, entre os diversos santos, espadas de madeira, contas, conchas e demais enfeites da mesa, percebo um chapéu e jaleco de couro na parede, indicando o culto ao caboclo boiadeiro. Os membros da comunidade – crianças, mães segurando filhos, homens, idosos – andam pela casa comendo e conversando. A maioria veste roupa de rua, porém há mulheres de saia branca e alguns homens de calça branca e camisas azuis brilhantes – um sinal de que pretendem participar do samba mais tarde.
Dainha logo nos cumprimenta, trajando um vestido cor-de-rosa, um rosário e contas de todos os tamanhos e cores que chegam a bater na cintura dela. Infelizmente, ela fala, perdemos a ceia dos sete meninos, mas há comida ainda, caso queiramos. Vejo o povo comendo seus pratos de caruru, a mão como talher predileto em lugar do garfo, e depois entro na cozinha para bater papo com as cozinheiras. Elas raspam o resto do vatapá de um caldeirão enorme, fazendo uma farofa do óleo que sobrou da fritura das carnes, e procuram pés de galinha para dar aos que ainda não comeram. Fico admirado pela quantidade de comida preparada numa cozinha tão pequena. Elas dão risada e dizem que, no dia seguinte, terei que vir mais cedo que ainda haverá um bode cozido. Como de costume nas rezas, não falta comida para ninguém. Quem chegar, comerá.
Logo iniciam as orações no santuário onde o chão na frente do altar é ocupado por mulheres – avós, mães e filhas pequenas. Quem quiser entrar não acha mais passagem. Dainha
ajoelha diante do altar e começa a orar em forma de canção. As mulheres acompanham e os cânticos ecoam pela casa: “São Cosme e São Damião, aos vossos pés ajoelho” (Faixa 12). A conversa das pessoas nas outras salas diminui e o povo assiste. Dainha permanece ajoelhada na frente do altar e canta as letras das rezas escritas num pequeno livro que segura na mão. As mulheres sentadas por volta dela acompanham numa devoção solene e bela.
Após a oração chega o momento do samba. O salão grande está lotado e a banda ocupa uma parede inteira. Sobra um espaço no centro onde acontecerá a dança. Outro ritual alimentar inicia a performance musical quando quatro meninas comem bolo ao som da batucada de Santa Bárbara. Os sambadores, encostados na parede, tocam pandeiros e atabaques. Dainha canta: “eu vi Santa Bárbara na beira d’agua comendo arroz e bebendo água.” A bateria aumenta o volume e a plateia repete a mesma frase em coro. Dainha gira e canta, seu corpo relaxado, o cabelo jogado por cima dos ombros. Dainha logo fala para todos que a senhora ao seu lado havia sido curada de uma doença grave por Santa Bárbara, e como promessa, paga o bolo todo ano. A senhora abre um sorriso banguelo de imensa satisfação. Dainha fala em voz alta, “pra quem não acredita em Orixá, essa só vivia em hospital. E hoje está sãzinha. E todo ano dá a obrigação dela porque foi Santa Bárbara que curou ela!”42 Aparecem neste momento um homem alto de pele clara vestido de branco com um cocar de penas de pavão, o cunhado de Dainha, e o filho dela, trajando uma vestimenta cor-de-esmeralda brilhante. A batucada começa novamente e Dainha entoa, “abra a roda gente que eu vim sambar, hoje vim pro samba com meus orixá” (Faixa 13). Ao embalo dos tambores a roda logo enche de outras mulheres. Dainha gira ao tintinar dos sinos que segura na mão, o filho dela também entra na roda e dança com o corpo curvado, segurando uma espada de bronze grande. Enquanto todos dançam e giram, Dainha comanda a banda. Ela determina o batuque a ser cantada e a duração da música. Ao parar a música, ela canta o refrão do próximo batuque uma vez, sem acompanhamento, para que todos escutem. Depois a bateria entra e, logo em seguida, o coro repete o refrão. Junior, que até então assiste o samba de longe, logo substitui um dos batuqueiros, aperta o atabaque entre as pernas e bate o tambor com força, um grande sorriso estampado do rosto, que nem os outros músicos. Após uma hora passar os tocadores derramam suor. Alguns são substituídos, e outras mulheres vestidas de branco assumem o papel
42
Mais tarde eu descobri que a mulher havia sido evangélica e, após ser curada da doença, saiu da igreja e iniciou suas devoções no caruru de Dainha.
de puxar os cantos e comandar a roda. Os homens seguem na bateria à disposição dos pedidos das mulheres. Dainha e suas acompanhantes são as mestras da festa.
Por ter que trabalhar no dia seguinte, Junior sugere que vamos embora antes de meia noite, e com certo arrependimento consinto, pois não será fácil arrumar outra carona de um lugar tão remoto. Ao ligarmos o motor e sair pela cancela da fazenda, a batucada continua. Tenho a leve impressão de que a festa, onde todos cantam em coro, amontoados dentro do salão e sacudidos pelos tambores, está apenas começando. A ausência de Jorge também ressoa no caminho de volta para casa. Sobram as dúvidas: Jorge deixou de acreditar? Ou será que os caboclos o aproximam à memória dos pais falecidos e um passado de samba que ele prefere esquecer?