• Nenhum resultado encontrado

JOVENS NA SOCIEDADE MEDIATIZADA

No documento Caminhos da aprendizagem via Internet (páginas 38-44)

1.7 – Roteiro do trabalho

2- JOVENS NA SOCIEDADE MEDIATIZADA

38

2- JOVENS NA SOCIEDADE MEDIATIZADA

“Nos meios de comunicação, disse Voyenne, inscreve-se o grande rumor do universo, com sua mobilidade incessante e com sua grande diversidade.” (XIFRA-HERAS, 1974)

2.1 – Jovens adolescentes ...

A adolescência

“é uma fase singular da vida devido à ocorrência simultânea de um conjunto de mudanças evolutivas na maturação física, no ajustamento psicológico e nas relações sociais. A adolescência, em geral, também é considerada um período crítico no que se refere à sexualidade e envolve os aspectos biológicos, socioculturais e psicológicos do desenvolvimento” (BOSSA,

1996: 237)

São características desta fase de formação segundo Knobel25 citado por BOSSA (1998) e STENGEL (1996):

1) A busca de si mesmo e da identidade: O adolescente sente seu corpo transformar-se, e o luto pelo papel e identidade infantis obriga à renúncia da dependência dos pais e à definição de sua identidade adulta. Mas até que esta identidade se defina, o adolescente experimenta flutuações de identidade e de humor, sendo comum que ele assuma diversas identidades de acordo com os ambientes que freqüenta.

2) Tendência grupal: A dependência deixa de ser familiar e passa a ser do grupo, formado por pessoas da mesma idade com as mesmas características e que tenham os mesmos problemas. O grupo passa a ser apoio nos momentos difíceis de formação de identidade e crises, pois jovens da mesma idade apóiam uns aos outros e se entendem entre si. A figura do “amigo” adquire uma importância nunca antes vista nesta fase da vida.

3) Necessidade de fantasiar e intelectualizar: A perda do corpo infantil e da dependência da infância faz com que o adolescente procure fantasiar para suportar o luto pela infância, para criar um mundo próprio que lhe seja mais

25

KNOBEL, Maurício. A síndrome da adolescência normal. In: ABERASTURY, Arminda; KNOBEL, Maurício. Adolescência normal. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992.

39

desejável e adequado. São comuns, nesta idade, a manifestação artística e/ou a construção de diários que permitam ao adolescente um refúgio para as dificuldades enfrentadas devidas ao luto pela perda da infância e à definição da personalidade adulta.

4) Crises religiosas: A perda dos pais da infância e o sentimento de que pode assumir a idade adulta e procriar faz o adolescente tomar consciência da morte. “Deus, seja qual for o modelo que ele assuma, é substituto paterno

nas relações de proteção e segurança” (BOSSA, 1996: 272). O adolescente,

nos momentos difíceis, poderá entregar-se a uma fé fervorosa que pode prover-lhe segurança, bem como poderá recusar veementemente a religião, como forma de afirmação de seu próprio lugar.

5) Desestruturação temporal: O adolescente vive o presente, pois para ele é difícil lidar com as perdas do passado (luto pela infância) e as incertezas do futuro (idade adulta, morte). Freqüentemente, o adolescente tem crises de solidão para que possa reformular o passado e formular o futuro.

6) A evolução sexual desde o auto-erotismo até a heterossexualidade: O adolescente apresenta curiosidade sexual, podendo consumir revistas pornográficas ou ter atitudes voyeuristas; experimenta o seu corpo, através da masturbação, e busca a genitalidade adulta através da exploração e da experimentação. Nesta fase, é comum a experiência homossexual através de práticas sexuais propriamente ditas, ou de atividades masturbatórias e carícias. A posição heterossexual adulta exige aprendizagens dos adolescentes, o que torna o conceito da bissexualidade comum nesta idade. 7) Atitudes sociais reivindicatórias com tendências anti ou associais de diversas

intensidades: “(...) o adolescente funciona por projeções maciças, portanto

tendo os conflitos de construção do corpo e da identidade que está elaborando são depositados por projeção nos questionamentos sociais”

(BOSSA, 1996:276) Nesta fase da vida, o adolescente pode adotar uma postura de transgressão social se a tolerância da sociedade a eles é baixa. Tal postura caracteriza a rebeldia típica do adolescente e pode resultar em transformações sociais, em rupturas com os valores estabelecidos, o que pode, até mesmo, trazer o restabelecimento de antigos padrões sociais.

40

8) Contradições sucessivas em todas as manifestações da conduta, dominada pela ação: O adolescente é contraditório, pois vive uma fase de ambigüidades e busca de identidade e tem uma postura voltada para a atuação social.

9) Busca de autonomia (Separação progressiva dos pais): A separação progressiva dos pais normalmente é mediada pela identificação com ídolos como artistas, atletas, heróis e vilões.

10) Constantes flutuações no humor e no estado de ânimo: O adolescente passa do recolhimento e tristeza a explosões de alegria e entusiasmo à medida que vai vivendo os seus lutos e superando-os.

As características apontadas acima são vividas diferentemente em cada período histórico, ou a cada geração. Os adolescentes do início do século XXI, no que tange às relações de amizade e às fases de descobertas próprias da idade, parecem dar continuidade à geração da década de 90, vivendo seu lado afetivo-sexual através de

ficadas26 e, também, através de namoros.

Os relacionamentos, nesta fase da vida, são muito importantes para a estruturação da personalidade e podem funcionar como uma válvula de escape das angústias, bem como podem propiciar descobertas, dadas à vivacidade e à curiosidade próprias da idade compartilhadas em grupo ou de maneira interpessoal.

Para Stengel (1996), os relacionamentos tendem a ser mais flexíveis entre os adolescentes, indicando uma tendência de maior valorização da vida profissional em relação à vida afetiva: Os jovens estariam procurando desenvolver relacionamentos com menor relação de dependência entre os parceiros, de forma a não prejudicar o crescimento pessoal individual de cada um e resultando em laços afetivos menos duradouros em vários casos.

A interpretação da escolha profissional é problemática para os jovens, existindo muitas pressões especialmente entre os jovens da classe alta. As dúvidas

26

Para Stengel (1996), a descoberta da sexualidade e a vivência afetiva podem acontecer através de relacionamentos mais flexíveis, como o ficar – modalidade que tanto pode indicar troca de carícias em um só dia quanto um relacionamento mais contínuo entre pares, mas sem o estabelecimento de um compromisso formal, que envolva famílias, ou se caracteriza como o namoro em casa ou o namoro na rua. Stengel constatou que a primeira experiência social dos adolescentes acontece por volta dos 15 anos e, recentemente, em reportagem publicada pela revista Veja, constatou-se que a idade média da perda da virgindade entre meninas é de 15 anos e entre meninos de 14 anos. [REVISTA VEJA, 2003]

41

próprias da adolescência quanto à definição da identidade, associadas à pressão social para um futuro, muitas vezes deixam o jovem indeciso em relação aos seus rumos profissionais. Verificou-se, no questionário aplicado pela pesquisa, que é significativo o número de jovens inseguros quanto ao futuro profissional: 32,2 % dos entrevistados não sabem qual rumo vão tomar após concluírem o ensino médio.

Verificaram-se, ainda, nas escolas públicas pesquisadas, adolescentes que pretendem trabalhar sem seguir um curso superior após terminarem o ensino médio, mas este resultado não pode ser generalizado para toda população das escolas públicas, dadas as características não probabilistas da amostra.

Conforme as características da adolescência acima pontuadas, os jovens tenderiam a apresentar um comportamento rebelde, com a ruptura de valores de geração a geração, podendo provocar alterações na ordem social e política. Por hora, é importante ter em mente a caracterização esboçada e avançar nas relações mais particulares destes adolescentes com os meios de comunicação.

2.2 – ... e a sociedade mediatizada

Conforme mencionado no capítulo anterior, os meios de comunicação ocupam lugar central nos processos de interação dos indivíduos na sociedade contemporânea. Tal centralidade faz com que a maioria das experiências dos indivíduos sejam mediatizadas, o que caracteriza a interacionalidade mediatizada ampla ou

interacionalidade mediática social ampla:

“Na interacionalidade mediatizada ampla, o que importa mais é

a situação de grupos e pessoas interagindo sobre produtos mediáticos, percebidos como disponibilidades sociais. De um modo diferido e difuso (além dos modos diretos e imediatos), materiais simbólicos circulam na sociedade, são interpretados e usados, são fonte de ações e interações entre pessoas, e produzem efeitos de sentido. Esse complexo jogo de interações inclui, portanto, em graus variados e em combinações incessantemente reformuladas, interações conversacionais

42

diretas, interações dialogais mediatizadas e interações diferidas e/ou difusas. [...] É a presença ampla destes processos que

caracteriza uma sociedade mediatizada”.

(BRAGA&CALAZANS, 2001: 29)

Além da complexidade dos processos de interação, Braga e Calazans (2001) destacam, ainda, como distintivos da sociedade mediatizada, a “inclusividade e

penetrabilidade da mídia e as permeações entre as comunicações sociais de interesse geral e as comunicações de campos especializados, anteriormente restritos” (p.30).

Para estes autores, a mídia apresenta a característica de inclusividade ao incluir (captar, adicionar, subsumir) processos sociais, objetificando o mundo e representando-o de acordo com seus próprios padrões, ângulos de câmera, suas linguagens. À medida que captam o mundo através de suas formas, já a realidade se adapta aos processos operatórios da mídia, o meio/processo de comunicação passa, então, a penetrar nos processos sociais, modificando-os, daí deriva a característica de penetrabilidade.

“Os mais diversos processos sociais podem ser registrados e postos em circulação pela mídia – são incluídos tematicamente, como questão a ser conhecida, observada, debatida. Paralelamente, no processo de captação (e com necessidade de expor sua imagem), estes processos, atividades, instituições, áreas, são penetrados pela mídia, e se reorganizam em função deste “olhar” e destes “ouvidos” postos sobre eles”. (BRAGA & CALAZANS, 2001: 33)

Os meios de comunicação, nesta visão, estão integrados aos processos sociais. Eles não podem ser vistos somente como ferramentas exclusivas de diálogo ou de transmissão de mensagens, sendo atuantes em diversas atividades realizadas pelos indivíduos, como as de lazer, de comércio, de entretenimento, e mesmo nas relações afetivas; enfim, nas mais variadas dimensões da vida.

Além disso, os autores destacam a proliferação de publicações especializadas e segmentadas para públicos leigos como mais um fator distintivo da sociedade mediatizada. É abundante a produção de publicações de assuntos antes restritos a uma comunidade acadêmica e que hoje se torna disponível para um público leigo.

43

A atuação da mídia em diversas dimensões da vida social já foi destacada em alguns estudos funcionalistas da comunicação. Nestes estudos, a mídia exerce algumas funções na vida social como entreter as pessoas; informá-las, formá-las, contribuir para o controle da ordem social, entre outras funções.

Na visão funcionalista de Xifra-Heras (1974), os meios de comunicação cumprem as seguintes funções sociais:

- Informativa: os meios de comunicação deixam os indivíduos a par dos acontecimentos da atualidade, disponibilizando informações funcionais e operacionais de interesse dos sujeitos sociais.

- Formativa: os meios de comunicação educam, transmitindo valores culturais e modificando-os.

- Entretenimento: os meios de comunicação apresentam-se como opções de lazer, servem para distrair.

Embora não perfeitamente consonantes com as idéias da sociedade mediatizada de José Luiz Braga, tais categorias de classificação funcional podem ser entendidas como uma forma de penetrabilidade da mídia nos processos de lazer, de renovação de repertórios de conhecimento, de comunicação diferida e difusa propriamente dita.

Se existe uma penetrabilidade da mídia nos processos sociais, sejam eles de lazer, cultura, circulação de informações, pode-se dizer que os meios de comunicação apresentam-se como alternativas possíveis de entretenimento, formação e informação para os indivíduos e, de maneira destacada aqui, como opção para os adolescentes.

É de se esperar que os adolescentes, nesta sociedade, utilizem os meios de comunicação de maneira intensa em diversas atividades do cotidiano, especialmente porque, nesta fase de formação, os indivíduos podem suprir algumas demandas próprias da idade através dos meios de comunicação. Eles podem utilizar os meios de comunicação para entretenimento, para alimentar suas fantasias, identificar-se com ídolos da mídia, utilizar-se de publicações que falem dos seus problemas, comunicar-se com os seus pares, etc.

44

No documento Caminhos da aprendizagem via Internet (páginas 38-44)