CAPÍTULO 3 DA IMPORTÂNCIA DA PROVA TESTEMUNHAL
3.1 CARACTERISTICAS DO DEPOIMENTO PRESTADO PELA TESTEMUNHA
3.1.1 JUDICIALIDADE
O destinatário da prova testemunhal é o magistrado. Assim quando se fala em principio da judicialidade, está se afirmando que testemunhal é somente a prova produzida em juízo.
Há divergência sobre tal princípio, assim, entende Tornaghi83 “só é verdadeiramente prova testemunhal depoimento prestado em juiz “Dele diverge Aquino84 aduzindo que o crime de falso testemunho pode ocorrer também na fase de inquérito”
Mesmo a prova testemunhal sendo colhida na fase do inquérito policial, esta é produzida para o juiz, assim, de forma técnica, seria entendida como prova testemunhal somente a prestada em juízo.
3.1.2 ORALIDADE
Quando inquirida, a testemunha deve fazê-lo oralmente à autoridade judicial.
O depoimento é tomado oralmente podendo a testemunha consultar breves apontamentos (artigo 204 do CPP). Esses apontamentos podem ser nomes de lugares ou pessoas, datas.
Entende Capez85“A prova testemunhal deve ser colhida por meio de uma narrativa verbal prestada direto com o juiz e as partes e seus representantes”.
Não pode a testemunha trazer o depoimento por escrito, porquanto buscar-se a mais precisa sinceridade da testemunha frente ao juiz.
Ensina Mirabete86
A lei veda que a testemunha traga o depoimento por escrito porque falta a este a espontaneidade necessária que dificulta ao juiz a observação sobre o grau de sinceridade ou falsidade que pode ser revelado no depoimento oral.
Sobre esse assunto há algumas exceções.
83TORNARGHI, Hélio. Manual de processo penal. p. 191
84 AQUINO, José Carlos G. Xavier. Manual de processo penal. p. 191 85 CAPEZ, Fernando. Curso de processo penal. p. 336
Diz Tourinho Filho87
Uma exceção é a prevista no parágrafo 1° do artigo 221 do CPP: .'Presidente e o Vice- Presidente da republica os Presidentes do Senado federal, da Câmara dos Deputados e do Supremo Tribunal Federal, poderão optar pela prestação de depoimento por escrito, caso em que as perguntas formuladas pelas partes e deferidas pelo juiz, Ihes serão transmitidas por oficio.
Tem-se também o caso da testemunha que é mudo, surdo e do surdo-mudo. O depoimento será colhido na forma do art.192 do CPP.
Assim diz Mirabete88
Sendo o acusado surdo-mudo e alfabetizado, deve ser inquirido por escrito e responder por escrito às perguntas da autoridade, não se permitindo a comunicação por mímica, sob pena de nulidade.
Não é necessário um intérprete caso a testemunha que é muda, surda o surda-muda seja alfabetizada.
Conforme ensina a jurisprudência
STF: "O interrogatório do surdo-mudo que saber ler e escrever pode ser feito por escrito e por escrito dará ele as respostas, não sendo necessária a nomeação de intérprete, uma vez que essa providência, segundo o CPP (art. 192, II') só é imprescindível no caso de o interrogado ser analfabeto, porque ai terá o intérprete à função de transmitir as perguntas e traduzir as respostas" (RT 736/576)
3.1.3 OBJETIVIDADE
A testemunha deve depor sobre os fatos sem externar opiniões ou emitir juízos valorativos. A exceção é admitida quando a reprodução exigir necessariamente um juízo valorativo.
Ensina Capez89:
87 TOURINHO FILHO, Fernando da Costa. Processo penal. p. 309
A testemunha afirma que o causador do acidente automobilístico dirigia em velocidade incompatível com o local, comportando-se de forma perigosa. Tal apreciação subjetiva é indestacável da narrativa, devendo, portanto, ser mantida pelo juiz.
Ainda conclui o citado autor90 "Outra exceção é a dos peritos, cujo depoimento, por sua natureza, tem caráter opinativo".
A testemunha não poderá opinar sobre o que faria no momento do crime, devendo ater-se aos fatos ocorridos.
Ensina Tourinho Filho91
Não se admite, por conseguinte, que uma pessoa, depondo em juízo ou perante a autoridade policial, diga que, se fosse o réu, não se teria aborrecido com as palavras proferidas pela vítima etc.
Mesmo que formuladas pelas partes questionamentos que ensejem apreciações pessoais da testemunha, deverá a autoridade indeferi-Ias consignando-se, no termo, a pergunta e o indeferimento.
3.1.4 RETROSPECTIVIDADE
O colhimento da prova testemunhal deverá conter a retrospectividade, que elucida acontecimentos que já se passaram.
A testemunha em seu depoimento deverá ater-se aos fatos passados e não aos fatos futuros.
Ensina Capez92: “o testemunho dá-se sobre os fatos passados. Testemunha depõe sobre o que assistiu, e não sobre o que acha que vai acontecer”.
89 CAPEZ, Fernando. Curso de processo penal. p. 337
90 CAPEZ, Fernando. Curso de processo penal. p. 337
91 TOURINHO FILHO, Fernando da Costa. Processo penal. p. 310 92 CAPEZ, Fernando. Curso de processo penal. p. 337
Entende Aquino93 “Prega que a testemunha deve depor sobre os fatos pretéritos e nunca sobre os fatos futuros, ainda que provida de conhecimento técnico para fazê-lo”.
Toda testemunha deve restringir-se a demonstrar ao juiz a que realmente ocorreu, como e de que forma, sem convicções pessoais ou especulações futuras.
3.1.5 IMEDIAÇÃO
Entende Aquino94: “A testemunha deve manifestar suas percepções sensoriais, imediatamente recebidas por elas sobre um fato passado”
No mesmo sentido diz Capez95 que “a testemunha deve dizer aquilo que captou imediatamente através dos sentidos”.
Deve assim, a testemunha narrar ao magistrado suas sensações quanto ao ocorrido no dia do fato.
3.1.6 INDIVIDUALIDADE
As testemunhas não poderão apresentar seu depoimento conjuntamente. Diz Capez96 sobre a individualidade: “cada testemunha presta o seu depoimento isolada da outra”.
Essa característica assegura que não haja interferência no depoimento de uma testemunha perante os das outras.
3.2 DA PROTEÇÃO À TESTEMUNHA
93 AQUINO, José Carlos G. Xavier. Manual de processo penal. p. 191 94 AQUINO, José Carlos G. Xavier. Manual de processo penal. p. 191 95 CAPEZ, Fernando. Curso de processo penal. p. 337
Como importância da prova testemunhal faz-se um breve comentário ao Capítulo I da LEI n° 9.807, de 13 de julho 1999, a qual trata da proteção especial a vitimas e a testemunhas.
Esta Lei, em seu preâmbulo:
Estabelece normas para a organização e a manutenção de programas especiais de proteção a vítimas e a testemunhas ameaçadas, institui o Programa Federal de Assistência a Vítimas e a Testemunhas Ameaçadas e dispõe sobre a proteção de acusados ou condenados que tenham voluntariamente prestado efetiva colaboração à investigação policial e ao processo criminal.
O receio da testemunha é em relação a ameaças e retaliações por parte de criminosos, donde tem gerado a impunidade.
Alexandre Miguel e Sandra Maria Nascimento de Souza Pequeno, juízes de Direito no Estado de Rondônia, em breve comentário acerca da referida Lei.97
Na atual conjuntura, em que se busca consolidar os fundamentos da cidadania, exigem-se medidas de proteção e assistência às vítimas e testemunhas, pois com o aumento do crime organizado, que campeia não só nos grandes centros, tem reinado a mais absoluta "lei do Silêncio", imposta pelos que detêm o poder no mundo do crime aos que assistem ou sofrem a violência. Estes silenciam, dominados pelo instinto de sobrevivência, pois aqueles que ousam desafiá-Ia são exterminados, como castigo ou para servirem de exemplo aos demais.
A lei citada anteriormente é considerada de grande valia no processo penal pátrio para que ocorra o desenvolvimento das investigações, para a instrução processual e para reduzir a impunidade.
97 Alexandre Miguel e Sandra Maria Nascimento de Souza Pequeno. comentários à lei de proteção às vítimas, testemunhas e réus colaboradores. Disponível em
Após sucinta explanação a respeito da Lei de proteção especial a vitimas e a testemunhas, passa-se à analise do valor probatório da prova testemunhal.
3.3 VALORAÇÃO DA PROVA TESTEMUNHAL