3.2 O projeto na percepção dos jovens egressos
3.2.1 Juventude: possibilidades e condicionantes
Os jovens entrevistados consideram a juventude uma etapa boa, de modificações, de busca por autonomia, momento de iniciar os compromissos profissionais; percebem que esse período passa rapidamente e, às vezes, há uma pressão para se tornarem adultos antes do tempo. Entendem também ser essa uma etapa de desvinculação com a família e decisiva, como expresso nas falas abaixo:
É uma fase bem corrida, pois temos que assumir a condição de adultos bem cedo, pois sai de casa para conseguir uma condição de vida, melhor.
(Jovem/8 – 22 anos- ensino médio – mecânico e vigia noturno).
É uma fase boa, mas de conflitos econômicos. O futuro parte desta fase, então ela é decisiva na nossa vida. (Jovem/6 – 21 anos – ensino médio
agricultor).
Para os jovens, a parte boa se refere ao convívio com a família, ao lazer com os amigos, à fase de aprendizagem, de independência financeira, de pensar na vida futura, de fazer escolhas, de vigor e de vontade. Os condicionantes estão mais ligados às restrições, aos preconceitos dos adultos em relação aos jovens, à dificuldade de assumir compromissos sociais e financeiros, de conquistar o reconhecimento da família e da sociedade, bem como da independência econômica. Há também uma evidência de que os jovens percebem que chegou a hora da tomada de decisão, de que eles próprios devem assumir responsabilidades. De que chegou a hora de decidir se ficam na propriedade ou se buscam alternativas de emprego na cidade.
De acordo com Lévi e Schmitt (1996 apud URTEAGA, 2011, p. 33), a característica que distingue esta construção sociocultural de outras idades da vida é a sua liminaridade (estado subjetivo, de ordem psicológica, consciente ou inconsciente), de estar no limite entre dois estados diferentes de existência. Significa que a juventude está entre duas margens movediças: da dependência e da autonomia dos adultos, do início da liberação, a começar pela esfera da família e assumindo, aos poucos, o reconhecimento, tanto no âmbito público quanto no privado. Esta liminaridade tem como origem a aceitação social da adolescência
como estado inevitável de desenvolvimento humano e como moratória social, e de crise.
Neste momento, são atribuídas à juventude características de preservação ou de reserva, uma situação jurídica que se justifica com o fato de que deve adquirir qualificações para a vida adulta, porém num contexto separado da vida adulta, como por exemplo, as escolas. Deste modo, a juventude é considerada como uma “terra de nada” e é segregada socialmente: tornando-se dependente juridicamente, moral e economicamente (MORCH, 1996, p. 78-106).
Percebe-se que o próprio jovem se dá conta da sua situação de intermediário, que está inserido nessas duas fases como fora mencionado pelos autores. As falas também apontam que há um considerar claro e crítico do jovem no presente e não somente sobre o seu futuro, como expressado por um dos jovens: “eu sou filho único
e meu pai sempre dizia que tudo isso era meu, mas era e não era, meu pai sempre teve confiança em mim, mas controlava tudo, até que eu decidi sair de casa, pois perguntava: até quando?”
De acordo com Bourdieu (1983), as lutas entre as gerações atingem uma maior intensidade no momento em que as trajetórias dos mais jovens e dos mais velhos se chocam, ou seja, quando os jovens aspiram cedo demais à sucessão. Para o autor, estes conflitos são evitados durante o tempo em que os mais velhos conseguem regular o tempo de ascensão dos mais novos, o que significa para o mundo rural regular a gestão na propriedade, a autonomia financeira e a tomada de decisões.
A falta de liberdade para tomar decisões próprias e a influência dos pais no período de juventude está implícita nos depoimentos. Percebe-se que a participação no curso oportunizou aos jovens refletirem sobre a tomada de decisões e de escolhas, como podemos observar abaixo:
O lado ruim é que não temos muitas oportunidades pelo fato das pessoas mais velhas não confiarem no jovem. Só com o curso amadureci mais e, assim, comecei a tomar as minhas próprias decisões. (Jovem/5 – 23 anos –
ensino médio − agricultor).
Não há intimidação com minha família; gosto do que eu faço na propriedade, mas, por eu ser ainda jovem, no dia a dia, eles ainda mandam em mim. (Jovem/4 – 23 anos − cursando agronomia − agricultor).
Um dos objetivos do programa foi trabalhar na formação de competências humanas, técnicas e gerenciais capazes de desenvolver nos jovens uma atitude
empreendedora frente à situação que envolve a individualidade e a coletividade, conforme já dito. Desta forma, proporcionou aos jovens refletirem sobre suas condições de juventude, o que, reconhecidamente, os jovens apontaram como um dos momentos mais interessantes do curso, pois oportunizou um espaço de debate justamente sobre a condição social da juventude, as possibilidades e os limites dessa fase da vida.
Vale ressaltar que esse espaço de debate torna-se um fator diferencial dos demais cursos de curto prazo, de palestras motivadoras, pois é proporcionado um momento de discussão, de revelação e de descoberta dos condicionantes e das possibilidades da juventude, onde os próprios jovens empenham um olhar exógeno sobre si, percebendo-se como potencial, em que pese a condição específica de cada um.
Outro fato importante evidenciado nas falas dos jovens é a questão de gênero: se já é difícil numa sociedade patriarcal de forma ampla, torna-se ainda mais exacerbada no meio rural. Os jovens reconhecem que há diferença de oportunidades e de valorização entre as moças e os rapazes, conforme se pode observar nos depoimentos abaixo.
Há preconceito por ser jovem do sexo feminino em relação à tomada de atitudes, iniciativa e maturidade [...] só há diferença quando nós, moças do meio rural, não soubermos como agir diante das adversidades existentes. Precisamos deixar de pensar que somos inferiores. Preconceito sempre vai ter, mas somos nós que devemos fazer a diferença. Mostrar porque estamos aqui e do que somos capazes de fazer. (Jovem/11 – 22 anos –
pós-graduada − funcionária do comercio e agricultora).
Tem diferença sim porque o rapaz tem mais apoio dos pais para as suas iniciativas; em tudo os pais apoiam mais os rapazes. (Jovem/3 – 22 anos – ensino médio – agente de saúde comunitária).
Os entrevistados, com exceção de um deles, reconhecem que os pais dão mais apoio aos rapazes, que os mesmos têm mais autonomia para desenvolver atividades agrícolas, no tratamento e nas oportunidades de trabalho, bem como para sair à noite e para o lazer do que as moças. Expressam ainda que os pais normalmente não dão liberdade para as moças: “Desde cedo os pais trabalham para
que as meninas saiam da roça”, daí que “a maioria das moças não gostam de trabalhar no meio rural”. Declaram ainda que “para as moças tudo se torna mais difícil, desde a força física, os homens sempre têm a maior preferência para tudo”.
No entanto, deve-se ter em conta o que ressalta Boni (2004) a respeito das relações de gênero. Segundo a autora, a análise das relações de gênero parte da premissa de que a divisão de trabalho e as relações entre homens e mulheres não são construídas em função de suas características biológicas, mas sim que é um produto social que legitima as relações de poder.
Desse modo, as falas deixam uma preocupação, pois evidenciam uma contradição na socialização da juventude, principalmente no que tange ao aspecto de gênero. Se, por um lado, os jovens demonstraram certo distanciamento e enxergam criticamente que são tratados de forma desigual no meio rural, por outro, não são críticos com relação a esses aspectos culturais que podem, portanto, ser mudados, pois se trata de uma construção social. No entanto, eles ainda reproduzem essa condição.
Mudar tradições/cultura não é tarefa fácil, pois, historicamente, a socialização da mulher foi, e ainda o é, relacionada à cultura patriarcal. Logo, o habitus23 incorporado ao logo do processo vai estabelecendo pré-disposições ligadas a essa cultura que, como expressa Bourdieu (1995, p.147), não depende apenas da mulher, pois o peso do habitus não se suprime por um simples esforço da vontade, baseado numa tomada de consciência libertadora. Essa questão ainda está na subjetividade humana, como se evidencia nas falas dos jovens entrevistados. Nota-se que, mesmo que já seja possível observar um esforço para mudanças, os jovens ainda reproduzem a cultura como foram criados.
Embora as mulheres estejam atualmente em situação melhor do que historicamente se encontravam no passado, ainda persistem desigualdades flagrantes na comparação da sua situação com a dos homens, tanto no que diz respeito às condições estruturais e econômicas, de acesso aos meios físicos para a sobrevivência (ao trabalho, à propriedade, ao poder político) como em relação à possibilidade de realização de projetos autônomos de vida, por conta da manutenção de padrões de gênero fortemente excludentes, sobretudo, no espaço
23
O conceito de habitus para Bourdieu tem por função primordial lembrar com ênfase que nossas ações possuem frequentemente, por princípio, mais o senso prático do que o cálculo racional. (BOURDIEU, 2003, p. 78). Para Setton (2002, p. 63), habitus é concebido como um sistema de esquemas individuais, socialmente constituído de disposições estruturadas (no social) e estruturantes (as mentes), adquirindo nas e pelas experiências práticas (em condições sociais específicas das existências), constantemente orientado para funções e ações do agir cotidiano. Habitus não se confunde com hábito.
rural em que padrões sociais e culturais ainda não foram superados e continuam arraigados nas subjetividades.