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4.3 Juventude rural

Segundo Sposito (2010,p. 99), “uma das fragilidades da pesquisa sobre juventude no Brasil reside na pouca ênfase dada ao estudo dos jovens rurais e sua emergência recentíssima na arena pública (cf. Stropasolas, 2006; Carneiro; Guaraná, 2007)”. Com base em estudo realizado sobre o II estado da arte da produção discente na pós-graduação brasileira sobre juventude, em 2009, abrangendo o período de 1999 a 2006, Sposito (2010, p. 99) afirma que “[...] os estudos sobre jovens rurais e indígenas são escassos atingindo apenas 4% do total da produção das áreas da Educação, Ciências Sociais e Serviço Social”.

Com efeito, em 1998, a partir de um estudo no município de Santana, oeste de Santa Catarina, Ricardo Abramovay et al. chamam a atenção para esse segmento da juventude. Os autores apresentam resultados que corroboram as estatísticas do IBGE sobre a crescente

diminuição da população rural, muito particularmente, pela saída do jovem para o meio urbano. Esses autores chamam a atenção para a necessidade de investimento no desenvolvimento rural, muito especialmente, para a juventude de modo que os programas sociais devam buscar alternativas para a manutenção dos jovens em atividades agrícolas e outras que possam motivá-los e atender suas expectativas.

Para Abramovay et al. (1998), a saída compulsória do jovem tende a criar, pelo menos, dois problemas sociais: o envelhecimento e a masculinização da população rural uma vez que são as mulheres jovens que mais migram para a cidade, ele afirma:

As moças deixam o campo antes e numa proporção muito maior que os rapazes. Este viés de gênero no êxodo rural não parece estar ligado a oportunidades particularmente favoráveis no mercado de trabalho urbano, mas à precariedade das perspectivas assim como ao papel subalterno que continuam a ter as moças no interior das famílias de agricultores (ABRAMOVAY et al, 1998, p. 16).

Abramovay et al. (1998) denominam esse fenômeno de migração seletiva e apontam que a mola mestra do problema encontra-se não na atração do mercado urbano, mas, fundamentalmente, “[...] nas perspectivas que se oferecem no interior das unidades familiares de produção, respectivamente para rapazes e moças”. Para eles, trata-se também de uma questão de poder “[...] embora as mulheres participem do trabalho na propriedade, no mínimo em condições iguais às dos homens, elas não têm qualquer acesso a tarefas que envolvam algum grau de responsabilidade ou de tomada de decisão” (ABRAMOVAY et al., 1998, p. 74).

Outra questão sobre a juventude rural também é abordada: - a inserção precoce da criança na atividade rural familiar tenderia a subtrair a juventude? Abramovay et al. tocam nessa questão:

[...] Este ambiente explica em grande parte a própria dúvida a respeito da existência de uma juventude rural neste período: se é verdade, como diz Mannheim (1968, p. 74), que a puberdade nas sociedades modernas caracteriza-se antes de tudo pelo “caos das valorizações antagônicas”, então têm razão os sociólogos alemães dos anos 1920 e 1930 que discutiam a própria existência de uma juventude no meio rural [...] Seu argumento é que há uma transição direta da infância à vida adulta pela incorporação precoce do indivíduo no mundo do trabalho e, sobretudo, pela intensidade da ligação à ordem social comunitária – o que já não existe entre jovens urbanos (ABRAMOVAY et al., 1998, p. 35).

Não há consenso sobre esse fenômeno entre autores que estudam a questão, pode-se, entretanto, constatar que a juventude rural tem feições diferentes da juventude urbana até mesmo na forma como ela se constitui e se reproduz – “espécie de automatismo”: reprodução do modo de vida desde cedo, diferente do meio urbano. Nesse sentido, Abramovay et al.

(1998, p. 36) destacam a pressão do grupo sobre os comportamentos do indivíduo desembocando em uma forma naturalizada de continuidade do modo de vida familiar. Quando essa naturalidade começa a se desconstruir cria-se o que ele designa de questão sucessória, objeto de seus estudos sobre agricultura familiar em Santa Catarina, nos quais mostra a dupla ruptura ocorrida a partir dos anos 1970:

A partir dos anos 70 a agricultura familiar do sul do país expõe-se a uma dupla ruptura: por um lado, as possibilidades objetivas de formação de novas unidades produtivas encontram-se cada vez mais limitadas, por outro, a ideia de que, na sua grande maioria, os jovens no campo destinavam-se a reproduzir os papéis de seus pais é cada vez menos verdadeira no interior das próprias famílias [...] é quando a formação de uma nova geração de agricultores perde a naturalidade com que era vivida até então pelas famílias, pelos indivíduos envolvidos nos processos sucessórios e pela própria sociedade (ABRAMOVAY et al, 1998, p. 36).

Segundo estudo coordenado por Castro (2009) a juventude rural não pode ser identificada apenas com a ideia da migração – saída do jovem do campo. Esse estudo comprovou a existência “[...] de uma juventude rural organizada a partir da diversidade de situações que hoje se apresenta no cenário da pequena produção familiar e trabalhadora rural brasileira” (CASTRO, 2009, p. 19). A recorrente associação da ausência de perspectivas de trabalho e estudo no meio rural e a atração da cidade formando um jovem desinteressado pelo mundo rural instigou a pesquisadora a problematizar a juventude rural na atualidade.

Para essa autora, o jovem rural é alvo do duplo enquadramento. Na cidade é reconhecido como do “meio rural” carregado de rotulações: atrasado, inferior. No mundo rural são identificados pelos pais/adultos como „muito urbanos‟, isto é:

[...] jovem rural carrega o peso de uma posição hierárquica de subalternidade, ou seja, uma categoria percebida como inferior nas relações de hierarquia estabelecidas na família, bem como na sociedade. Esta posição está ainda marcada por um contexto nacional de difíceis condições econômicas e sociais para a pequena produção familiar (CASTRO, 2009, p. 39).

Entretanto, ainda segundo Castro, “[...] a categoria “jovem” é fortemente valorizada e constantemente acionada nos discursos dos pais e dos movimentos sociais rurais, associada à renovação e ao futuro, ou seja, como categoria-chave na reprodução da produção familiar” (CASTRO, 2009, p. 39).

Trazendo essa reflexão para a RESEX, a categoria juventude e o sujeito jovem são enfatizados como categorias-chave na perspectiva de sustentabilidade da Reserva nos documentos concernentes à cogestão – SNUC, Plano de Manejo. Entretanto, os dados obtidos nesta pesquisa mostram a ausência dos jovens na efetivação do projeto de RESEX. Iniciativas

de discutir com os jovens sobre a relação com o meio ambiente vêm se apresentando recentemente como o seminário “Juventude democracia e meio ambiente”, na RESEX de Tracuateua, já citado, envolvendo jovens de cinco RESEX da região incluindo a de Caeté- Taperaçu. Nesse evento, a participação dos jovens mostrou-se proativa desde a organização até as proposições relacionadas com o meio ambiente.

Segundo o estudo sobre jovens e o mundo rural de Stropasolas (2006), a saída de jovens do campo não se restringe a fatores econômicos, envolve uma multiplicidade de fenômenos, incluindo aqueles que limitam o desenvolvimento das potencialidades desses jovens no plano pessoal. Stropasolas põe em questão a causalidade da “[...] destruição do tecido social nas comunidades rurais” com “[...] a desagregação do ambiente cultural ao esvaziamento demográfico, particularmente de jovens, sendo o processo migratório visto como um movimento de via única e determinado, sobretudo, por causas externas” (2006, p. 22). Para esse autor, no contexto da agricultura familiar:

[...] a migração de jovens não é a causa imediata do possível comprometimento social da agricultura familiar, mas coloca em relevo as contradições e os conflitos, externos e internos, que resultam da forma singular e desigual de interação do rural com a sociedade global, expressando, também, a busca por mudanças que não se restringem apenas aos aspectos econômicos, mas que visam a redefinir o próprio sistema cultural que reproduz a agricultura familiar (STROPASOLAS, 2006, p. 23) Ainda sobre juventude rural, os estudos de Carneiro (2007) discutem essa mobilidade campo e cidade na perspectiva que ela denomina de “novas mentalidades” no cenário rural. Ela diz:

Entendo que a intensificação da comunicação com a cidade, na atual conjuntura, nos coloca como importante desafio entender os valores e novos anseios dos jovens de residência rural em face não apenas da atração que a cidade e seus bens materiais e imateriais exercem sobre eles como também, na direção oposta, em face da revalorização do meio rural por segmentos da população urbana (CARNEIRO, 2007, p. 53).

Carneiro enfatiza que as mudanças em curso na sociedade repercutem na maneira como os jovens “percebem a si próprios e os outros” (p. 53). Ao mesmo tempo chama a atenção para o debate que se vem travando sobre a dualidade rural-urbano. Para ela, na medida em que se identifica um movimento de aproximação entre esses espaços sociais e/ou modos de vida tende-se a partir para a ruptura com a dualidade e, correr novos riscos de, mais do que clarificar a compreensão desses espaços, obscurecê-la.

Com efeito, é extremamente delicado em uma sociedade conectada atualmente, conceber fronteiras formalmente delimitadas nesses dois espaços sociais. Os dados desta

pesquisa ajudam a compreender, em parte, essa perspectiva de um rural com pinceladas de urbanidade. Como foi mostrado no Capítulo 3, a presença de emissoras de TV, dos aparelhos de celulares e da internet, mesmo de forma menos intensa que no meio urbano, são os principais meios para se informar e se comunicar entre os jovens da RESEX. As novidades e a chamada “notícia quente” na linguagem jornalística chega aos moradores da RESEX na mesma velocidade que chega à capital do estado, Belém. No entanto, esses elementos associados a outros na mesma linha, seriam realmente suficientes para o desaparecimento dessa dualidade? Acredita-se que não. Para alterar o modo de vida das populações rurais há que haver um longo processo de mudança não somente na base produtiva – agricultura, pecuária, extrativismo, entre outros, como nas manifestações culturais que dão suporte ao modo de vida do agricultor, do caboclo, do indígena, do pescador etc.

Compreende-se, entretanto, que novos elementos surgem nesse “novo rural” e que, de formas diversas alteram, em alguns casos mais que em outros, o contexto do que se é denominado de rural. Por isso, Carneiro (2007) atenta para a complexidade dessa definição e de seus critérios classificatórios, ou seja, no seu dizer, “mais rural” e “mais urbano”. Ela então recorre a diversos autores que buscam compreender essa questão como José Eli da Veiga (2004) que argumenta por uma “reclassificação da população e dos municípios brasileiros” (p. 55) e Nazareth Wanderley (2007) que opta pela ambiguidade do universo de pequenas cidades – “[...] que é formalmente definido como urbano, se acionarmos os critérios oficiais de classificação vigente, mas que guarda também algo que o distingue de uma verdadeira “experiência urbana”, como chama a atenção, muito apropriadamente, a autora” (CARNEIRO, 2007, p. 57).

Anita Brumer (2007) destaca no estudo da juventude rural dois aspectos recorrentes: “[...] a tendência emigratória dos jovens, em grande parte justificada por uma visão relativamente negativa da atividade agrícola e dos benefícios que ela propicia; e as características ou problemas existentes na transferência dos estabelecimentos agrícolas familiares à nova geração” (BRUMER, 2007, p. 37). Essa autora reitera o que os dados demográficos vêm apresentando sobre a “continuidade do processo migratório campo-cidade” (p. 36). Reitera também os fatores de “atração” – em particular, as opções de trabalho remunerado e, os de “expulsão” – “as dificuldades da vida no meio rural e da atividade agrícola” (p. 36). Para ela:

Apesar do peso dos fatores estruturais, as decisões sobre a migração são tomadas por indivíduos, que variam na avaliação de fatores de atração ou de expulsão. Ademais, na decisão de migrar, provavelmente os fatores de expulsão são anteriores aos de atração, na medida em que os indivíduos

fazem um balanço entre a situação vivida e a expectativa sobre a nova situação (BRUMER, 2007, p. 37).

Freire e Castro (2007) compreendem juventude rural no contexto amazônico como: [...] grupos cambiantes, situados em espaços sociais e temporalidades que lhes atribuem múltiplos significados [...] Propor-se a investigar a juventude do campo na Amazônia exige recortes num universo material, simbólico e cultural marcado pela diversidade. São jovens ribeirinhos, quilombolas, indígenas, pescadores, extrativistas, agricultores familiares, assentados (FREIRE, CASTRO, 2007, p. 218-219).

Com enfoque nos jovens assentados da reforma agrária, as autoras buscaram compreender as “tessituras das identidades” desses jovens que concebem o campo como um lugar paradoxal: de um lado a vida harmônica com a exuberância da natureza e de outro “a penosidade do trabalho agrícola” (FREIRE; CASTRO, 2007, p. 226). Entretanto, “[...] os jovens predominantemente são afirmativos, orgulham-se de ser do campo, processo identitário esse mediado pela relação com a natureza, cultura camponesa, família, comunidade, elementos fundantes nas representações dos(as) jovens” (FREIRE; CASTRO, 2007, p. 226). Entretanto, afirmam as autoras, “[...] há jovens que expressam infelicidade na sua condição de agricultores(as), que internalizam as discriminações e preconceitos de que são vítimas” (FREIRE; CASTRO, 2007, p. 229).

As autoras destacam a distinção entre a agricultura do norte “[...] que utiliza poucos insumos externos em relação à agricultura do sul do Brasil, mais capitalizada” (FREIRE; CASTRO, 2007, p. 228).

Este breve apanhado sobre juventude rural no Brasil revela que, do Norte passando pelo Nordeste até o Sul a juventude rural se apresenta em suas particularidades, contudo é marcada pela invisibilidade social, muito particularmente na região Norte, e, destarte as políticas propostas para o campo, sofre as consequências da ausência de políticas de Estado que possibilitem desenvolver o meio rural ao ponto em que a migração para a cidade se torne, de fato uma opção e não uma imposição.