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KARDECISMO E ESPIRITISMO

No documento Livro - Origem Da Umbanda 1 (páginas 160-163)

Em 1859, Allan Kardec publicou um pequeno livro chamado “O que é Espiritismo”, em que faz um apanágio dos principais tópicos do espiritismo. Logo em seu preâmbulo, ele define em poucas palavras a proposta: Para responder, desde agora e sumariamente, à questão formulada no título deste opúsculo, nós diremos que:

“O Espiritismo é ao mesmo tempo uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática, ele consiste nas relações que se podem estabelecer com os Espíritos; como filosofia, ele compreende todas as conseqüências morais que decorrem dessas relações”.

Pode-se defini-lo assim:

“O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, da origem e da destinação dos Espíritos, e das suas

relações com o mundo corporal”.

Note que não há referência alguma ao aspecto religioso. Pelo menos até esse estágio de desenvolvimento, o movimento espírita não buscava ser um ramo à parte do cristianismo estabelecido e, sim, um corpo de conhecimento que pudesse ser aceito independente da religião do indivíduo.

Foi o aspecto filosófico, mais especificamente a Moral, que permitiu um desdobramento religioso. Mais adiante, na seção Espiritismo e espiritualismo do cap. I:

“Pergunto-vos, em primeiro lugar, qual a necessidade da criação de novos termos: espírita e espiritismo, para substituir: espiritualista e espiritualismo, que são da língua vulgar e por todos compreendidos? Já ouvi alguém classificar tais termos de barbarismos”.

Allan Kardec. “De há muito tem já a palavra espiritualista uma acepção bem determinada; é a Academia que

no-la dá: Espiritualista, aquele ou aquela pessoa cuja doutrina é oposta ao materialismo. Todas as religiões são necessariamente fundadas sobre o espiritualismo. Aquele que crê que em nós existe outra coisa, além da matéria, é espiritualista, o que não implica a crença nos Espíritos e nas suas manifestações. Como o podereis distinguir daquele que tem esta crença? Ver-vos-eis obrigado a servir-vos de uma perífrase e dizer: É um espiritualista que crê ou não crê nos Espíritos.Para novas coisas são necessários termos novos, quando se quer evitar equívocos. Se eu tivesse dada à minha Revista a qualificação de espiritualista, não lhe especificando o objeto, porque, sem desmentir-lhe o título, bem poderia nada dizer nela sobre Espíritos, e até combatê-los”.

Em “Dissidências”, ainda no cap. I

V.(isitante) – “Essa diversidade, na crença que vós chamais uma ciência, é, parece-me a sua condenação. Se

ela se baseasse nos fatos positivos, não deveria ser a mesma na América e na Europa”?

A.K. – “A isso responderei, primeiramente, que tal divergência só existe na forma, sem afetar o fundo;

realmente ela apenas se limita ao modo de encarar alguns pontos da doutrina e não constituir um antagonismo radical nos princípios, como afirmam nossos adversários, sem ter estudado a questão. Dizei-me, porém, qual a ciência que, em seu começo, não deu nascimento a dissidências, até que seus princípios ficassem claramente assentados? Não encontramos as mesmas dissidências nas ciências melhormente constituídas? Estarão os sábios de perfeito acordo sobre todos os pontos? Não tem cada qual seus sistemas particulares?

As sessões das Academias apresentam sempre o quadro de perfeito e cordial entendimento? Em medicina não há as Escolas de Paris e a Escola de Montpellier? Cada descoberta, em qualquer ciência, não em produzido cismas entre os que querem adiantar-se e os que desejam estacionar?(…)”

1. Ele tinha uma definição flexível, capaz de comportar muito daquilo que hoje chamas de espiritualismo; 2. O espiritismo não estava atrelado à figura de Kardec, considerando o trabalho em outros continentes

também como espiritismo;

3. ”Espiritualismo” era qualquer coisa que se opusesse ao materialismo. Catolicismo poderia ser um

“espiritualismo”, coisa que hoje não é mais dita. Deve-se ressaltar que Kardec já ouvira falar usos para o termo espiritualismo mais próximos ao moderno:

Espiritualismo, espiritualista, são as palavras inglesas empregadas nos Estados Unidos desde o início das manifestações: delas se serviu, primeiro, por algum tempo, na França. Mas, desde que apareceram as palavras espírita e Espiritismo, compreendeu-se tão bem sua utilidade, que foram imediatamente aceitas pelo público. Hoje o uso delas é de tal modo consagrado, que os próprios adversários, os que primeiro as apregoaram de barbarismo, não empregam outras. Os sermões e as pastorais que fulminam contra o Espiritismo e os espíritas, não poderiam, sem confundir as ideias, lançar anátema sobre o Espiritualismo e os espiritualistas.

Cap I, Espiritismo e Espiritualismo

1. Kardec era tolerante com dissidências e as via como algo normal no processo de evolução da ciência. Ao parece, Kardec manteve esse opinião liberal por algum tempo considerável. Mais de meia década depois, ainda podia-se ler de sua pena:

“(...) Já se operaram divisões entre vós. Duas grandes seitas existem entre os Espíritas: os Espiritualistas da escola americana e os Espíritas da escola francesa; mas não consideremos senão esta última. Ela é na? Não.

Eis, de um lado, os Puristas ou Kardecistas, que não admitem cada verdade senão depois de um exame atento, e a concordância de todos os dados; é o núcleo principal, mas não é o único; diversos ramos, depois de terem se infiltrado nos grandes ensinos do centro, separam-se da mãe comum para formar seitas particulares; outros, não inteiramente destacados do tronco, emitem opiniões subversivas. Cada chefe de oposição tem seus aliados; os campos não estão ainda desenhados, mas se formam, e logo eclodirá a cisão.

Eu vo-lo digo, o Espiritismo, como as doutrinas filosóficas que o precederam, não poderá ter uma longa duração. Ele foi, cresceu; mas agora está no auge, e já desce. Faz sempre alguns adeptos, mas, como o Saint- Simonismo, como o Fourierismo, como os Teósofos, ele cairá, para ser talvez substituído, mas cairá, eu o creio firmemente..”

O Abade D… (um opositor do Espiritismo recentemente desencarnado) Resposta de Allan Kardec:

“(…) Falais das seitas que, em vossa opinião, dividem os Espíritas, de onde concluís a ruína próxima de sua doutrina; mas vos esqueceis de todas aquelas que dividiram o Cristianismo desde seu nascimento, que o ensanguentaram, que o dividem ainda, e cujo número, até este dia, não se eleva a menos de trezentos e sessenta. No entanto, apesar das dissidências profundas sobre os dogmas fundamentais o Cristianismo ficou em pé, prova de que é independente dessas questões de controvérsias. Por que quereríeis que o Espiritismo, que se liga por sua própria base aos princípios do Cristianismo, e que não é dividido senão sobre questões secundárias se elucidando cada dia, sofresse divergência de algumas questões pessoais, quando tem um ponto de união tão poderoso: o controle universal?

O Espiritismo estaria, pois, hoje dividido em vinte seitas, o que não é e não será, que isso não levaria a nenhuma consequência porque é o trabalho de nascimento. Se divisões fossem suscitadas por ambições pessoais, por homens dominados pelo pensamento de se fazerem chefes de seitas, ou de explorarem a ideia em proveito de seu amor-próprio ou de seus interesses, estes seriam, sem contradita, os menos perigosos. As ambições pessoais morrem com os indivíduos, e se aqueles que quiseram se elevar não tem por eles a verdade, suas ideias morrem consigo, e talvez antes deles; mas a verdade verdadeira não poderia morrer.

Estais no verdadeiro, senhor abade, dizendo que haverá ruínas no Espiritismo, mas isso não é como o entendeis. Essas ruínas serão a de todas as opiniões errôneas que fervem e se fazem luz; se todas estão no erro, todas elas cairão, isto é inevitável; mas se houver uma só delas que esteja na verdade, ela sobreviverá infalivelmente (…)”

Nem tudo, porém, era concórdia e diplomacia. Pouco depois, na edição de abril de 1866, dois artigos teceram fortes críticas a duas dissidências: uma que depreciava o valor das comunicações espirituais recebidas até então, preferindo até mesmo interrompê-las (“Espiritismo sem Espíritos”), e outra autodenominada “Espiritismo Independente” que seria “o Espiritismo livre, não só da tutela dos Espíritos, mas de toda direção ou supremacia

pessoal, de toda subordinação às instruções de um chefe, cuja opinião não pode, tendo em vista que não é infalível“. Ainda que não seja possível provar, fica-se com a impressão que esse último grupo enviara uma

crítica indireta a alguma postura centralizadora de Kardec. Ele teria visto que a carapuça era de seu tamanho e a vestiu. Na edição de junho, é discutido o lançamento de “Os Quatro Evangelhos”, de J. B. Roustaing, um comentário dos evangelhos à luz de comunicações espirituais. No geral, a Revista Espírita é simpática à novidade que, em suas palavras “é um trabalho considerado, e que tem, para os Espíritas, o mérito de não

estar, sobre nenhum ponto, em contradição com a doutrina ensinada por “O Livro dos Espíritos e o dos médiuns”. As partes correspondentes àquelas que tratamos em “O Evangelho Segundo o Espiritismo” o são num sentido análogo“.

A única objeção feita foi contra a alegação de que Jesus nunca tivera um corpo de carne e ossos, mas um (peri)espiritual. De certa forma, isso é reedição de heresia docetista, usada como premissa para explicar não só a Imaculada Concepção, mas todos os milagres de Jesus. O artigo da Revista Espírita aceita esse neodocetismo como hipótese a ser averiguada por novas comunicações espirituais e assevera um grande poder perispiritual de Jesus (um super médium por sua altíssima evolução espiritual) já bastaria como explicação. A opinião de Kardec sobre as teses rustanistas deve ter mudado algum tempo depois, já que em “A

Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo”, publicado em 1868, ele declaradamente rejeita

essa hipótese (cap. XV, itens 64-5). Esse foi apenas o começo de uma longa rivalidade no meio espírita/espiritualista e que ainda dá o que falar.

Após a morte de Kardec, escritos seus ainda inéditos foram reunidos em Obras Póstumas, onde se encontra o que talvez seja sua opinião final sobre o Espiritismo:

Tomando a iniciativa da constituição do Espiritismo, usamos de um direito comum, o que todo homem tem de completar, como o entender, a obra que haja começado e de ser juiz da oportunidade.

Desde o instante em que cada um é livre de aderir ou não a essa obra, ninguém se pode queixar de sofrer uma pressão arbitrária. Criamos a palavra Espiritismo, para atender às necessidades da causa; temos, pois, o direito de lhe determinar as aplicações e de definir as qualidades e as crenças do verdadeiro espírita. (Revista Espírita, abril de 1866, página III)

Obras Póstumas, 2ª parte, Constituição do Espiritismo

Isso não está nem um pouco de acordo com a ideia contido em “O que é Espiritismo”, onde definiu o termo

Espiritismo de forma bem liberal e tolerante à divergência. No fim da vida, vendo essa liberalidade levar o

espiritismo a rumos que não aprovava, quis se apoderar do neologismo que criara. Como nem “O que é

Espiritismo”, nem “Obras Póstumas” pertencem ao conjunto de obras tidas como básicas pelos espíritas (o

Pentateuco), então fica-se com uma espécie de “limbo doutrinário”. Mas Kardec, ao menos originalmente, não se propôs a uma doutrina, mas a uma “ciência e filosofia”, passível de dividir em escolas, portanto não seria mais conveniente chamar o resultado de seu trabalho de kardecismo?

A codificação espírita e as obras complementares (“Revista Espírita”, “Obras Póstumas”, “O que é Espiritismo”, etc.) são o resultado da pesquisa coordenada por Kardec. Só que ele não o único a estudar as supostas relações entre o mundo espiritual e o nosso, sendo que muitos que também o fizeram chegaram a conclusões distintas. Com a ciência desse fato e a definição ampla de espiritismo constante em “O que é Espiritismo”, sem dúvida é conveniente chamar aquele seguem bem de perto as teses de Allan Kardec de kardecistas.

De experiência pessoal, há os sentem calafrios com essa palavra por a entender que existiria alguma espécie de “adoração” a Kardec. Isso é particularmente besteira, afinal os luteranos não cultuam Lutero. Outros consideram-na um neologismo desnecessário para distingui-los de membros de espiritualismos distintos (cultos afro-brasileiros, principalmente), afinal “o espiritismo é um só”. Longe de ser uma novidade brasileira, esse termo pode ser rastreado até o século XIX, no livro “Lights and Shadows of Spiritualism” (1877), do médium escocês Daniel Dunglas Home. No segundo capítulo da terceira parte do livro (Modern Spiritualism), Home faz uma apreciação nada agradável da obra de Kardec, particularmente de sua defesa da reencarnação, tratando- a como uma das fallacies of Kardecism. Nem só antagonistas se valeram do termo. Henri Sausse – um dos maiores partidários do espiritismo e autor de uma biografia de Kardec que até hoje a Federação Espírita Brasileira edita junto com “O que é Espiritismo” – lançou em 1918 o periódico “Le Spiritisme Kardéciste”.

Portanto, é plenamente viável considerar os adeptos da “Umbanda”, “Roustaing”, “Ramatis”, e afins como seguidores de correntes diferentes de espiritismos (nota do autor: “Modalidades de Espiritismo). Já vejo “kardecistas” levantando pedras e clamando: “Umbanda é um sincretismo, Roustaing escreveu absurdos e Ramatis é um pseudo-sábio!”. Uma coisa de cada vez:

 Se o problema da Umbanda é sua mistura com religiões africanas, então o kardecismo também é problemático por misturar cristianismo com modismos cientificistas vitorianos e reencarnação pagã. A não ser que se viva numa tribo isolada, não há como se professar uma doutrina que seja “puro sangue”, pois todas herdam algo de suas antecessoras, trocam ideias com suas rivais (ou se definem em oposição a elas) e se adaptam ao gosto local.

 Se Roustaing escreveu coisas duvidosas, não creia que Kardec está isento disso;

 Se Ramatis é suspeito, não ache que a codificação está livre deles, do contrário este portal não existiria. Talvez o principal erro dos ramatistas foi colocar muitos ovos num mesmo cesto.

O que realmente há de impressionante nessa querela, é que os “Espíritas Kardecistas”, que se se consideram a adeptos da “Terceira Revelação”, advogam o reconhecimento do seu caráter cristão pelas filhas da “Segunda Revelação” ao mesmo tempo rejeitam como espíritas as seitas que são irmãs da sua! Alguma coisa está incoerente…

(www.falhasespiritismo.org/tag/umbanda/#kardecismoeespiritismo)

No documento Livro - Origem Da Umbanda 1 (páginas 160-163)

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