4 EDUCAÇÃO FÍSICA ENQUANTO COMPONENTE CURRICULAR
4.3 TEMAS DE ENSINO DA EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR
4.3.1 Esportes
4.3.1.2 Lógica interna
Antes de tratar pontualmente da lógica interna, manifesto o entendimento de que os professores precisam dominar uma série de assuntos fundamentais para ensinar esportes (GONZÁLEZ; BRACHT, 2012). Como mencionei em outro momento (BORGES, 2014), identifico-me entre aqueles que não compartilham da compreensão do ensino dos esportes com interação entre oponentes como um somatório de gestos motores, sem conexão com a necessidade decisional durante o jogo. Penso que não é possível desenvolver o ensino dos esportes de uma maneira que permita ao aluno uma apropriação do conhecimento procedimental de forma efetiva, se o professor não compreender alguns temas propostos por diferentes autores. Esses assuntos, relacionados à dimensão tática, permitem entender desde o funcionamento de um esporte, passando pela caracterização do seu ensino, até a formulação de avaliação do desempenho do aluno, ao final do processo. É sobre esses temas que me detenho na parte que segue.
A lógica interna é um assunto bastante central na EF, particularmente no ensino dos esportes. O domínio desse conteúdo permite que os professores oportunizem aos alunos o contato com um grande número de modalidades esportivas existentes – o que não é algo simples, pois na formação inicial os docentes tomam contato com um número pequeno de modalidades quando comparado com o total de práticas corporais consideradas esportes. Além disso, empodera parcialmente os educadores para realizar uma missão ainda mais difícil e complexa que é ensinar esportes, visando uma atuação proficiente dos educandos.
A lógica interna dos esportes é um termo utilizado para se referir às necessidades cognitivas e motoras que os praticantes de uma determinada modalidade esportiva precisam atender em função das regras/normas específicas. Um conceito bastante respeitado e citado no meio acadêmico para explicar a lógica interna, foi apresentado por Parlebas (2001, p. 302): “o sistema de características próprias de uma ação motora e das consequências que esta situação demanda para a realização de uma ação motora correspondente”.
Pontualmente, as características de cada esporte podem ser analisadas, em linhas gerais, através: (a) da interferência direta – ou não – do adversário; (b) da relação de cooperação entre companheiros; (c) das atribuições dos participantes no jogo. Como aponta Tavares (2013), a compreensão desse tema é crucial à medida que cada esporte exige atitudes diferentes e específicas.
Inicialmente, pode-se pensar que existem esportes nos quais não há presença de companheiros, sendo que o sucesso no confronto depende exclusivamente do desempenho de um único competidor. Um exemplo é o judô. Por outro viés, há modalidades esportivas nas quais os participantes contam com o auxílio de um ou mais companheiros de modo cooperativo, como é o caso do futebol. Assim, em relação à colaboração, os esportes podem ser classificados em individuais ou coletivos (GONZÁLEZ; BRACHT, 2012)60.
No que se refere às relações de oposição, é preciso analisar se os competidores interferem diretamente nas ações uns dos outros. Entende-se que não há interação entre adversários nos esportes em que os participantes atuam sem interferir nas ações dos oponentes, pois os movimentos são definidos antes da competição, como nos saltos ornamentais. Por outro lado, quando uma modalidade esportiva se caracteriza pela interferência entre os competidores, de modo que as decisões e os gestos motores precisam ser adaptados de acordo com os adversários, compreende-se que há interação, como no caso do voleibol61. Nesse tipo de esportes, “o quadro de jogo é organizado e conhecido, mas seu conteúdo é sempre surpreendente, porque não é possível prever e estandardizar as sequências das ações, podendo dizer-se que não existem duas situações iguais” (GARGANTA, 2006, p. 314-315). Por meio do entendimento desse assunto, é possível compreender que não seria adequado propor o ensino do atletismo e do futsal na mesma perspectiva, quando o foco for o conhecimento procedimental.
60 Uma consideração é que existem modalidades esportivas com provas individuais e outras coletivas, como o
tênis e algumas provas de corridas no atletismo, por exemplo.
61 É preciso prestar atenção para não confundir interação com contato físico. Como lembram González e Bracht
Por fim, em relação à lógica interna, a classificação dos tipos de esportes permite estabelecer relações e diferenças entre as várias modalidades existentes na contemporaneidade. Entre as várias classificações existentes (WERNER; ALMOND, 1990; FAMOSE, 1992; RITZDORF, 2000, entre outras), utilizo a proposta de classificação dos tipos de esportes apresentada por González (2004, 2006)62. O referido autor agrupa os esportes em sete tipos diferentes63, sendo que três não apresentam interação entre adversários e quatro apresentam.
Um dos que não tem interação é denominado esportes de precisão. Fazem parte deste tipo os esportes nos quais o objetivo principal é arremessar/lançar/bater um objeto (bola, flecha, projétil) visando a acertar um alvo – fixo ou em movimento. O ganhador é definido através do número de tentativas, pelo acerto no alvo ou proximidade. Um exemplo desse grupo é o tiro com arco. Um segundo tipo sem interação são os esportes de marca que agrupam as modalidades em que se estabelece o vencedor pela comparação de desempenho por meio de índices de tempo, distância, altura ou peso. Um exemplo é levantamento de peso. Os esportes técnico-combinatórios compreendem as modalidades em que o êxito na atuação está relacionado com a qualidade da execução e com o grau de dificuldade dos gestos motores adotados na prova, sendo imprescindível a presença dos árbitros que avaliam as performances dos participantes, como no caso da patinação artística.
No grupo das modalidades com interação, o primeiro tipo a ser apresentado é denominado de esportes de combate. Esses se caracterizam pelos confrontos nos quais o alvo da ação é o corpo do oponente, sendo que um lutador precisa superar o outro, de acordo com a modalidade, por meio de golpes, toques, desequilíbrios, imobilização e/ou deslocamento para fora do espaço determinado. Exemplo desse tipo de esporte é o boxe. Outro tipo, são os esportes de campo e taco em que o objetivo é rebater um móvel o mais longe possível, almejando ganhar tempo e espaço para percorrer as bases o maior número de vezes – ou a maior distância entre elas – somando pontos. Um diferencial desse grupo de modalidades é o fato de que as equipes revezam a vez de atacar, atacando e defendendo alternadamente. Como exemplo pode ser citado o beisebol. Os esportes com rede divisória ou parede de rebote, por sua vez, visam arremessar, lançar ou bater em um objeto (geralmente bola ou peteca) em direção ao espaço adversário – sobre uma rede ou contra uma parede –, buscando que o
62 Versões atualizadas da classificação se encontram também em González e Bracht (2012) e González e Fraga
(2012).
63 Seria possível ainda pensar num oitavo tipo: os esportes de translação. Esse grupo reúne modalidades
caracterizadas por percorrer um determinado percurso em menor tempo, ou completar um determinado número de voltas, com a particularidade que os competidores podem, dentro dos limites do regulamento, dificultar a ultrapassagem dos adversários, como no automobilismo (GONZÁLEZ; BRACHT, 2012).
oponente não consiga devolvê-la ou jogue-a fora do campo de jogo. Pode-se apontar como exemplo das modalidades de rede divisória o vôlei de praia e o squash como de parede de rebote. Finalmente, nos esportes de invasão, os atletas buscam invadir o espaço defendido pelos oponentes para postar um móvel (geralmente uma bola) e marcar pontos/gols/cestas, ao mesmo tempo em que não podem se descuidar de proteger sua própria meta, como no caso do handebol.
A classificação apresentada possibilita entender que esportes de um mesmo grupo – como o futebol e o polo aquático, por exemplo – estão pautados nos mesmos princípios táticos, por mais que um seja praticado num gramado, com os membros inferiores prioritariamente, e outro, numa piscina com os membros superiores. Esse conhecimento se torna útil quando se percebe, por exemplo, que a necessidade de “desmarcar-se para receber a bola” ocorre nos dois esportes de modo semelhante, podendo haver transferência de informações.
Figura 4 – Mapa dos tipos de esportes
ESPORTES
Sem interação entre adversários e classificados
pelo desempenho comparativo
Com interação entre adversários e classificados
pelo princípio tático do jogo
Precisão
Marca Técnico-
combinatório Combate Campo e taco
Rede divisória ou parede de rebote Invasão Ind Col Ind Col Ind Col Ind Col Ind Col Col