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3 LABIRINTOS – PERCURSOS DA PROSA

3.4 LABIRÍNTICO

A rememoração de Riobaldo configura-se como movimentos internos retrospectivos e prospectivos com o intuito de resignificar e reinterpretar uma síntese desse sertão interior e exterior físico e metafórico.

Segundo Soethe (1999) a conformação e o sentido de espaço em Grande Sertão: Veredas permite uma multiplicação de sentidos e polissemias, as quais estão integradas à tradição da literatura brasileira.

Pensamento similar pode ser verificado em Arrigucci (1994) para quem as definições do sertão no romance fazem dele um misto de realidade geográfica e sociocultural, enigma existencial e linguístico, espaço natural de origem e metáfora para a realidade que circunda e perpassa o homem.

Dessa forma, a experiência sensorial e emocional, tanto individual quanto coletiva, manifesta sentimentos contraditórios associativos e combinatórios em relação ao espaço, atuando assim na conformação do ethos e diretamente nos seus discursos.

Por esse motivo descrições geográficas do espaço literário, do entorno e sua relação intrínseca com as personagens se tornam essenciais para a compreensão da obra, e do discurso retórico de Riobaldo, pois fornecem argumentos para analisar os movimentos da memória individual sobre a realidade social e o espaço geográfico.

Orlandi (1996, pp. 29-30) ao interpretar a língua pelo viés da análise do discurso em processos discursivos, entende que a língua não se constrói em uma relação termo-a-termo entre coisas e a linguagem. A linguagem por si só é sempre incompleta. Portanto o signo é sempre uma questão aberta que coexiste com a interpretação. Os significados, portanto, se constituem por e no interdiscurso, e suas formulações se dão por meio do intradiscurso que sofre a intervenção da ideologia e dos efeitos do imaginário. Assim sendo a alegoria ou o símbolo não se estratificam nem mesmo no contexto particular de seu uso, pois em sua interpretação há uma série de interferências que não podem ser previstas.47

O sertão, em sua amplitude, assume no romance a forma alegórica e dialética que representa tanto o espaço geográfico determinado com suas especificidades geográficas, sócio-históricas e geoeconômicas, quanto, em sua amplificação subjetiva, o espaço interior dos seres humanos: “Sertão é dentro da gente” (GSV, p.

230). Ou o sertão ainda adquire o sentido de um aforismo gnômico que se apresenta ainda mais oculto: “A gente tem de sair do sertão! Mas só se sai do sertão é tomando conta dele a dentro...” (GSV, p. 240).

Na indeterminação subjetiva, o sertão assume sentidos ocultos que necessitam ser descobertos no texto em sua metafísica e subjetividade; mas ele também é objeto retórico que constitui o espaço das relações de poder que nele se instauram.

Segundo Hansen (2000, p. 119), Rosa reinventa e renova continuamente as imagens, pela alegorização. E o faz pelo deslocamento dos efeitos de interpretação, que se constituem como conceitos deslizantes, apontando para o sensível e para a

47 “Diante de qualquer objeto simbólico “x” somos instados a interpretar o que “x” quer dizer? Nesse movimento de interpretação, aparece-nos como conteúdo já lá, como evidência, o sentido desse “x”.

Ao se dizer, se interpreta – e a interpretação tem sua espessura, sua materialidade - mas nega-se, no entanto, a interpretação e suas condições no momento mesmo em que ela se dá e se tem a impressão do sentido que se “reconhece”, já lá. A significância é no entanto um movimento contínuo, determinado pela materialidade da língua e da história.[...] Necessariamente determinado por sua

Ideia, sendo que o sensível é apreendido pelo efeito imediato ocasionado pelo discurso sobre a coisa, na sua visualização imediata, empírica e icônica. Mas o faz também na figuração de uma memória do não-dito que emerge dos investimentos imaginários e, ao mesmo tempo, diz aquilo que se pensa sobre a coisa de forma abstrata.

O argumento de João Adolfo Hansen colabora para entender o papel que o sertão assume na obra, como elemento que conecta as experiências individuais e coletivas, e a forma de memória instaurada por ele, pois o que se pensa sobre a coisa relaciona “o significado de um termo com a representação sinestésica do objeto que o termo designa [...]. A alegoria efetua polissemia [...] numa relação entre a estrutura do léxico e o mito, de um lado, e a Natureza, de outro.” O estudioso prossegue com sua argumentação:

A operação etimológica fundada no caráter mimético da linguagem incide no léxico: metamorfizado, recategorizado por similitude, por contiguidade sonora e semântica, mimetiza UM indizível inscrito no mundo, como se houvesse conformidade entre as estruturas sonoras do nomes, as coisas e as significações correspondentes. Derivando assim a língua no discurso para aquém da coisa que o signo designa e para além da significação, a operação constrói o sentido como pluralidade significante, literariedade e poesia. [...] em GS:V, o procedimento alegorizante [...] [evidencia] o palpável da operação; simultaneamente, a figuração da coisa, como sentido literal e figurado, passa a ser designação de outra significação ─ de tal modo que a imagem do sensível é figura alegórica de ideia mais secreta cuja designação, por sua vez, pode designar outra [...]. Tudo fala, sistema ecoante de ecos, especularmente: fala o buriti, falam pássaros, fala o coisas que ali habitam e o designam por outras ideias.

As afirmações de Hansen nos direcionam para a seguinte interpretação: a alegorização em Rosa é uma técnica retórica que primeiramente cria efeitos de fundo a partir das imagens, pelas quais o narrador substitui o próprio (por exemplo, a imagem sertão) por outro figurado (um sertão interior que fala por meio de suas

exterioridade, todo discurso remete a um outro discurso, presente nele por sua ausência necessária.”

(ORLANDI, 1996, p. 30).

coisas e pessoas). Assim ele vai dizendo outro do mesmo, “como exploração das substâncias em que recortam a forma da expressão e forma do conteúdo.”

(HANSEN, 2000, p. 118).

As palavras e os “conceitos” sobre o sertão adicionam novas e inesperadas camadas de significado ao texto, o que indica a impossibilidade de se apreender o mundo como algo inexorável. Pois o que existe é transformação e mobilidade em sua ocorrência discursiva, de acordo com a finalidade, e as forças de poder em jogo, as formações imaginárias e as ideologias, que se instauram por meio dos discursos do passado e do presente, e talvez ainda na possibilidade de previsão de um futuro idealizado no processo de modernização.

A diversidade de interdiscursos exige que o interlocutor reavalie suas pré-concepções sobre o sertão: “O sertão está em toda a parte.” (GSV, p. 8) “O sertão é do tamanho do mundo.” (GSV, p. 96) “Esse sertão nacional” (GSV, p. 89) “[...] cidade acaba com o sertão, acaba mesmo?” (GSV, p. 167) “A gente tem de sair do sertão!

Mas só se sai do sertão é tomando conta dele adentro...” (GSV, p. 279) “Sertão é sozinho. Compadre meu Quelemém diz: que eu sou muito do sertão? Sertão: é dentro da gente” (GSV, p. 109), “O sertão tem medo de tudo.” (GSV, p. 313) “O grande-sertão é a forte arma. Deus é o gatilho?” (GSV, p. 343) “Mas o sertão está movimentante todo-tempo – salvo que o senhor não vê; é que nem braços de balança, para enormes efeitos de leves pesos... Rodeando por terras tão longes.”

(GSV, p. 517).

Portanto, o locutor, na tentativa de traduzir seu pensamento metafísico de um meio aperceptivo tão diverso daquele de seu interlocutor letrado e metropolitano, emprega diversos recursos estilísticos e a diversidade de gêneros literários e discursivos, a fim de que os enunciados possam ser apreendidos pelo outro. Parece-nos então que a tentativa de traduzir um universo sociocultural e estético para o outro, estrangeiro a este espaço, determina a forma discursiva e suas características estruturais.

Riobaldo se autoconfigura por meio de sua corporeidade como sujeito que habita e se relaciona com o entorno, apropriando-se da cultura histórica e mítica e concomitantemente nela se objetiva e se subjetiva, constituindo-se assim como sujeito discursivo. “Sentimentos que não espairo; pois eu mesmo nem acerto com o mote disso ─ o que queria e o que não queria, estória sem final.” (GSV, p. 318). Em

sua corporeidade (significada e performatizada na linguagem) a dimensão singular do sujeito aparece como aspecto que determina e é determinada pelo contexto discursivo, na relação com seu interlocutor. Nesse trânsito discursivo surgem conflitos entre instâncias discursivas antagônicas ou apenas distanciadas, gerando assim polissemias.