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3 LABIRINTOS – PERCURSOS DA PROSA

3.2 SER TÃO OUTRO EU

O processo discursivo (conversacional) envolve, ainda, as posições que os sujeitos da situação discursiva assumem. Essas posições são chamadas na Análise do Discurso de formações imaginárias39. Em Grande Sertão: Veredas muito se discute a respeito do interlocutor presente na situação “conversacional” e sua função

39 “Formações imaginárias” é um termo cunhado por Michael Pêcheux (1969) para descrever os lugares que os sujeitos do discurso atribuem a si mesmo e ao outro. “São lugares ‘representados’ no discurso, isto é, estes lugares estão presentes, mas transformados nos processos discursivos. [...]

São, pois, formações imaginárias - designando lugares que os locutores se atribuem uns aos outros - que constituem as tais condições de produção dos discursos.” (ORLANDI, 1998, p. 75).

na narrativa. No romance, tudo o que sabemos sobre o interlocutor de Riobaldo se dá por meio do discurso do próprio narrador (entendido agora no sentido bakhtiniano, segundo a definição de França, 2011).40

Por meio dos comentários, ou das perguntas retóricas de Riobaldo obtemos informações sobre quem é o “senhor” o que ele pensa, ou seja, acessamos de forma tangencial quem é esse outro que está presente durante todo o procedimento narrativo. Riobaldo assume o funcionamento discursivo, atribuindo ao “senhor”

determinadas características, ordenando seu discurso a partir daquilo que imagina sobre o outro, ou do que acredita que o outro pensa sobre ele.

O discurso é realizado num processo dialógico que instaura um “outro/tu” no discurso, esse sujeito discursivo designa o lugar que cada um assume na interação verbal (discursiva), ou seja, a posição que atribui a si e ao outro, e a ideia que faz de seu próprio lugar e do lugar do outro no construto discursivo. A presença da voz do outro ocorre por meio da interação verbal no âmbito das relações sociais, abrangendo não apenas o que é dito, mas também o não-dito, e o já-dito, ou seja, discursos outros que permeiam a interação conversacional e que se estabelecem em e na relação com esse outro.41

A existência de um sujeito para a análise do discurso é indissociável da ideologia, porém a ideologia deve e pode ser verificada não apenas naquilo que é dito, mas essencialmente na maneira em que se diz, ou seja, de que forma a linguagem é utilizada, gerando determinados gestos de leitura.42 Nesse sentido, o discurso de legitimação do passado de Riobaldo é amparado por uma narrativa que toma como ponto de referência a memória individual, que se combina com a memória coletiva e histórica, situada num determinado tempo e espaço geográfico, e com questionamentos do sujeito discursivo sobre a tradição e os valores culturais.

Nesse processo é que se constitui passo a passo o conjunto de ideias (as considerações “ideológicas”, em sentido amplo) de natureza filosófica,

40 “Se para Pêcheux o discurso deve ser compreendido em sua relação com o interdiscurso (inserido em uma historicidade), nos estudos de Bakhtin, a palavra “discurso” deve ser entendida como uma instância em que discursos outros se entrelaçam e se atravessam por meio da interação verbal entre sujeitos.” (FRANÇA, 2011, p. 6).

41 Sobre as formações imaginárias em Grande Sertão: Veredas, ver: HANSEN (2000).

42 O contexto de produção desses enunciados permite vislumbrar ou inferir as posições ideológicas dos envolvidos no procedimento discursivo. Portanto, segundo Orlandi: “Cabe, segundo o contexto

histórica, política e literária, que a fortuna crítica já revelou sob diversas perspectivas, e que ocasionalmente mencionamos aqui.

Na obra, Riobaldo arquiteta sua narrativa a fim de compreender e reconstruir o significado das experiências vividas e da impressão que essas lhe deixaram. As experiências compreendem o aprendizado retórico ao lado de Zé Bebelo, as experiências religiosas espontâneas do cotidiano e as aprendidas por meio da leitura dos almanaques; as canções ouvidas pelos cantadores tradicionais e os causos ouvidos dos jagunços. O conhecimento geográfico e natural foi adquirido empiricamente por Riobaldo em suas travessias e por trocas de conhecimentos tradicionais orais sobre as plantas e pássaros e principalmente por meio da observação ao lado de Diadorim.

A fala de Riobaldo, no âmbito da ficção, revela escolhas lexicais e a construção composicional do discurso. A fala emerge sob consideração da resposta do interlocutor aos enunciados, e assim também se compõem as descrições do espaço.43

Riobaldo é um narrador que assimilou múltiplos discursos ao longo de sua vida itinerante ocupou posições sociais diversas e ao narrar a sua história, repleta de conteúdo individual e subjetivo, narra também a história coletiva. Assim, reformular o já-dito e o não-dito para o “senhor”, torna-se essencial para que possa alcançar seu objetivo: tornar a estória de sua vida compreensível e quiçá memorável.44

Na narrativa acompanhamos de forma simultânea dois processos que podem ser relacionados à afirmação acima, pois vemos de um lado as reminiscências de um passado que se utiliza do argumento dos problemas sociais como impulsos

em que aplicamos a palavra ideologia, conceituá-lo: redefinindo a ideologia discursivamente, podemos dizer que não há discurso sem sujeito nem sujeito sem ideologia”. (ORLANDI, 1996, p. 31).

43 Segundo Orlandi (1994, p. 58), “os fatos não se encontram em sequência cronológica, não são sucessivos e seus sentidos não estão pré-fixados, mas estão ali a reclamar novos sentidos, cuja materialidade ou determinação significativa não é possível apreender em si, mas no discurso. Assim, quando afirmamos a determinação histórica dos sentidos é disso que estamos falando. Não estamos pensando a história como evolução ou cronologia, mas como filiação; não são as datas que interessam, mas os modos como os sentidos são produzidos e circulam.”

44 Câmara Cascudo ao discorrer sobre o conto popular, Etnografia e Folclore escreve: “[...] a produção anônima e coletiva (Van Gennep) é um dos mais altos testemunhos da atividade espiritual do Povo em sua forma espontânea, diária e regular [...] ensina a conhecer o espírito, o trabalho, a tendência, o instinto, tudo quanto de habitual existe no homem. Ao lado da Literatura do pensamento intelectual letrado, correm águas paralelas, solitárias e poderosas, da memória e da imaginação popular.” (CASCUDO, 2001, pp. 12-13).

naturais para decidir sua trajetória, servindo como uma retórica da inocência, uma vez que o meio e as condições do espaço são determinantes da ética coletiva. Por outro lado, a narrativa se constrói no presente por meio da reconstrução das recordações, as quais se adequam às necessidades do presente e atrelam-se às recordações e sensações de Riobaldo e de seus conteúdos subjetivos.

Riobaldo vai costurando sua narrativa lentamente por meio da repetição, e assim a aperfeiçoa: seu primeiro destinatário é Zé Bebelo, depois compadre Quelemém, para quem contou mais de uma vez, e agora narra para o “senhor letrado da cidade” que a anota em seu caderninho.

A argumentação proposta até o momento explica de que forma o contexto de atualização da narrativa ordena e encadeia as estruturas elementares, como o léxico, a pontuação que propõe uma partitura de leitura, assim como outros aspectos formais, que também encenam a transformação da tradição oral em texto escrito. O

“senhor” da cidade pode estar desempenhando o papel daquele que transcreve e recolhe as narrativas orais e que no romance rosiano serviria como ordenador da narrativa caótica de Riobaldo, transformando-a em texto legível e compreensível. E ele também exerceria a função de juiz sobre os atos de Riobaldo.45