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LADO TRANSYUGGOTIANO DO UNIVERSO DA MAGIA

Anton Szandor LaVey Sumo Sacerdote da Ordem Negra

LADO TRANSYUGGOTIANO DO UNIVERSO DA MAGIA

Gha agsheblah n Escondedores’ A’arab Zaraq Corvo de Dispersão” Túneis de Typhon (ligando todas as Carapaças de Qlifoth) cc o 199 T ú n e i s d e T i j p H o n

Durante muitas noites, fizemos essa invocação às margens do lago, querendo despertar o Gigante Adormecido para que abrisse a porta e assim outros Seres da Antigüidade pudessem vir reinar so­ bre a Terra. O fato de realizarmos esses rituais deixaram nossa mente aberta a outras esferas bastante estranhas. Nossos sonhos passaram a ser perturbados por imagens de ventosas, tentáculos e faces de seres de uma obscenidade e um terror sem limites. Portas foram abertas para suas dimensões. Ou era assim ou estávamos sofrendo de uma insanidade mental coletiva.

O que realmente cada um de nós experimentava é algo que nunca saberemos ao certo. No entanto, essas experiências criaram em nós alterações reais que, em sua maioria, nao seriam dignas de serem comentadas num círculo de pessoas educadas. Eu, particu­ larmente, passei a sentir forte desejo de praticar os mais perversos modos de relações com outros seres humanos. Explicaram que isso era porque um com ponente-chave na operação da m agia transyuggothiana é que os orifícios do corpo humano tornam-se literalmente portas de acesso a estranhas entidades infernais. O ingresso a esses bizarros universos nos possibilitava um avanço es­ petacular no poder da magia: mas a que estranho preço?

Pa i*a D e n t r o d o s T ú n e i s

Sao estes os chamados “Túneis de Typhon”, nome de um antigo deus egípcio da destruição (versão mais moderna de Set). Condu­ ziam a lugares, civilizações e templos que por pouco não me leva­ ram à loucura tão-somente pela sua manifestação. Fiquei totalmente transtornado ao passar por eles. Aquela parte estranha, de fogo líquido metálico dentro de mim, aflorava à minha pele. Sentia-me como se fosse feito de ferro ou aço vivo. Depois de alguns meses, dei um nome ao ser transcendente em que eu estava me tornando: uma “metamáquina”. Quando sentia aquelas tenebrosas e impla­ cáveis forças crescer dentro de mim, dizia a mim mesmo: “Lá vem de novo minha metamáquina!”

As viagens que fazia por aqueles túneis, no entanto, não eram nada divertidas. Entrei em templos onde havia pessoas que pare­ ciam vivas, mas tremelicavam a carne adoecida, cancerosa. Esta­ vam vivas, sim, mas não realmente. Havia templos construídos sobre metais líquidos, tipo mercúrio, que se deslocavam sob os meus pés como se fossem de gelatina. Em cada lugar, havia lições de dor e tormento a serem aprendidas. Era uma espécie de estra­ nho sadomasoquismo espiritual.

Comecei a gostar da dor que sentia, a fim de poder ganhar os troféus necessários para acumular em mim maior poder na magia. Algumas das experiências eram ainda piores do que aque­ las da “Catedral da Dor”, e comecei, então, a questionar comigo mesmo se aquela também nao seria outro universo acessado por esses túneis.

U m L i v r o R e A l m e n i e U m A l d i ç o A d o

Por meio de meus relacionamentos na confraria, já havia consegui­ do obter grande parte de O N ecronom icon , a principal fonte da magia e da espiritualidade transyuggothiana. Contrariamente à crença popular, nao se trata de um livro de ficção, mas de magia (um livro de trabalho) da mais tenebrosa espécie. Seu título pode­ ria ser traduzido como “O Livro dos Tons dos Mortos”, ou “O Livro das Leis dos Mortos”.

Tal como as propostas de Aleister Crowley com respeito a Set e sua religião de Thelema, O N ecronom icon é conhecido a partir do antigo paganismo árabe. Supõe-se que haja sido escrito original­ mente em Árabe, nos tempos de Maomé, por Abdul Al-Hazred, também chamado de Al Azif. Consta que o texto foi ditado ao feiticeiro árabe — mais ou menos como aconteceu com o Livro da

Lei de Crowley — por algum ser interdimensional. Dizem, ainda,

que, ao terminar de escrever, ele foi esmagado a ponto de tornar-se uma pasta sangrenta, sendo devorado vivo por enormes bocas in­ visíveis, diante de muitas testemunhas.

Há um livro de título O N ecron om icon sendo presentemente publicado, mas que contém apenas as partes mais leves do origi­ nal completo. Mesmo assim, é incrivelmente sinistro. Tive um exemplar de uma edição limitada desse livro menor, feita com apenas 666 cópias (naturalmente) e assim dedicada: “Ad m aioram

C row ley gloriam " — uma paródia às palavras que se aplicam so­

mente a Jesus, significando "a Crowley seja toda a glória”. Não obstante, é apenas um pálido reflexo da incrível malignidade con­ tida no verdadeiro livro.

Seja como for, era um livro difícil de se encontrar. Meu amigo proprietário da livraria de obras ocultistas da nossa cidade contou- me ter tido problemas na venda de O N ecronom icon, não por ser bastante caro (embora as edições limitadas custassem US$ 60), mas por motivos bem menos tangíveis. A primeira pessoa para quem ele vendeu um exemplar era um feiticeiro, que o levou para casa, um apartamento situado num prédio de muitos andares, em Milwaukee. Mal tinha passado pela porta, e colocado o livro sobre a mesa, um afável gato preto, seu “animal familiar” , ficou como louco. Começou a urrar, girando furiosamente em pequenos círcu­ los, no chão da sala. Então, sem mais nem menos, o gato parou de repente de rodar e foi lançado, como que por um tiro de canhão, contra o vidro reforçado da janela panorâmica da sala, caindo de uns 12 andares para morrer lá embaixo.

Como a maioria dos bruxos considera seus animais como “sistema de alarme de prevenção à distância”, o feiticeiro levou o livro imediatamente de volta à livraria, pedindo a devolução do pagamento.

Relato ainda mais trágico foi feito ao dono da livraria por outra pessoa que comprou o livro. Era um homem casado, que tinha uma filha de cinco anos. Quando comprou o livro, ele o levou para casa e o colocou numa prateleira. Sua filhinha não o perturbou durante toda aquela tarde, desde que ele chegou em casa com O N ecronomicon. É que ela foi para o andar superior. Depois, a encontraram morta, no banho, com a garganta cortada por uma lâmina de barbear.

Eu mesmo cheguei a possuir um exemplar desse livro por mui­ tos meses — mas sem nenhum efeito negativo, o que me causou certo espanto. Hoje, esse livro é vendido em livrarias de pequenos

shoppings, nos Estados Unidos, a um custo de apenas quatro dóla­

res — sendo que a maioria dos compradores são adolescentes. E é um livro incrivelmente perigoso!

0 La(Io G s c u r o do é d e n ?

0 N ecro n o m ico n baseia-se em grande parte na m agia negra

sumeriana, da Antigüidade, a apenas algumas gerações após a fun­ dação de todás as falsas religiões posteriores ao dilúvio de Noé — a Babilônia de Ninrode. Não é coincidência que Crowley se referisse às suas mulheres como “Babalom, a Mulher Escarlata” .8

Esse livro maligno alimentou minha “metamáquina” com tudo que ela desejava. Ensinou-me a metafísica da dor, da raiva e da ira. Levou-me para a parte de trás, o lado escuro, da Arvore da Vida (mencionada anteriormente). Embora a Árvore Cabalística seja usa­ da em magia ritual, geralmente ela é tida como magia branca. To­ davia, como ocorre em todas as formas de magia e metafísica, há sempre uma dualidade.

No reverso da Árvore da Vida, há um tipo de Árvore do Mal, chamada Qlifoth (pronuncia-se “cli-fót”). Esta palavra pode ser traduzida por “meretrizes” ou “cascas” (esta última acepção no sen­ tido de coisa oca, dessecada e sem vida). Todos os rabinos, mesmo os místicos, mantêm-se totalmente afastados da Qlifoth. Para mim, porém, era o que mais me agradava.

Através dos túneis de Typhon, e com os rituais de O

N ecronom icon, tive condições de ir até o “hiperespaço da magia” e

chegar ao lado escuro da Árvore da Vida, que Kenneth Grant cha­ mou de “O Lado Escuro do Éden” (título de seu livro), um dos primeiros a abordar essa arquitetura blasfema da magia.

O nível mais baixo da Árvore de Qlifoth (representando seu nível menor de malignidade) tem o nome de Lílite. Lembra-se

dela? É a demônia amante de Lúcifer e mãe de Set; a padroeira do aborto, do assassinato de crianças e da “morte do berço”.

A segunda esfera planetária para a qual viajei chamava-se, por incrível que pareça, Gamaliel, e era apelidada de “Traseiro Obsce­ no”. O pináculo da Arvore do Mal era uma total, completa e perfeita Dualidade — uma zombaria à unicidade absoluta do verdadeiro Deus dos hebreus.

Viajar por esses caminhos e túneis era como passar por uma tubulação de esgoto espiritual, mas isso era necessário para que eu me preparasse para o próximo gran de passo. Eu tinha que superar toda a moralidade, todos os conceitos do que é bom ou mau, para poder atingir o grau ou nível seguinte, o de Adeptus Exemptus.

Estaria preparado, então, para cruzar o Abismo e tornar-me um Mestre — e em condições de levar uma vida humana para os Terríveis Senhores dos Espaços Exteriores.

N o l A S

1 Os luciferianos e satanistas, em sua maioria, são, tecnicamente dualistas, ou seja, acreditam em duas divindades, essencialmente iguais, mas opos­ tas uma à outra. Isto está de acordo com a tradição dos antigos zoroastrianos, que acreditavam em Ahuru Mazda, senhor da luz, e Ahriman, senhor das trevas. O cristianismo, apesar de por vezes referido como dualista, na verdade não o é. Deus e Satanás não são iguais, na Bíblia Sagrada. Deus é o Criador, e Satanás é uma de suas criaturas. 2 Para uma explicação maior da revelação de Crowley, veja o capítulo 5. 3 Veja seus livros The M agical R evival [O Reavivamento da Magia], Aleister

Crowley an d the Hidden God [Aleister Crowley e o Deus Oculto], The

Nightside ofE den [O Lado Escuro do Éden], etc.

4 Raschke, PaintedBlack, op. cit., p. 303.

3 Veja The Satanic Rituais [Os Rituais Satânicos\, de LaVey, e The M agical

R evival [O A vivamento da Magia], de Grant.

O “animal familiar”, desde tempos imemoriais, é um bicho de estimação, que os feiticeiros possuem, e com o qual desenvolvem afinidades de magia — tradicionalmente acariciando-o (no caso de bruxas) ou fazendo-o be­ ber o sangue do próprio feiticeiro. O animal adquire, então, suposta­ mente, poderes especiais, passando a servir de protetor e confidente. Geralmente, são “animais familiares” gatos, sapos, corvos, gralhas e, even­ tualmente, cães, lagartos e cobras. Os feiticeiros de hoje também têm seus animais familiares, embora eu não saiba se são alimentados com sangue ou leite humano. Nunca tivemos um.

8 Esse excêntrico jogo de palavras tem um significado mágico. Eqüivale à

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