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PARTE II – Uma rede pulsante

4. Aproximações dos objetos de estudo

4.1. Largo do Paiçandu

A escolha do Largo do Paiçandu se justifica pela importância histórica de ter abrigado um potente centro cinematográfico e boêmio, por passar hoje por um sintomático e agudo momento de abandono da arquitetura da praça e pelo seu contraste com as formas de apropriação do entorno.

4.1.a - Largo do Paiçandu

Yacuba, Zunega e Paysandú

O Largo do Paiçandu (Largo do Payssandu, na grafia antiga, ou Paissandu, grafia em placas da prefeitura), formado em 1870, está localizado dentro de um quadrilátero formado pela Avenida São João, Rua Conselheiro Crispiniano, Avenida Rio Branco e interligação entre as Ruas Dom José de Barros e Antônio de Godoy.

4.1.b – Rua São João em 1887

Segundo Manoel Vitor7, o nome original do largo era Praça das Alagoas em alusão às diversas nascentes e lagoas formadoras do riacho Yacuba:

O nome original do local era Praça das Alagoas em alusão às diversas nascentes e lagoas formadoras do riacho Yacuba, ali existente. A lagoa mais volumosa era a conhecida a partir de 1870 como Tanque do Zunega8, nome pelo qual passou a ser denominado o local, em detrimento de Praça das Alagoas. Com a drenagem da área e canalização do rio Anhangabaú, o nome foi modificado para Largo do Paissandu em homenagem à cidade de Paysandú tomada no Uruguai em 1865. Atualmente a grafia utilizada é Paiçandu, por se tratar de palavra indígena, Ypaúçando.

O o eà Paissa du , segundo alguns historiadores, vem da cultura dos índios guaranis da junção das palavras pai= senhor, mbai= estrangeiro, arandú= sábio:

7 “ oàPauloàdeàá tiga e te ,à “a paá t ,à oàsiteàofi ialàdaàP efeitu aàMu i ipal.

A presença dessa influência guarani na razão do nome dado à praça localizada no Centro de São Paulo pode estar no fato das investidas do Brasil na Guerra do Paraguai. Oà o eà La goà doà Paissa du ,à nomenclatura definitiva recebida por proposta do vereador Malaquias Rogério de Salles Guerra, em 28 de novembro de 1865, refere-se à Batalha de Paissandu, iniciada em 1864, com o lançamento de um pelotão do Exército, comandado pelo General Menna Barreto, em direção a Paysandú, no Uruguai, contra as tropas paraguaias, ataque que antecedeu a Guerra do Paraguai. O cerco durou quase um ano, terminando com a vitória de brasileiros e uruguaios, quando as tropas abriram o caminho que desejavam até Montevideo. Como o nome Paissandu ficara célebre naquela fase preparatória da Campanha do Paraguai, ao término da luta foi esse nome dado ao Largo.

4.1.c – Largo do Paiçandu, fim do século XIX

Em 1651, Henrique da Cunha Gago e Cristóvão da Cunha solicitaram aos poderes públicos um terreno para que pudessem dar continuidade ao desenvolvimento de São

Paulo.

“o e teà e à eadosà doà s uloà XIXà à ueà aà ea,à po à o de à doà governo provincial, foi dessecada e terraplenada. Mesmo assim, permaneceu pouco valorizada, contando com reduzida ocupação e mantendo seu caráter periférico.9

4.1.d – Térreos com uso predominantemente comercial

4.1.e – Superiores com uso predominantemente corporativo

4.1.f - Ocupação diária moderada, com predomínio de passageiros de ônibus

4.1.g - Ocupação pontual intensa nos fins de semana, como na Galeria do Rock

A Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos

A Irmandade de N. Sra. do Rosário dos Homens Pretos, criada em 1711, foi abrigada inicialmente em uma capela singela construída por volta de 1721, numa área ainda considerada suburbana, onde está hoje situada a Praça João Mendes.

A capela era um ponto de encontro de negros, àquela época proibidos de entrar em outras igrejas. Além de cerimônias religiosas, o local abrigava também o cemitério dos negros e, em seu subsolo, um quilombo. à LOPE“,à ,àp. 27)

A Irmandade se muda para um novo templo, que teve construção autorizada em 1725 e foi concluído, provavelmente, em 1737, próximo à atual Rua Quinze de Novembro, em local que antes já abrigava os cultos dos negros eàago aà o se a aàasàt adiç esàdaà cultura africana, por meio de autos populares dos congos e cacumbis, tendo dese pe hadoàai daài po ta teàpapelà oàp o essoàdeàa oliç oàdaàes a atu a 10 (Rolnik,

apud LOPES, 2002)

Em 1872, o àaàdesap op iaç oàdeàpe ue os prédios e do terreno do cemitério aí e iste te 11, era autorizada a abertura de um largo em frente à igreja, que viria a se

chamar Largo do Rosário. O largo passa a sediar comércios de luxo e a presença do comércio informal dos negros passa a ser vista como fator de desvalorização do lugar.

Assim, a Igreja dos Homens Pretos, o Largo do Rosário, seus ambulantes e as manifestações culturais populares de origem afro e indígena deveriam representar um desafeto à elite e ao poder público, por estarem localizados num dos pontos que mais se europeizavam – o

T i guloàCe t al 12

J àe à ,àso àaà ideologia13 de modernização e higienização da

cidade, a própria igreja tinha seu destino traçado: a remoção para outra área, novamente periférica à Cidade.

9 La goàdoàPaissa duà- i te e ç oà o ài lus o ,àt a alhoàdeàg aduaç oàpa aàaàFáU-USP de Ana Carolina Louback Lopes e Anita R. Tan De Domenico. 2º sem / 2002. Orientador: Prof. João Sette Whitaker Ferreira.

10 Segundo Rolnik, as irmandades de negros, além de comprarem alforrias, atuavam como sedes ocultas de redes de suporte aos movimentos abolicionistas (ROLNIK, 1997).

11 PORTO, Antônio Rodrigues. História Urbanística da Cidade de São Paulo (1554 a 1988), pg. 53. 12 SANTOS, Carlos José Ferreira dos. Nem Tudo Era Italiano – São Paulo e Pobreza (1890-1915), pg.125.

13 O emprego do termo ideologia pretende ressaltar a verdadeira intenção do poder público, que, ao utilizar-se de tais argumentos, visava, sobretudo, o afastamento das camadas populares, cuja presença desvalorizava a região. ... a ideologia é um ideário histórico, social e político que oculta a realidade, e (...) esse ocultamento é uma forma de assegurar e manter a exploração e o ô i a, a desigualdade so ial e a do i ação políti a (CHAUÍ, Marilena. O que é

A partir de 1903 inicia-se a demolição de imóveis para ampliação do Largo do Rosário, incluída sua igreja. Desaparecera a igreja. Era uma vez o Largo do Rosário... Os pretos não mais enfeariam o pátio com suas festanças, reis, rainhas, rústicos... A cidade fi a aàli eàdeà ostu esà a os .14

4.1.h – Largo do Rosário

O remanejamento constante da sede da Irmandade é representativo da estratégia higienista oficial, mal camuflada pela retórica que a justifica:

áà uda çaà daà Ig ejaà doà ‘os ioà e e plifi aà aà i te ç oà doà pode à pú li oà deà e eleza à eà eo ga iza à aà idadeà segu doà osà i te essesà daà classe dominante, promovendo, sobretudo, uma limpeza social. Este processo envolvia a expulsão das camadas populares para a periferia, demonstrando desprezo no combate à pobreza e preocupação em somente afastá-laàdoà o í ioàso ial. à LOPE“.à ,àp.à

... àaàp o u aàpelaà e odelaç oàa uitet i aàdeà“ oàPauloàeste eà relacionada à formulação de uma nova percepção do que deveria ser a cidade e seus lugares, à tentativa de eliminação de tradições i o e ie tesàeà à a gi alizaç oàdosài desej eis 15

A igreja foi reconstruída no Largo do Paiçandu, sendo inaugurada em 22 de abril de 1908. Ao longo do século XX, a igreja enfrentaria outras dificuldades e ameaças de demolição como, por exemplo, o desenvolvimento da Cinelândia Paulistana, a partir da década de 1930, ou o plano urbanístico da gestão de Prestes Maia que, em 1940, já queria substituir a igreja por um monumento a Duque de Caxias.

Com todas as dificuldades, a Irmandade resiste até hoje no Largo do Paiçandu. Artigo de Maristela Orlowski16 relata o estado deteriorado de conservação da igreja, com estrutura, mobiliário e acervo deteriorados, paredes rachadas, infiltrações, vitrais quebrados e presença de cupins.

Ainda assim, a Irmandade conserva tradições significativas. Neste local, ocorrem as comemorações pela Libertação dos Escravos, no dia 13 de maio, e, mais recentemente, também pelo Dia da Consciência Negra, em 20 de novembro. Nas duas ocasiões, são realizadas missa-afro, com música, cânticos, danças e indumentárias africanas.

A igreja tem uma implantação não ortogonal em relação à quadra, com o portal principal voltada para a face sul, aberta à chegada do cruzamento da Rua Conselheiro Crispiniano com a Avenida São João. Essa implantação é definidora do pulso desigual do Largo.

15 SANTOS, Carlos José Ferreira dos. Nem Tudo Era Italiano – São Paulo e Pobreza (1890-1915), pg.126. 16

http://images.marwski.multiply.multiplycontent.com/attachment/0/SCsEEAoKCrsAAFvq0IA1/Igreja%20no%20Centro %20clama%20por%20restaura%C3%A7%C3%A3o.pdf?nmid=96042033

4.1.i - Igreja em 2013

A face oeste é voltada para um setor ajardinado, com canteiros de percurso induzido e árvores de grande porte gerando sombra. Essa esquina verte para uma confluência de ruas mais estreitas, rebaixadas e que se conectam com a Praça do Correio.

A face leste, voltada para a Avenida São João, embora com movimento mais intenso de carros e pontos de parada de ônibus, e, por isso, mais movimentada, é mais aberta e convidativa à permanência prolongada em seu pátio.

Nesse pátio, ao lado da face leste da igreja, encontra-se o monumento à Mãe Preta, uma estátua feita em bronze fundido e patinado, implantada em 1955 e tombada pelo CONPRESP (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo), pelo seu valor cultural. É obra do escultor, professor de escultura e pintor Júlio Guerra (1912/2001)

4.1.j - Monumento à Mãe Preta 4.1.k – Detalhe do monumento

Retratando uma Mãe Preta, amamentando uma criança, possivelmente branca, remontando à época da escravidão em que escravas negras, que haviam dado à luz seus filhos, eram amas de leite de filhos de suas senhoras.

A estátua ganhou posição quase de uma entidade religiosa pela população, reunindo em torno de si rituais católicos e ligados à matriz africana. É possível ver transeuntes depositando a seus pés velas e oferendas como flores, bebidas, comidas e pedidos em pedaços de papel.

Boemia e Cinelândia

O Largo do Paiçandu também guarda a memória de um eixo muito pulsante, iniciado com o alargamento da então Ladeira São João (projeto de Joseph Bouvard, 1913 a 1918).

Esse eixo ficou conhecido como a Cinelândia Paulistana e teve como destaques o Teatro Politeama (1892), que cedeu lugar ao Cine Central após um incêndio (1916), Circo do Piolin (1925), ambos junto ao Largo, o Cinema Bijou-Palace (1907), o Conservatório Dramático e Musical de São Paulo (frequentado pelos modernistas, inclusive Mário de Andrade), os primeiros carnavais de rua de São Paulo. A partir da década de 1920, esse eixo se consolida com forte interesse empresarial, com salas mais sofisticadas.

Vale resgatar que os Modernistas, sobretudo Oswald e Mario de Andrade promoveram uma interessante aproximação de outras formas menos elitizadas de expressão artística e Piolin pode ser considerado emblema dessa aproximação. Segundo o site oficial da p efeitu a:à E à ,à oà diaà doà seuà a i e s io,à osà ode istasà homenagearam Piolin com um almoço que chamaram de Festim Antropofágico. Considerando que os antropófagos comiam o inimigo para adquirir suas qualidades, o ato si li oàdeà o e àPioli à o stituiu-seà u aà e dadei aà o sag aç oàaoàpalhaço.

4.1.l - Reprodução de aquarela sobre papel Oà i o à (32,5 x 50 cm), da arquiteta Lina Bo Bardi

4.1.m - Piolin cercado de amigos, incluindo seu empresário, Sr. Jacob Bianchi e Oswald de Andrade

A vida cultural dos cinemas tinha rebatimentos na vida boêmia, baseada no "Bar Rostov" e do famoso Po toàChi ,à aàdécada de 1930.

E à ,à aà o st uç oà doà UFá-Palácio, projetado por Rino Levi, representou um marco na concepção dos cinemas, ao solucionar questões técnicas e funcionais até então não consideradas. Simbolizava a modernização da cidade, consolidando, portanto, a Avenida São João como um corredor cultural e definindo de vez a localização da Cinelândia paulista a. à LOPE“.à ,àp.à

4.1.n - UFA-Palácio, na década de 1940 4.1.o - Art-Palácio, em 2013

U à o o,à pode osoà ei oà a aà aà idadeà deà “ oà Paulo,à gi a do,à centrípeto. Esticada, recta, entre duas montanhas symbólicas de nossa grandeza – o Jaraguá, a montanha histórica que Deus fez; e o Martinelli, a montanha moderna que os homens fizeram – a Avenida São João, centralizadora, attrahente, magnética, vae chamando a si a vida urbana, que a ella se gruda e com ella roda empolhada toda de arranha-céus, apinhada de altos e trams, inchada de pencas de gente, borbulhada de cachos de luz. (...) E – synthese da vida de hoje, índice infalível do progresso desses tempos – o cinema também para alli converge, es a a a doà asà suasà po tasà eà i a à pa aà aà d ilà li alhaà hu a a . (ALMEIDA, 1938, p. 40)

Na década de 1940 amplia-se a rede de salas, com inauguração de mais de vinte salas17, mas a década seguinte registra os primeiros sinais de desinteresse do público, a partir do surgimento de outras formas de diversão, como a construção do Estádio do Pacaembu, as radionovelas e, posteriormente, a televisão. Ainda assim, a Cinelândia consegue se manter e salas importantes são construídas nesse período: Olido, República,

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Rivoli e Paissandu.

Na década de 1960, com a migração da centralidade para a Região da Avenida Paulista, o polo de cinemas deixa de atrair espectadores e passa a exibir filmes eróticos. Ao longo da década de 1980, esses cinemas tiveram uma transição de usos muito parecida, entre bingos ou igrejas evangélicas. Hoje, alguns resistem exibindo files eróticos ou foram transformados em estacionamentos.

4.1.p - Cinemas de exibição de filmes eróticos 4.1.q - O Ponto Chic e o pernil grego

A praça tem um fluxo intenso de pedestres, sobretudo por ser terminal de X linhas de ônibus e ponto de parada de outras 57 (?) linhas. Porém, está em péssimo estado de manutenção e sem previsão de reversão desse estado. Há muitas atividades durante o dia e raríssimas à noite, tornando o local perigoso.

4.1.r - Terminais de ônibus 4.1.s - O abandono do largo

abandonados, sobretudo na Avenida São João, entre o Largo e a Avenida Ipiranga, são invadidos por movimentos de reivindicação à moradia, ainda que a infraestrutura da região central não atenda completamente à demanda.

O distrito da República conta com apenas duas escolas de educação infantil (ambas públicas), atendendo apenas 29% da demanda; duas estaduais de ensino fundamental, apresentando taxa de atendimento de 29,3%; e apenas uma, particular, voltada ao ensino médio, não dispondo de nenhuma creche ou centro de juventude. No campo da saúde, há apenas três postos de atendimento médico. A oferta de equipamentos esportivos é também bastante precária. 18

4.1.t - Edifícios invadidos 4.1.u - Edifícios invadidos

As únicas propostas oficiais de requalificação da Praça são do Programa Municipal P‘OCENT‘O 19 e a inauguração da Escola de Circo no Beco do Piolin, prometidas desde 2009 pela Prefeitura, mas ainda sem previsão de início.

Com projeto de Marcos Cartum, Sandra Llovet e Claudio Libeskind, o projeto prevê desapropriação de estacionamentos e um antigo cinema. Estrutura deverá incluir, além do circo, a escola com cursos gratuitos, estrutura de apoio, auditório e sede do Centro de

18 Dados obtidos através de uma comparação de duas publicações da SEMPLA: BDP – AR-Sé, de 1993 e São Paulo em Números, de 2000-2001. Vale ressaltar que a oferta dos equipamentos de educação e saúde não se alterou nesse intervalo de tempo.

Memória do Circo, que desde 2009 funciona na Galeria Olido. 20

Galeria do Rock, Missa Afro e Paço das Artes

Ainda que o Largo esteja em franca deterioração, algumas formas de apropriação do entorno são pulsantes e podem, se observadas, contagiar a praça, seja pelas mãos da cultura afro-brasileira, com a presença da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, pelos intensos movimentos de reivindicação à moradia em seu entorno, ou pelo lento renascimento a partir da presença de equipamentos culturais: o Teatro Municipal, o Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, a Galeria Olido, a Praça Municipal das Artes e a Galeria do Rock.

4.1.v – Praça das Artes 4.1.w – Galeria Olido

Uma das mais conhecidas e visitadas construções do Largo do Paiçandu é o Shopping Center Grandes Galerias, popularmente conhecido como Galeria do Rock, que possui lojas com artigos relacionadas ao gênero, além de lojas com artigos de hip hop no subsolo.

A Galeria do Rock é um edifício de uso múltiplo, de autoria de Ermanno Siffredi & Mario Bardelli, com desenho de piso de Bramante Buffanni, entre a Rua Vinte e Quatro de Maio e o Largo do Paiçandu.

4.1.x – Galeria do Rock: claraboia 4.1.y – Galeria do Rock: piso

Implantado em um lote estreito e alongado (19,0 x 190,0 m), o edifício faz conexão entre a Rua Vinte e quatro de maio e o Largo do Paiçandu, com pisos conectados por um lance de escadas rolantes para cada acesso e uma escada em arco no centro do edifício, com acesso aos quatro pisos superiores.

Os pisos são integrados visualmente pelo interesse compositivo da perspectiva dos mezaninos elípticos não idênticos, aliada às variações do piso de Bramante Buffanni.

Nesse edifício percebe-se uma tipologia clássica. É um espaço fechado, de circulação linear, com percurso e domínio induzidos e corredores estreitos, com largura que chega a se estrangular em até 2,0 m entre a fachada das lojas e o guarda-corpo que protege a circulação dos vãos.

A Galeria possui características morfológicas muito singulares, mas que ganham novos significados pelo programa de usos.

A largura dos corredores permite uma interação visual entre transeuntes, consumidores e lojistas, pois os produtos estão sempre visíveis. Mais que isso, o estímulo à permanência prolongada, sobretudo de públicos interessados em cultura alternativa, aliado à integração visual entre pisos, cria situações em que o transeunte pode trocar de posição e observar o movimento.

4.1.z – Galeria do Rock 4.1.aa – Galeria do Rock

Os vazios são providenciais para a integração visual entre o térreo e os pisos superiores onde essas aberturas e a largura dos corredores deixam que os visitantes sejam momentaneamente convertidos em observadores, gerando um vazio potente, campo fértil que pode possibilitar o inesperado das relações e trocas espontâneas e a articulação das possibilidades de contágio de forças.

A Galeria do Rock conecta dois pontos em um acesso quase natural, mas com um caminho estreito, com visão direcionada às lojas. O grande interesse da circulação encerra- se na própria Galeria, com alguma frustração e anticlímax no momento da chegada ao Largo do Paiçandu ou à Rua Vinte e Quatro de Maio.

Tais condições arquitetônicas foram potencializadas pelo programa da Galeria, com lojas destinadas aos interessados em música alternativa, comércio de produtos para estamparia e artigos de esportes radicais, além de serviços de estética para públicos espe ífi osà pe teadoà af o ,àtatuage àouàpiercing).

A Galeria do Rock assumiu, com uma nova zeladoria, um modelo de gestão mais profissional e com abertura para novos segmentos. A diversidade pode, então, se tornar mais efetiva pelo apelo a públicos que não comprovem laços com o território e com a disposição do espaço a novos grupos. Dessa forma, sem fronteiras antropológicas, a Galeria ganha traços singulares, como se somente ali alguns interesses pudessem interagir e conviver.

Edifício de articulação potente com o espaço público, também é possível perceber sinais de uma apropriação pautada pela privatização, como a necessidade de contratação de seguranças, instalação de portões delimitando passagens e horários específicos e até mesmo no gesto emblemático de adotar decoração de Natal, hábito característico dos grandes shoppings, em princípio dirigido a um público muito distinto dos frequentadores da Galeria.

Síntese

Herdeiro de um processo cíclico que intercalou a formação apartada da cidade, uma efervescência caracterizada pela constituição de equipamentos culturais potentes e o abandono de sua arquitetura formal, o Largo do Paiçandu vive um momento em que o pulso de seu entorno se intensifica pelas apropriações.

De uma forma orgânica, essas dinâmicas podem ser sintetizadas nas micropolíticas de ocupação nas imediações, sobretudo ligadas aos equipamentos de transporte, aos serviços dos equipamentos culturais, aos estabelecimentos de serviço popular nos setores de alimentação e lazer, observados nas imediações e em função da Galeria do Rock. Vale também observar o contágio que se dará a partir da inauguração do Paço das Artes.

De uma forma mais sistemática, os movimentos de que reivindicam moradia têm ocupado imóveis nas faixas entre o Largo e a Avenida Ipiranga, e entre o Largo e o Vale do o Anhangabaú, em frente ao mesmo Paço das Artes, caracterizando a Avenida São João como um possível vetor de transformação do Largo.

Todas essas apropriações colocam urgência na demanda de uma contrapartida da

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