A voz-off inicia-se com o tema da dor e de Deus. Que se queremos ser livres de dor, devemos acreditar, e que quer queiramos quer não, Deus estará ao pé de nós.
Decorrem imagens algo gastas com o tempo, como se se tratassem de imagens de arquivo (imagem 9.1). A voz-off expõe factos: a quatro de Julho de 1947, uma estranha nave despenhou-se no deserto do Novo México, na América; o que aconteceu ainda hoje está para provar, conjectura tornou-se facto e rumor tornou-se história.
O humming noise convida-nos a voltar a Lain. A heroína encontra-se vestida com o seu fato de urso, sentada na cama, com uma expressão de grande tristeza. Alguém abre a porta do quarto e Lain espreita quem é. Surge um extra-terrestre cinzento com uma camisola verde e vermelha às riscas (imagem 9.2), que lhe sorri e desaparece. Aqui envolvem-se as teorias conspiracionistas, tornando a ficção, portanto, científica, envolvendo elementos
que existem na nossa realidade mas que ainda não foram comprovados, estando num limbo entre a fantasia e o real. Este tipo de elementos traz as narrativas mais próximas do espectador, que acaba por perder a noção do que será verdadeiro apenas dentro da narrativa ou o que é, de facto, verdade. Este jogo, em que a atenção do espectador em muito influencia, depende da forma como é construída a história no audiovisual. O que se segue ajuda fundir o real com o fantasioso...
Voltando ao formato anterior de documentário, a voz-off masculina explica: em 1984, um envelope chegou à casa do produtor televisivo Jaime Shandera; anónimo, o envelope continha um rolo de filme por revelar, e esse filme era na verdade o chamado documento MJ-12; Roscoe Hillenkoetter, chefe da CIA na altura do incidente de Roswell, estava no topo da lista de 12 membros, constituída por ordem do presidente norte-americano, que teriam feito um tratado com extraterrestes; é aceite que a assinatura do Presidente Truman fora copiada de outro documento; um dos membros do MJ-12 era Vannevar Bush, chefe do departamento de Engenharia Eléctrica do MIT.
A explicação é interrompida e voltamos a Lain, que se liga à Wired. Ela procura saber como poderá tornar algo que aconteceu em algo que não aconteceu. As formas humanóides a quem Lain se dirigia conheciam-na mas ela não os conhecia a eles, o que a deixou confusa. Uma das formas explica- lhe que nem sempre a informação corre em ambos os sentidos, que desde o momento da criação da Wired que Lain ali existe e que ali é livre. A heroína enerva-se e reclama que ela não é a outra Lain. Se um ser é lembrado, então fará parte de uma gravação, explica uma das figuras, depois de calar outra voz. Por detrás da heroína, uma figura de voz feminina diz que não faz sentido, que ela é só uma criança, sendo mais nova do que pensam. Lain volta a irritar-se e pede para que não se preocupem consigo.
Retomando a explicação documentária, explica-se que o conceito da memória expansiva MEMEX foi mostrado por Vannevar Bush em 194517. Um sistema onde a informação era gravada em microfilme e projectada num ecrã translúcido. Bush visionava a compressão e rápido acesso da informação,
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Vannevar Bush nasceu em 1890, e faleceu em 1974. É considerado o pai do hipertexto, apesar ter falecido antes do aparecimento da Internet. Concebeu o MEMEX e o seu artigo, “As we may think”, serviu de orientação para outras figuras como Ted Nelson.
criando a base para o multimedia actual, mesmo antes da existência de computadores, enquanto liderava as experiências do Manhattan Project (bomba atómica).
Na discoteca Cyberia, o conhecido de Lain chama-a e dá-lhe um envelope que ela teria deixado cair no dia anterior. Ela fica confusa, mas aceita o envelope. Ao abrir o mesmo, encontra um chip com o símbolo dos Knights.
No documentário, conduzindo experiencias de privação sensorial, utilizando narcóticos dos nativos americanos e tanques de isolamento para provar o inconsciente humano, John C. Lilly acreditava que as suas experiências o ligavam a entidades cósmicas maiores através duma comunicação em rede18. Apelidou-as de E.C.C.O. (Earth Coincidence Control Office) e posteriormente começou a trabalhar na comunicação com golfinhos, sendo estes capazes de conduzir uma rede ampla através da água por ondas ultra sónicas.
Na discoteca, Lain dirige-se às três crianças, na tentativa de marcar um encontro com o rapaz com quem havia falado anteriormente sobre a Psyche. Taro diz-lhe que sairia com a outra Lain, mas Lain garante-lhe que são a mesma pessoa.
Lain leva Taro para o seu quarto. O jovem fica impressionado com o avanço tecnológico do Navi personalizado da heroína. Lain pede-lhe que se sente e mostra-lhe o dispositivo que recebeu dos Knights. Pergunta-lhe se é ele quem faz parte dos Knights e Taro espanta-se ao ver que a Lain que vê é a Lain real. A shōjo diz-lhe que não sabe se existirá outra na Wired ou não, mas que de certeza não haverá outra no mundo físico. A outra com corpo apenas terá aparecido na discoteca. Pergunta-lhe se ele só precisa de manipular as memórias das pessoas lá, ao que Taro se tenta esquivar e cai. A heroína manda o Navi tocar a Track 44. No piso de baixo, os pais dela escutam e o pai comenta que está quase a acabar, finalmente, e a irmã, sentada no chão, continua no mesmo estado, finge pegar num telefone e diz estar agora a comunicar.
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John Cunningham Lilly nasceu em 1915, e faleceu em 2001. Investigou a consciência humana, concebendo um tanque de isolamento na década de 1950. As pesquisas deste especialista na área dos limites da experiência humana e da sua consciência levaram à discussão de novos tópicos como “the hardware/software model of the human brain/ mind, and the initiation of worldwide efforts at interspecies communications with large-brained dolphins”. Fonte: http://www.johnclilly.com/ (última consulta: Junho de 2013)
Lain dá ordem para que pare a música e interroga Taro sobre os efeitos daquele dispositivo. Taro não sabe pois ainda é uma criança e não poderia, como tal, ser um membro formal dos Knights. Lain pressiona-o, e ele responde ser uma memória não volátil que reescreve memórias existentes. Taro defende os Knights ao dizer-lhe que são utilizadores que lutam para que a única verdade se torne realidade. Ela pergunta-lhe o que ele quer dizer com “única verdade”, mas ele não sabe. Taro acaba por a beijar.
Retornando o documentário. A voz-off avança com a explicação: Ted Nelson, que estudou sob dois pioneiros, Vannevar Bush e John C. Lilly, propôs uma biblioteca electrónica gigante em satélites de órbita estacionária que poderia ser utilizada em qualquer terminal na Terra, seja por via rádio ou por linhas telefónicas, denominada Xanadu, onde todas as culturas escritas nunca se perderiam, que seria possível com o conceito de hipertexto. Ted Nelson seria apontado como o seu criador.
Lain, num estado de transe, fala com o Navi e menciona “memory check”. Assim, recorda-se do momento em que foi levada pelos homens de negro a sua casa, e a apresentação à sua família, acabando por se reencontrar consigo mesma no quarto. Lain crê ser tudo mentira.
No documentário, explica-se agora que a Terra tem as suas próprias ondas electromagnéticas, entre a ionosfera e a superfície terrestre há uma constante ressonância de frequência 8Hz na banda ELF, a que se chama Ressonância de Schumann. A extensão do efeito destas ondas nos humanos é desconhecida. A população humana está atingir o mesmo número de neurónios do cérebro. Douglas Rushkoff propôs que a consciência da própria Terra poderá ser acordada quando todos os humanos estiverem colectivamente conectados e a evolução da rede seguiria o modelo neural, da mesmo forma que no cérebro humano há sinapses, a Terra seria uma rede neural.
Lain reflecte e afirma só existir uma verdade, e que essa é Deus. Ao que uma voz responde “Sim. Eu.”.
No documentário, o pesquisador Masami Eiri dos Laboratórios Gerais Tachibana, avançou com a hipótese de uma rede neural mundial. A sua proposta envolvia a existência de uma rede wireless onde toda a humanidade estaria ligada de forma inconsciente sem o uso de qualquer tipo de dispositivo
técnico, e acabou por codificar a Ressonância de Shumann e inseri-la no Protocolo 7 da Wired pela sua própria iniciativa. Após a descoberta, os Laboratórios dispensaram Eiri e o seu corpo foi encontrado nas linhas férreas, na semana seguinte.
Na última cena do episódio, Lain encontra uma figura macabra na rua. Trata-se de Eiri Masami, cujo corpo apresenta fitas negras nas zonas onde foi cortado, nas linhas férreas (imagem 9.3).