Para que se possa entender melhor os fundamentos da Educação a Distância, é necessário também compreender as legislações vigentes no horizonte maior da educação. As leis que regulamentam esta modalidade de ensino subsidiam os atos legais e processos específicos de regulação, supervisão e avaliação do poder público e, de forma indutória, promovem a organização de sistemas de EaD no Brasil.
A primeira menção oficial da modalidade ocorreu na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). A primeira LDB (nº 4.024, de 20 de dezembro de 1961): “pelo artigo 104, permitiu a organização de cursos ou escolas experimentais, dependendo de autorização caso a caso do CEE, ao se tratar de cursos primários e médios, e do CFE, quando cursos superiores” (Gomes, 2008, p.21). Já a segunda LDB (nº 9.394/96, de 20 de dezembro de 1996): “foi responsável por um novo status da EAD, antes clandestina ou excepcional” (Gomes, 2008, p.21). Por meio do artigo 80, ocorreu o estabelecimento desta modalidade de ensino, conforme pode ser observado abaixo
Art. 80. O Poder Público incentivará o desenvolvimento e a veiculação de programas de ensino a distância, em todos os níveis e modalidades de ensino, e de educação continuada.
§ 1º A educação a distância, organizada com abertura e regime especiais, será oferecida por instituições especificamente credenciadas pela União.
§2º A União regulamentará os requisitos para a realização de exames e registro de diploma relativos a cursos de educação a distância.
§3º As normas para a produção, controle e avaliação de programas de educação a distância e a autorização para sua implementação, caberão aos respectivos sistemas de ensino, podendo haver cooperação e integração entre os diferentes sistemas. §4º A educação a distância gozará de tratamento diferenciado, que incluirá:
I – custos de transmissão reduzidos em canais comerciais de radiodifusão sonora e de sons e imagens;
II – concessão de canais com finalidades exclusivamente educativas;
III – reserva de tempo mínimo, sem ônus para o Poder Público, pelos concessionários de canais comerciais.
Este artigo prevê, ainda, de acordo com Gomes (2008, p.21) ● credenciamento das instituições da União;
● normas para produção, controle e avaliação de programas e autorização para implementá-los a cargo dos respectivos sistemas de ensino;
● tratamento diferenciado, incluindo custos reduzidos no rádio e televisão, concessão de canais com finalidades exclusivamente educativas e reserva de tempo mínimo pelos concessionários de canais comerciais.
Além disso, muitos outros decretos, normativas e diretrizes referentes a EaD foram sancionados. Posteriormente, seguiu-se com a portaria nº 4.059, de 10 de dezembro de 2004, a qual trata da inserção da semipresencialidade, caracterizada como
Quaisquer atividades didáticas, módulos ou unidades de ensino-aprendizagem centrados na autoaprendizagem e com a mediação de recursos didáticos organizados em diferentes suportes de informação que utilizem tecnologias de comunicação remota.
Esta portaria orienta sobre o uso do percentual máximo de 20% da carga horária total dos cursos, em disciplinas presenciais dos currículos regulares e reconhecidos, bem como orienta sobre a necessidade de realização de avaliação, estágios, defesa de trabalhos ou prática em laboratório de modo presencial. Aborda, por fim, a necessidade de corpo docente e tutores qualificados para os momentos de aula, sejam eles presenciais ou a distância.
Em continuidade a estes documentos, o decreto nº 5.622, de 19 de dezembro de 2005, regulamenta o artigo 8º da LDB e estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Para os fins deste Decreto
Caracteriza-se a educação a distância como modalidade educacional na qual a mediação didático-pedagógica nos processos de ensino - aprendizagem ocorre com a utilização de meios e tecnologias de informação e comunicação, com estudantes e professores desenvolvendo atividades educativas em lugares ou tempos diversos.
O decreto também define os níveis e modalidades educacionais, incluindo os cursos de mestrado e doutorado, as formas de avaliação dos estudantes, os atos autorizativos do MEC, entre outros. Nesse sentido, Gomes (2008, p.23) afirma que embora o decreto avance em relação a alguns aspectos: “é marcado pela preocupação detalhada com as regras e os documentos necessários aos diferentes processos”.
Merece menção ainda o decreto nº 5.800, de 08 de junho de 2006 que institui o Sistema Universidade Aberta do Brasil - UAB, que objetiva expandir e interiorizar a oferta de cursos e programas de educação superior; do mesmo modo que o decreto nº 6.303, de 12 de dezembro de 2007, o qual atualiza os decretos no 5.622 e 5.773, de 9 de maio de 2006, fundamentando, assim, as novas normas referentes aos processos específicos de regulação, supervisão e avaliação das instituições de ensino superior.
Já os processos de credenciamento e recredenciamento de instituições de educação superior para a oferta de cursos de pós-graduação e cursos superiores a distância, bem como os procedimentos de autorização, reconhecimento e renovação de reconhecimento de cursos superiores são reportados nas portarias nº 4.361 de 29 de dezembro de 2004 e nº 02 de 10 de janeiro de 2007.
Após anos de estagnação nas legislações e frente às discussões nos diversos setores envolvidos com a modalidade a distância que propunham o apontamento de novas diretrizes para a oferta de cursos e programas de Educação a Distância, condizentes com o real avanço ocorrido nos últimos anos, foi elaborado pela Comissão do CNE, cuja presidência estava a cargo do Prof. Luiz Roberto Liza Curi, Processo nº 23001.000022/2013-98, o Marco Regulatório para a EaD (2015). Caracterizado como um documento inicial, elaborado pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), o marco visou um esboço para o Parecer nº 564 de 2015, que discute e propõe as Diretrizes e Normas Nacionais para a oferta de Programas e Cursos de Educação Superior na Modalidade a Distância, sendo instituído posteriormente pela Resolução nº 1, de 11 de março de 2016. Entretanto, dentre todas as proposições sugeridas, algumas não foram atendidas na elaboração do Parecer 564/2015. Conforme destacado pela ABED (2016, p.2-3) em carta enviada ao Ministro da Educação, ficaram pendentes os ajustes referentes à
a) autorização e regulamentação do uso de Bibliotecas Digitais; b) autorização e regulamentação para expansão de polos das IES que tenham IGC contínuo igual ou superior a 4, sendo que a IES poderá expandir o número de polos a cada dois anos, sem necessitar de visita prévia para sua ativação. As visitas e avaliações referentes a esses polos ocorrerão quando do reconhecimento dos cursos oferecidos e/ou no
recredenciamento da IES, o que acontecer primeiro; c) permissão para que sejam constituídas IES para oferta exclusiva de cursos na modalidade a distância; d) definição da modalidade dos cursos considerando o maior percentual da modalidade de oferta das atividades de ensino e de aprendizagem; e) permissão para que as IES sejam efetivamente autônomas, como definido na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB 9394/96, para descrever seus projetos, metodologias e modelos didático-pedagógicos para o ensino mediado por tecnologia de informação e comunicação, determinados nos seus documentos institucionais: Projeto de Desenvolvimento Institucional – PDI, Projeto Pedagógico Institucional – PPI e Projeto Pedagógico de Curso – PPC, de modo a promover, com seu corpo administrativo, docente, tutores e discentes, uma educação de qualidade e inclusiva, independente da modalidade de ensino; f) necessidade de uma profunda revisão dos Referenciais de Qualidade para Educação Superior a Distância (2007), de modo a contemplar diversos modelos didático-pedagógicos, que não necessariamente demandem tutoria presencial, além de diferentes metodologias recentemente incorporadas ao cotidiano da sociedade, assim como a necessidade de revisão da Portaria Normativa no 40*, de 2007, g) instituir o e-MEC, sistema eletrônico de fluxo de trabalho e gerenciamento de informações relativas aos processos de regulação, avaliação e supervisão da educação superior no sistema federal de educação, e o cadastro e-MEC de instituições e cursos superiores e consolida disposições sobre indicadores de qualidade, banco de avaliadores (Bases) e o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (ENADE) e outras disposições.
Após esta publicação feita em Março de 2016, outra portaria foi publicada. A portaria 1134, de 10 de outubro de 2016, revoga a Portaria MEC nº 4.059, de 10 de dezembro de 2004, e estabelece nova redação para o tema, especialmente ao que se refere à oferta do percentual de 20% de semipresencialidade em cursos de graduação. Em suma, o novo texto declara que as instituições de ensino superior, que possuam pelo menos um curso de graduação reconhecido, poderão inserir em seus cursos regularmente autorizados, a oferta de disciplinas na modalidade a distância.
Por fim, embora seja um documento norteador, sem força de lei, cabe destacar os “Referenciais de Qualidade para a Educação Superior à Distância”. Proposto pelo MEC, inicialmente em 1998, tal documento tem como objetivo definir princípios, diretrizes e critérios para as instituições que oferecem cursos nesta modalidade. Atualizado constantemente - em 2003 e, na última versão, em junho de 2007 - o documento orientador teve suas mudanças implantadas devido ao amadurecimento do processo e a inserção e uso das Tecnologias de Informação e da Comunicação. Além disso, ele é direcionado pelos tópicos a seguir: (i) Concepção de educação e currículo no processo de ensino - aprendizagem; (ii) Sistemas de Comunicação; (iii) Material didático; (iv) Avaliação; (v) Equipe multidisciplinar; (vi) Infraestrutura de apoio; (vii) Gestão Acadêmico-Administrativa; (viii) Sustentabilidade financeira. Este documento, assim como as demais legislações vigentes aqui apresentadas estabelecem, portanto, a padronização das normas e procedimentos para a incorporação do uso integrado de Tecnologias de Informação e Comunicação na educação.