5. A SENTENÇA JUDICIAL
5.3 Legitimidade e Legalidade
A linguagem ordinária atribui ao termo legitimidade dois diferentes significados. Um deles situado no campo específico e outro, de cunho genérico. Na modalidade genérica, legitimidade se aproxima do senso comum de justiça ou da ideia de racionalidade que assim é exigida de todo homem natural, ou melhor, homem mediano.
A outra resposta, de âmbito específico e assim a que mais se aproxima da proposta deste estudo, funciona como sendo uma qualidade do Estado administrador que o torna capaz de regular e assim de manter a obediência necessária pelos indivíduos na busca pelo bem viver, pelo viver bem. É por isto que todo poder legítimo procura pela excelência quando da demonstração de consenso pelo povo que o rege. Esta forma de credulidade popular, na legitimidade do Estado, é de fundamental importância como fator regulador de atos entre os indivíduos do mesmo grupo.
No campo conceitual, ainda, fácil encontrar uma modalidade para a expressão legalidade. Ela é tida como princípio jurídico em que os sistemas políticos devem repousar, especialmente aqueles de cunho democrático em obediência à máxima da administração pública, de que “a escada se varre de cima para baixo”.
De acordo com Paulo Bonavides, legitimidade:
É a noção de que todo poder estatal deverá atuar sempre de conformidade com as regras jurídicas vigentes.208
Para Eros Grau, de forma bem concisa embora esclarecedora, a legitimidade nada mais é do que:
[...] a legalidade acrescida de sua valoração ou, ainda, por outras palavras dele mesmo, o critério que se busca menos para celeridade de sua tramitação”.
compreender e aplicar do que para aceitar ou negar a adequação do poder a situações da vida social que ele é chamado a disciplinar.209 Como pensamento geral, é fácil afirmar que legitimidade guarda relação com o justo. Assim as decisões que forem consideradas justas também serão legítimas, sendo que o injusto será ilegítimo. Logo, a distinção que se constata entre a legitimidade e a legalidade é que esta última diz respeito à conformidade com a lei, com a ordem e com a justiça, sendo que a primeira se volta à aceitação ou não das decisões exaradas do sistema político administrador. Esta teoria pode ser utilizada no exemplo americano clássico voltado à adoção da lei seca que foi somente aprovada por pouco mais da metade da população, circunstância que a fez cair no descrédito e assim não prosperou.
Academicamente, pode-se concluir que a legalidade vai se voltar à investidura do poder, sendo que e a legitimidade vai se ligar à atuação deste poder. Um outro detalhe que poderá auxiliar na compreensão dos dois conceitos acima, funda-se na natureza de cada um deles. A legalidade é tida com um conceito absoluto ao declarar que algo é legal ou não. Não pode haver algo que seja ligeiramente legal ou ligeiramente ilegal.
Já a legitimidade está situada no campo relativo. Uma decisão não pode ser legítima ao extremo e uma outra próxima desta, ser considerada como ilegítima. Neste passo, é aceita a afirmação de que uma decisão é mais repleta de legitimidade que outra, próxima, como se apresentam as questões tributárias que se originam no legislativo, passam pela sanção do executivo e podem ou não parar nas barras dos tribunais, percorrendo, desta feita, os caminhos dos Três Poderes da República.
O estudo destas duas modalidades tem demonstrado a existência de muitos contornos acadêmicos no que se refere à catalogação de cada um no meio em que vive, resultando em dissensões bem como em relações de dependência entre ambas.
Giuseppe Lumia destaca que a legitimação consiste no poder de exercer um direito que compete concretamente a quem dele é titular.
209GRAU, Eros Roberto. O Direito Posto e o Direito Pressuposto. 7. ed. São Paulo: Malheiros, 2008. p. 84.
O autor acrescenta que:
[...] num Estado Democrático de Direito, a legalidade está próxima da legitimidade, isto é, não pode ser respeitada tão somente a exigência de que a atuação estatal seja baseada na lei em sentido formal. O instrumento de atuação do Estado deve não só ser formal, mas também estar de acordo com os valores basilares do Estado brasileiro, tais como a dignidade da pessoa humana, a busca de uma sociedade justa, livre e igualitária etc.210
E quando o assunto envolve os valores citados no final do parágrafo anterior, realça mais ainda a necessária intervenção do Estado como único agente dotado e assim legítimo de regular as relações sociais para tais fins.
Seguindo esta mesma linha, a legalidade pode ser definida, também, como o apego exigível às formas legais, considerada legal aquela ação que não contraria nenhuma disposição contida na lei, ou aquela forma que não se encontra proibida por lei. O ato humano para ser considerado legal deve ser aquele no qual o indivíduo age ao cumprir as ordens ditadas pela legislação, ou, como dito, quando da prática de uma ação não proibida pela mesma lei, ou, por fim, quando pratica uma ação sobre a qual a lei nada fala.
O nosso sistema político oferta ao cidadão a oportunidade de escolher os seus representantes e assim presume-se que ele acaba participando da elaboração das leis, dando-as como legítimas quanto à feitura de cada uma delas. Por este motivo, a legalidade tornou-se característica fundamental de todo e qualquer Estado democrático de direito, com ênfase maior quando da queda dos sistemas monárquicos, ocasião que fez prosperar a imposição de limites aos governantes.
Dissecando a expressão acima, fácil visualizar que a legalidade é requisito indispensável ao fortalecimento da soberania popular, tornando todos os direitos protegidos e independentes da vontade do Estado. Em suma: a efetiva participação do povo na elaboração de uma norma sedimenta e fortalece a noção de Estado.
Diante do que acima está disposto, agora fica mais fácil admitir o liame de dependência entre estas duas figuras, apesar de terem sido construídas em patamares diferentes. Restam, tanto a legitimidade como a legalidade, não mais 210LUMIA, Giuseppe. Elementos de teoria e ideologia do Direito. Trad. Denise Augustinetti. São
como conceitos meramente formais. Ao contrário, funcionam de forma sincronizada, eis que a legalidade deve ser exigida e observada na constituição do poder para que sempre haja legitimidade quando da manifestação deste poder. É por este motivo que se constatadas limitações à liberdade e à manifestação da sociedade, óbvio que esta forma de poder passa a ser considerada como ilegal além de já ilegítima.
Por fim, tem-se que a figura da legitimidade representa uma conquista dos cidadãos ao longo da história que deitou por terra a prática centralizadora até então observada e seguida por alguns Estados.