5. A SENTENÇA JUDICIAL
5.6 Natureza Processual do Pedido
Uma vez direcionado ao Juízo, o pedido e sua correspondente natureza, estes serão apreciados com o uso do artigo 293 do CPC, pelo qual deve haver uma interpretação restritiva216. Trata-se de regra indispensável à delimitação do objeto litigioso do processo217.
Para uma melhor compreensão desse dispositivo legal mister algumas considerações inter-relacionadas. A primeira delas é que a postulação inicial resulta 216Art. 293 - CPC: “Os pedidos são interpretados restritivamente, compreendendo-se, entretanto, no
principal os juros legais”.
217SILVA, Paula Costa e. Acto e processo dogma da irrelevância da vontade na interpretação e
como uma declaração de vontade218 e como tal, tem de ser interpretada. Para tanto, a vontade deve ficar adstrita especificamente ao pedido.
O Julgador aprecia a questão posta em juízo de acordo com a vontade declarada da parte que buscou pela interferência e atuação do Estado-Juiz que, assim, parte do campo in concreto e com o uso das normas positivadas passa a decidir o embate.
Para que esta prestação jurisdicional seja possível e eficaz, como já afirmado, os tribunais estão organizados através de normas internas, tanto no campo judicial como no âmbito administrativo. Em conjunto, o nosso sistema processual vigente está dividido em duas formas básicas para melhor distribuir e oferecer aos cidadãos esta modalidade de serviço público. A primeira delas, a jurisdição (do latim juris, "direito", e dicere, "dizer") é representada pelo poder que o Estado-Juiz detém para fazer valer o direito àquele caso apresentado, com a precípua de solucionar conflitos de interesses das partes e, com isso, resguardar a ordem jurídica e social além de aplicar a autoridade da lei posta. A outra, a competência é que vai definir o âmbito de exercício da atividade jurisdicional de cada órgão encarregado desta função. Tanto a jurisdição como a competência, podem sofrer variações por obedecerem a um modelo preestabelecido, dependente da matéria, das pessoas envolvidas, do local dos fatos etc.
Apreciando a declaração de vontade das partes o Juiz vai dizer quais as medidas a serem observadas o que pode resultar em diversas consequências que determinarão o tempo para que a questão seja decidida. Aqui estão incluídas as eventuais providências a serem tomadas, entre elas a realização de perícias, o envio de ofícios ou de cartas precatórias entre outros expedientes. Tudo para levar aos autos a melhor elucidação do ocorrido para que o Julgador sinta-se seguro quando da sentença.
E para que a convicção do Juiz se dê da forma mais clara e abrangente, a nossa modalidade processual adotou o princípio da substanciação em que a causa de pedir deve guardar íntima relação com o pedido, não se aceitando dissensão entre ambos, muito menos a figura do pedido implícito, em muitas vezes, oculto. 218MIRANDA, Francisco Cavalcanti Pontes de. Comentários ao Código de Processo Civil. 3. ed.
Daí a lição de que:
Não se pode considerar como pedido aquele que, embora pudesse ter sido formulado, não o foi219.
É desta maneira que deve se portar o Autor ao provocar o Judiciário, em pleno atendimento aos quesitos previamente postos e conhecidos.
Quanto ao Réu, diz o art. 302, III/CPC220 que terá o ônus processual de impugnar especificadamente os fatos afirmados pela parte autora. Se não o fizer, presume-se concorde com aquilo que não foi impugnado e tido como de possível ocorrência. Uma atenção deve ser dada para o inciso III do artigo acima ao trazer que essa presunção não ocorrerá, se os fatos não impugnados “estiverem em contradição com a defesa, considerada em seu conjunto”. Isto significa dizer que a norma exige uma interpretação sistemática da resposta dada pelo réu, a ser considerada além da interpretação literal, registre-se.
A causa de pedir na condição de fundamento do pedido é, portanto, dado imprescindível para a correta interpretação da postulação221. Isto porque a causa de pedir e as respectivas pretensões, num primeiro momento, situam-se como perspectivas do direito material buscado em Juízo. Neste prisma, há uma noção doutrinariamente pacífica pela qual a causa de pedir compõe-se da afirmação deste direito e o pedido se refere ao efeito jurídico material que deste direito decorre. Assim, o objeto do processo não pode ser delimitado sem que se levem em contas essas duas perspectivas.222
219PASSOS, José Joaquim Calmon de. Comentários ao Código de Processo Civil: Rio de Janeiro,
Forense, 2005 p. 209.
220Art. 302 - CPC - Cabe também ao réu manifestar-se precisamente sobre os fatos narrados na petição inicial. Presumem-se verdadeiros os fatos não impugnados, salvo:
I - se não for admissível, a seu respeito, a confissão;
II - se a petição inicial não estiver acompanhada do instrumento público que a lei considerar da substância do ato;
III - se estiverem em contradição com a defesa, considerada em seu conjunto.
Parágrafo único - Esta regra, quanto ao ônus da impugnação especificada dos fatos, não se aplica ao advogado dativo, ao curador especial e ao órgão do Ministério Público.
221MIRANDA, Francisco Cavalcanti Pontes de. Comentários ao Código de Processo Civil. 3. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1999, t. 4. p. 82.
222 MANDRIOLI, Crisanto. Riflessioni in tema di petitum e di causa petendi. Rivista di Diritto Processuale. Padova: CEDAM, 1984, v. XXXIX, p. 474.
A jurisprudência, pelo Superior Tribunal de Justiça, já se manifestou neste caminho quando entendeu que o pedido deve ser interpretado de acordo com o todo da postulação. Entretanto, para aqueles de difícil compreensão, outra saída não há senão a aplicação da inépcia. A ementa estampa que a postulação é envolvida pela declaração de vontade conforme preconizado no artigo 158 do CPC.223
Também funcionando como justificativa e razão de decidir, o artigo 112 do Código Civil informa que “nas declarações de vontade se atenderá mais à intenção nelas consubstanciada do que ao sentido literal da linguagem”. Trata-se de dispositivo plenamente aplicável à interpretação do pedido.224 É preciso investigar a vontade do postulante, para que se possa proceder corretamente à interpretação do pedido. Registre-se: a vontade da parte não é irrelevante.225
Embora a interpretação literal seja o ponto de partida – uma interpretação que contrarie frontalmente o texto ou que não se tenha um “mínimo de correspondência no texto respectivo”226, dificilmente será considerada como legítima, eis que ela não é a única técnica possível de interpretação.227
223Art. 158. Os atos das partes, consistentes em declarações unilaterais ou bilaterais de vontade,
produzem imediatamente a constituição, a modificação ou a extinção de direitos processuais.
224Assim, STJ, 3ª. T., resp n. 613.732-RR, Rel. Min. NANCY ANDRIGHI, j. em 10.11.2005:
“Processual Civil. Interpretação de ato processual. pedido de desistência da ação interpretado como renúncia. Sentido literal da linguagem empregada incorretamente pela parte. Inadequação. Busca pela real vontade contida no ato processual. Renúncia. Necessidade de interpretação restritiva. – A interpretação literal e gramatical dos atos processuais é a mais pobre e perigosa das interpretações, acabando por desviá-lo de sua finalidade, com desastrosas consequências. – É imprescindível ao aplicador ou intérprete do ato processual perquirir pela valoração volitiva inserta em seu conteúdo, pois o conteúdo deve preponderar sobre a forma. – a renúncia ao Direito que se funda a ação é classificada tanto pela doutrina como pela jurisprudência como instituto de natureza material e, por isso, deve ser interpretada restritivamente. O pedido é uma declaração de vontade que precisa ser descodificada, ela deve ser interpretada atendendo-se mais à intenção do autor do ato do que ao seu sentido literal (art. 112 do CC). Perquirição da vontade efetiva do autor do ato e interpretação restritiva dos pedidos não são, portanto, vetores incompatíveis”.
225 SILVA, Paula Costa e. Acto e processo – o dogma da irrelevância da vontade na interpretação e nos vícios do acto postulativo. Coimbra: Coimbra Editora, 2003, p. 341 et seq. 226PEREIRA, Luis Guilherme Gonçalves. A possibilidade jurídica de julgamentos implícitos no
processo civil. Dissertação de mestrado. Universidade Federal da Bahia, 2012, p. 71. A
propósito, como referência, o n. 1 do art. 238º do Código Civil português, que cuida dos negócios jurídicos formais: “1. Nos negócios formais não pode a declaração valer com um sentido que não tenha um mínimo de correspondência no texto do respectivo documento, ainda que imperfeitamente expresso”.
Contudo, depois das afirmações acima é salutar ficar registrado que a interpretação do pedido deve sempre observar o pleno direito de o réu se defender, contestando, excepcionando ou reconvindo.
Em obediência à ética não se pode destinar uma conotação ou interpretação que possam comprometer a resposta do réu, resposta dirigida àquilo que foi postulado pela parte autora. Se não é lícito, não é ético proceder a uma interpretação diversa com o propósito de extrair dela uma pretensão não contestada, especificamente, pela defesa.
A manifestação do réu, porém, é um dado relevante para a definição do quanto foi postulado. Por vezes, embora a petição não seja tão clara – o que poderia levar à inépcia da petição inicial –, a contestação, que também deverá ser interpretada, serve para revelar o sentido em que a postulação do autor foi formulada”228 - sentido esse que foi efetivamente contestado pelo réu229.
Registre-se que a postulação em juízo é uma declaração de vontade com no mínimo dois destinatários, a contraparte e o órgão jurisdicional230.
Como afirma Paula Costa e Silva:
[...] dificilmente se poderá justificar que, existindo uma convergência das partes quanto ao sentido com que devem ser compreendidos os comportamentos processuais, este entendimento possa ser postergado por um entendimento divergente do tribunal.231
Neste sentido, o que se vê nos tribunais é a declaração da inépcia da petição inicial quando recheada de pedidos obscuros e não relacionados ou dependentes da causa de pedir, dificultando tanto a resposta do réu como ao depois o pronunciamento judicial.
Por sua vez, o artigo 293 do CPC já transcrito acima, dá conta de que o Julgador deve se voltar à natureza dos pedidos realizados, observar se há modalidade implícita, apesar de proibida, identificá-los traçando um norte para a sua 228 SILVA, Paula Costa e. Ob. cit. p. 393.
229 PEREIRA, Luis Guilherme Gonçalves. A possibilidade jurídica de julgamentos implícitos no processo civil. Dissertação de mestrado. Universidade Federal da Bahia, 2012, p. 74.
230SILVA, Paula Costa e. Ob. cit. p. 380. Obs: Assim como a manifestação do autor (réplica) sobre a
contestação é um dado relevante para a correta interpretação da peça de resposta do réu.
atuação que seguirá com a resposta do réu, fase instrutória e ao depois decisória, quando da entrega da prestação jurisdicional.
Ainda sobre a natureza do pedido, alguns doutrinadores voltados ao Direito do Trabalho afirmam que quando da apreciação de um caso desta espécie, sub
judice, há de ser observada a representação da parte autora, pois esta matéria está
situada em campo especializado, merecendo atenção diferenciada. E o autor (ex- trabalhador, vg) não poderá experimentar prejuízos se os pedidos em conjunto com a causa de pedir não foram confeccionados por quem desta área, repita-se, especializada. Para tanto, recomendam a aplicação de um princípio exclusivo e assim praticado neste ramo judicial fundado na “ultra-petição” eis que o Judiciário deve se restringir ao pedido formulado pelas partes, já que são proibidos os julgamentos extra, citra ou ultra petita.
Pelo princípio acima, tratando-se a matéria de direitos laborais, pode o Julgador, com o cuidado de não advogar para as partes, vislumbrando a categorização jurídica representada pela subsunção dos fatos àquele direito aplicável, moldar a pretensão do autor, não por estar implícita, mas, sim, porque é devida diante de outras pretensões deduzidas em conjunto, sempre, com a causa de pedir.
Exemplos mais comuns se dão quando (verbi gratia) o autor pretende por férias não usufruídas ou não quitadas sem requerer, em conjunto, o terço constitucional correspondente e devido. Um outro, quando o autor pretende pelo reconhecimento de um período trabalhado sem fazer o pleito da devida anotação em CTPS.
Também se constata tal prática, quando o Autor, dispensado que foi sem justo motivo, pretende pelo saque dos valores de FGTS que deveriam estar depositados em sua conta vinculada sem fazer alusão à multa pelo distrato de 40%, incidente sobre a totalidade daqueles depósitos.
Já ao fim deste assunto, por acreditamos que é muito oportuna, uma reflexão sobre a expressão “reclamação trabalhista”, utilizada desde os anos quarenta, quando da criação e vigência da CLT.
Alguns processualistas defendem que não há mais lugar para tal denominação. O que se deve ter, atualmente, é apenas a expressão “ação”, de uso
comum, pela qual restam admitidas as figuras do “autor” e do “réu”, sem mais se falar em “reclamante” e “reclamado”, embora a expressão “reclamação trabalhista” ainda mantém o caráter e objetivo social de mostrar ao Juízo que o trabalhador “clamou” ao seu empregador a satisfação, o cumprimento do que foi pactuado, mormente a quitação das verbas devidas e sem ter recebido uma solução satisfatória, vai ao Judiciário, “reclamar” aquilo a que faz jus e lhe foi subjetivamente negado.
Na sequência, o próximo assunto é consequência desta explanação supra e vai cuidar dos direitos direcionados à parte que se sente lesada pela ação ou inação de terceiros quando da não observância de matéria ajustada entre eles, ou pelo não cumprimento da legislação positivada, sabendo que “o contrato faz lei entre as partes”, se os agentes forem capazes, se o objeto contratado for lícito, se a forma eleita não for defesa ou prescrita em lei e se não houver a exigência de determinada solenidade para o ato.