3. AS LEIS Nº 10.639/03 E 11.645/08 E A POSSIBILIDADE DE UMA EDUCAÇÃO
3.3. LEI Nº 10.639/03: UMA HISTÓRIA DE CONQUISTAS
Os movimentos sociais constituem-se a partir dos anos de 1980, determinantes para questões relacionadas à diversidade. A pressão exercida por esses movimentos, ao longo da história, em busca da garantia de igualdade de direitos, do respeito às diferenças, desencadeou políticas de ações afirmativas.
Dessa forma, devido às pressões sociais, o entendimento da diversidade como construção social constituinte dos processos históricos, culturais, políticos, econômicos e educacionais e não mais vista como um “problema” começa a ter mais espaço na sociedade, nos fóruns políticos, nas teorias sociais e educacionais (GOMES, 2012, p. 688).
Nesse sentido, os movimentos sociais conseguem que suas reivindicações passem a fazer parte das arenas de disputas políticas e, muitas delas, acabam por se constituir em políticas educacionais. Nesse sentido, a Lei nº 10.639/03 é uma conquista dos movimentos sociais, especificamente, dos movimentos negros, e tem a educação como ponto de partida para que as desigualdades sociais sejam superadas e as diferenças sejam motivo de orgulho e não de preconceito.
A aprovação da Lei nº 10.639/03, a qual completou 10 anos no ano de 2013, tem raízes bem anteriores. Segundo Silva (2010), o final dos anos de 1970, com a reabertura política, foi o momento de reorganização dos movimentos negros no Brasil. Na agenda desses movimentos, um papel de destaque foi dado à educação, principalmente, no tocante à História e cultura Africana e afro-brasileira.
Nós, negros (as) brasileiros (as) percebemos a ausência de registros da nossa História social, o processo de leitura etnocêntrica e eurocêntrica da História sistematicamente difundido pela escola brasileira, a desvalorização constante de formas de manifestação da nossa alteridade, de aspectos diversos de nossas culturas e raízes (SILVA, 2010, p. 294).
Nesse sentido, é oportuno destacar a origem da Lei, a fim de perceber o tempo decorrido da proposta inicial até sua aprovação no Congresso Nacional. Abdias do Nascimento destacava-se pela liderança que exercia entre os intelectuais e ativistas negros. Durante o exílio, de acordo com Silva (2010) assumiu a cadeira de “Cultura Africana no Novo Mundo” na Universidade do Estado de Nova York. Ao retornar ao Brasil, assumiu o mandato de Deputado Federal e apresentou o projeto de Lei nº 1.332 de 1983 (SILVA, 2010). O artigo 8º do Projeto de Lei propõe o ensino de História e Cultura Afro-brasileira, a partir de mudanças no currículo desde o ensino primário, hoje ensino fundamental, até o ensino superior e pós-graduação. Além da proposta de eliminar do ensino e das cartilhas a apresentação do negro de forma estereotipada, como apto para a escravidão, submisso. Para ilustrar melhor as intenções de Abdias do Nascimento, cabe aqui mencionar a justificativa feita para o Projeto de Lei nº 1.332/83.
O conteúdo da educação recebida por aquelas crianças negras que têm oportunidade de estudar representa outro aspecto da desigualdade racial anticonstitucional na esfera da educação [...] a civilização e história dos povos africanos, dos quais descendem as crianças negras, estão ausentes do currículo escolar. A criança negra aprende apenas que seus avós foram escravos; as realizações tecnológicas e culturais africanas, sobretudo nos períodos anteriores à invasão européia da África, são omitidas. Também se
omite qualquer referência à história da heróica luta dos afro-brasileiros contra a escravidão e o racismo, tanto nos quilombos como através de outros meios de resistência. Comumente o negro é retratado de forma pejorativa nos textos escolares, o que resulta na criança negra em efeitos psicológicos negativos amplamente documentados. O mesmo quadro tende a encorajar, na criança branca, um sentimento de superioridade em relação ao branco. O art. 8º deste projeto de lei objetiva a correção desta anomalia e a implementação do direito à isonomia assegurada pela constituição (NASCIMENTO, 1983 apud SILVA, 2010, p. 297)
Trata-se de um ensino que leva em consideração a diversidade, que seja dado à criança negra o direito de conhecer a própria história, sem estereótipos. Que seja apresentado ao estudante, os povos indígenas e africanos não só como silvícolas, como escravos, mas também, enquanto sujeitos da própria história. São povos que resistiram bravamente ao processo de colonização, que possuem uma cultura própria e lutam para que esta seja valorizada e não objeto de discriminação. Faz-se necessário que o conhecimento da história dos povos tenha por princípio a igualdade, que nenhum seja superior ao outro, para que todos, crianças negras e brancas, não vejam as diferenças como forma de discriminação.
Outro fator que Abdias destaca e que precisa ser revisto pela escola são as ideias veiculadas sobre o povo negro, em relação às questões étnico-raciais, presentes no material didático. Os estereótipos do negro como escravo, com uma enxada na mão ou sendo açoitado pelo capataz nas fazendas e a mulher negra como mucama ou ama de leite, sempre servindo ao branco. Esse é um pequeno exemplo do que é difundido nas escolas pelo material didático. Há que se ter um posicionamento crítico, não só no trabalho com o material, mas na escolha dele também. A escolha do material para o trabalho em sala de aula condiz com a postura do professor diante do que ele espera do seu aluno, diante do que ele entende por cidadania, democracia e outros conceitos que não adentraremos nesse momento. Nesse contexto:
A percepção é que ideias restritivas e manipuladas sobre a história e as tradições africanas e afrobrasileiras, sistematicamente difundidas pela escola, pelos currículos e pelos livros didáticos (que operam tanto por informações restritivas ou equivocadas quanto pela omissão) atuam para criar nos alunos uma predisposição à hierarquia racial (SILVA, 2010, p. 298).
De acordo com Silva (2010), a escola, ao proporcionar aos alunos brancos, negros, amarelos e indígenas o conhecimento de elementos da História e cultura afro-brasileiras, teria o objetivo de reconhecer os elementos civilizatórios das culturas africanas da diáspora, possibilitando aos alunos em geral o reconhecimento do processo civilizatório dos povos
africanos e aos alunos negros, em particular, a construção de identidade pautada em aspectos de positividade sobre seu grupo e sobre si mesmo.
Assim, passados 20 anos do projeto inicial e após muita mobilização e luta dos movimentos negros de todo País, em 09 de março de 2003, é sancionado, pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a Lei nº 10.639 que, por sua vez, modifica a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB nº 9.394/96), acrescentando os arts. 26 A, 79 A (vetado) e 79B.
Art. 26-A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro- Brasileira.
§ 1o O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o
estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil.
§ 2o Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira serão
ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras. Art. 79-B. O calendário escolar incluirá o dia 20 de novembro como „Dia Nacional da Consciência Negra‟ (BRASIL, 2003 p. 25, grifo do autor).
Do mesmo modo, após o sancionamento da Lei, o Conselho Nacional de Educação aprovou a Resolução nº 01, de 17 de março de 2004, a qual institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico – Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-brasileira e Africana. O art. 2º da Resolução que institui as diretrizes define-as do seguinte modo:
As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico- Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africanas constituem-se de orientações, princípios e fundamentos para o planejamento, execução e avaliação da Educação, e têm por meta, promover a educação de cidadãos atuantes e conscientes no seio da sociedade multicultural e pluriétnica do Brasil, buscando relações étnico-sociais positivas, rumo à construção de nação democrática (BRASIL, 2004, p. 31).
Ao aliar a construção democrática às relações étnicas positivas, é perceptível que a função da educação está posta no sentido de transformar as relações étnico-raciais, propiciar aos estudantes conhecimentos que os tornem, cada vez mais, cidadãos capazes de combater qualquer forma de preconceito e discriminação na sociedade. Uma sociedade democrática
exige igualdade de direitos, exige o respeito às diferenças, exige o conhecimento da história e cultura dos povos negros e indígenas.
Nesse sentido, o parecer que regulamenta a alteração na LDB nº 9.394/96, trazida pela Lei nº 10.639/03, procura oferecer uma resposta, no que concerne à área da educação, à demanda da população afrodescendente, no sentido de ações afirmativas; isto é, de políticas de reparação, de reconhecimento e de valorização de sua história, cultura, identidade.
O presente documento salienta que tais políticas têm como metas os direitos dos negros de se manifestarem individual e coletivamente. O direito de se reconhecerem na cultura nacional. O direito de cursarem cada um dos níveis de ensino, em escolas equipadas, com professores qualificados para o ensino das diferentes áreas de conhecimento, com formação para lidar com as tensas relações produzidas pelo racismo e discriminações, sensíveis e capazes de conduzir à reeducação das relações entre diferentes grupos étnico- raciais.
A Lei vem com a intenção de rever esse currículo verticalizado, disputar espaço no currículo para que questões como essas passem a nortear o trabalho do professor. Segundo Silva (2011, p. 30), “tornamo-nos incapazes de perceber as vozes e imagens ausentes dos currículos escolares: empobrecidos, mulheres, afrodescendentes, africanos, indígenas, idosos, homossexuais, deficientes, entre outros”. Nesse contexto,
A implementação da Lei nº 10.639/03 e de suas respectivas diretrizes curriculares nacionais vem se somar às demandas do Movimento Negro, de intelectuais e de outros movimentos sociais, que se mantêm atentos à luta pela superação do racismo na sociedade, de geral, e na educação escolar, em específico. Estes grupos partilham da concepção de que a escola é uma das instituições sociais responsáveis pela construção de representações positivas dos afro-brasileiros e por uma educação que tenha o respeito à diversidade como parte de uma formação cidadã (GOMES, 2011b, p. 41).
Está claro que esses grupos acreditam que a escola tem papel fundamental na construção de uma educação para a diversidade, a formação cidadã está aliada ao respeito à diversidade. Certamente, é, também, papel da escola, enquanto instituição de ensino, se posicionar politicamente contra qualquer forma de preconceito e discriminação. Todo educador, independente de sua crença, de sua posição política ou pertencimento étnico-racial, tem por obrigação de lutar contra o preconceito racial.
Portanto, a temática referente à Lei em estudo requer empenho do poder público no sentido de investir nas escolas, em equipamentos e material didático que contribuam para o
trabalho com a diversidade e não, simplesmente, perpetue visões estereotipadas dos negros, da sua história e cultura. Outro fator relevante e mencionado nas diretrizes curriculares se refere à formação dos professores, mudanças precisam acontecer tanto na formação inicial, quanto na formação continuada.
O professor precisa sair da graduação com uma concepção de educação para as relações étnico-raciais. O conhecimento da história e cultura dos africanos e afro-brasileiros é de extrema necessidade para uma educação que prime pela democracia racial. Nesse cenário, a formação continuada em serviço merece uma atenção especial. Uma educação transformadora exige empenho do poder público na formação continuada do professor. Não há como exigir do professor uma prática voltada para superação do preconceito se não houver estudo, diálogo, momentos para que todas as vozes sejam ouvidas.
Quem sabe, a educação para a diversidade étnico-racial – e as indagações que ela traz aos processos de formação inicial e continuada de professores (as) – poderá ser um dos caminhos para a construção de subjetividades mais democrática, nos dizeres de Santos (1996). Poderá ser a indicação de uma mudança nos currículos dos cursos de licenciatura e de pedagogia, em uma perspectiva emancipatória (GOMES, 2011b, p. 57).
Logo, uma formação voltada para uma perspectiva emancipatória, como a própria autora menciona emancipação entendida como transformação social e cultural, como libertação do ser humano. Assim, certamente, a educação terá um caráter de transformação.
De acordo com Santos (2008), todo projeto emancipatório está baseado em um perfil epistemológico que abriga um conflito. Com a implementação da Lei nº 10.639/03 não poderia ser diferente. É um projeto emancipatório, porém já está completando 10 anos no ano de 2013 e muitas são as dificuldades para sua reinterpretação nas instituições de ensino.